José Cláudio Silva

Jakarta ‘Bling Bling’

A única opção para a viagem do aeroporto até ao centro de Jakarta é o automóvel. A fluidez do trânsito é muito reduzida, por vezes quase nula. No percurso atravessam-se bairros de lata que se estendem até se perderem de vista no horizonte plano e perceptivelmente poluído da metrópole. O desenvolvimento das infra-estruturas foi mais lento do que a expansão desordenada do tecido urbano, o sistema rodoviário “rápido” foi construído sobrelevado para evitar os processos complexos de expropriação e da realidade violenta da segregação nos bairros. Ao longo dos vários quilómetros de viaduto, tal como noutras megacidades do Oriente, os tecidos urbanos pobres vão alternando com os centros comerciais, que configuram pódios onde se pousam torres. O ritmo da alternância aumenta à medida que nos aproximamos das três avenidas – Sudirman, Subroto e Rasuna Said – que definem o chamado “Triângulo Dourado”, o lugar onde se concentram mais torres. Entre as avenidas, os palacetes e as torres alternam com a habitação espontânea, humilde e degradada. Estes elementos do património construído – a torre, o palacete e a favela, (des)ordenados e em sincronia com a presença caótica e contínua dos automóveis, motas e tuk-tuks (espécie de riquexós motorizados) foram a minha primeira visão de Jakarta – uma cidade pujante com profundas assimetrias sociais e contradições urbanas.

A caminho do centro, comecei a detectar uma fila ordenada, contínua, de pessoas alinhadas na berma da estrada e regularmente separadas por cerca de “um carro de comprimento”. Pediam boleia e, para minha surpresa, o motorista do táxi onde eu seguia parou e acolheu um passageiro extra, que saiu perto do destino e a quem o motorista, para minha maior surpresa, deu uma gorjeta. Aprendi então como funciona a solução do 3.º elemento, solução que permite viabilizar o acesso automóvel ao centro quando vigora a política do “3 em 1”, ou seja, mínimo três passageiros por viatura.

Em Jakarta, o mercado da construção e de projecto é assustadoramente fértil. Há sinais de especulação imobiliária em crescimento galopante, característicos de economias em bolha, cuja susceptibilidade de paragem súbita é evidente. A cidade está saturada e só funcionará com um sistema de transportes eficiente, que, no mínimo, só estará operacional dentro de cinco anos. Ainda assim, há uma confiança crescente no investimento interno e externo, na cidade e na Indonésia, e o investimento privado tem pujança suficiente para tomar iniciativas que habitualmente são promovidas pelos governos, como são exemplos os planos para o metropolitano e de modernização das estradas. Contudo, os programas de investimento privado são predominantemente comerciais e envolvem edifícios de escritórios e hotelaria, e por vezes habitação. O objectivo simbólico dos investidores consiste, na maioria dos casos, na repetição de clichés adaptados localmente, tendo como motes Tall is More ou Bling Bling is More. Neste contexto, os principais desafios para o arquitecto no processo de projecto consistem em controlar a incerteza constante dos parâmetros urbanos e dos objectivos programáticos. Existe um sistema de planeamento, mas, tal como os penduras nos táxis, há sempre forma de o contornar.

Na prática que tenho levado a cabo, juntamente com a equipa de design e projecto que lidero na Aedas, tem-se procurado evitar a simples extrusão de formas regulares que cria volumes banais, não identificáveis culturalmente ou descontextualizadas. Em contrapartida, a cultura local e as expectativas dos clientes obrigam ao desenvolvimento de propostas arquitectónicas mais expressivas e exuberantes do que as práticas ocidentais. O projecto da torre de Kebon Sirih, com aproximadamente 250 m de altura, é um exemplo desta condição. A sua localização é privilegiada para obter uma visão panorâmica do skyline de Jakarta e a sua presença será muito realçada por não haver, por enquanto, nenhum edifício alto a separá-la do Triângulo Dourado. O programa pressupunha uma torre implantada num rectângulo de 40 por 50 metros. Os parâmetros urbanos limitavam a área de construção a 90 000 m2 e a 45 pisos com 5,5 m de pé direito máximo, sendo 40 000 m2 destinados a hotel e 50 000 m2 a escritórios. Estes parâmetros eram limitadores de um desenho expressivo, solicitado pelo cliente, e restringiam a eficiência funcional do edifício.

Propôs-se que a forma da torre evoluísse de uma base rectangular para um topo em forma de amêndoa. Nos andares mais baixos propôs-se uma forma eficiente e facilmente comercializável, utilizando os 2 000 m2 de área permitidos por piso, e na parte superior, destinada a hotel, localizaram-se os quartos distribuídos ao longo das faces mais longas, vazando o núcleo central num dramático átrio com cerca de 20 pisos de pé direito. A forma amendoada, acentuada na porção de hotel, permite também que os quartos estejam preferencial e maioritariamente virados para o skyline da cidade. O edifício culmina com uma piscina e espaços de restauração.

Para controlar o desenho da forma adoptou-se um processo de parametrização que permitisse controlar a passagem do rectângulo da base para a amêndoa do topo. O algoritmo desenvolvido controla a forma geral e a volumetria, na proporção que pareceu preferível, bem como a altura máxima e a área total de construção permitidas. Por outro lado, a variação programática que é previsível não será, tendo em conta outras experiências com diferentes métodos de abordagem ao projecto, um factor que influencie a expressão do edifício ou que ponha em causa a estratégia adoptada ao ponto de pôr em risco a progressão do projecto. A partir da volumetria geral e do desenho da fachada – uma cortina de vidro concebida à imagem das escamas de um peixe e detalhada para integrar uma iluminação dinâmica em toda a sua superfície –, espera-se que resulte num projecto intemporal capaz de ser uma referência no design e na cultura bling bling da cidade.

 

Este artigo foi publicado no J-A 246, Jan — Abr 2013, p. 78-79.

Correspondente em Singapura