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	<title>Jornal Arquitectos &#187; 247</title>
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		<title>Afinal Ainda Se Constrói</title>
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		<pubDate>Fri, 17 May 2013 10:00:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>edit</dc:creator>
				<category><![CDATA[Em Construção]]></category>
		<category><![CDATA[247]]></category>
		<category><![CDATA[André Cepeda]]></category>
		<category><![CDATA[Isabel Barbas]]></category>
		<category><![CDATA[Ivo Poças Martins]]></category>

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		<description><![CDATA[Diz-se que no passado o percurso típico de início de carreira de um arquitecto promissor se resumia em quatro passos: concluir o curso, estagiar num atelier, ensaiar-se em concursos públicos e, vencendo algum com certa dimensão, estabelecer um escritório em nome próprio. Esta realidade mudou radicalmente durante a última década. No panorama actual existem arquitectos a mais para concursos públicos a menos.]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><strong><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/03_em-constr_marcelino.jpg"><img class="alignnone  wp-image-870" alt="Espaço de circulação interior, em Fevereiro de 2013" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/03_em-constr_marcelino.jpg" width="700" height="562" /></a>Centro escolar de Fonte De Angeão, Vagos.</strong><br />
<strong> Projecto de Miguel Marcelino.</strong></p>
<p>Diz-se que no passado o percurso típico de início de carreira de um arquitecto promissor se resumia em quatro passos: concluir o curso, estagiar num <i>atelier</i>, ensaiar-se em concursos públicos e, vencendo algum com certa dimensão, estabelecer um escritório em nome próprio. Esta realidade mudou radicalmente durante a última década. No panorama actual existem arquitectos a mais para concursos públicos a menos. O caso de Miguel Marcelino é uma excepção em que o modelo ainda se aplica. No seu currículo aquele percurso é claro e complementado com um aspecto cuja ausência tende a pôr em causa a eficácia do processo: a materialização dos projectos em obra. Num momento em que a construção abrandou dramaticamente, a obra do Centro Escolar de Fonte de Angeão é um exemplo onde resiste um certo modo de pensar a arquitectura, a possibilidade de estabelecer actividade própria de arquitectura e, também, uma forma positiva de construir um território educativo.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p><b>Vagos, capital do concurso público</b></p>
<p>Durante 2008, na área de competência da Secção Regional Norte da Ordem dos Arquitectos, foram publicados em <i>Diário da República</i> 36 concursos públicos de concepção de arquitectura e urbanismo. Entre estes, apenas sete foram previamente comunicados à OASRN e tiveram o seu apoio ou assessoria técnica, e cinco entre estes foram promovidos pelo município de Vagos para a construção de quatro novos centros escolares e para a requalificação de um já existente. O galardão pode ser contestado mas, naquele ano, Vagos ocupou o centro das atenções de muitos escritórios de arquitectura. No total, foram entregues ao município 163 propostas, repartidas pelos diferentes centros escolares a concurso.</p>
<p>Os regimes de excepção previstos no Código de Contratação Pública permitiam ao município recorrer ao ajuste directo para contratação destes serviços de projecto, o que tornou o processo singular. A opção pelos concursos públicos respondia à vontade de que este conjunto de obras pudesse constituir uma “referência no panorama da Arquitectura Portuguesa”. Na perspectiva da Câmara, o balanço da experiência é positivo: a contribuição da Ordem dos Arquitectos foi importante para o cumprimento do calendário apertado que se tinha estabelecido, e a participação de membros externos ao município nos júris foi fundamental para a credibilidade e transparência dos resultados do concurso, valorizando o processo administrativo da operação.</p>
<p><b>Um território educativo</b></p>
<p>O Centro Escolar de Fonte de Angeão está localizado num território de urbanização contínua de baixa densidade, organizada de forma linear ao longo das vias. Entre as casas divisam-se logradouros estreitos e muito profundos, de uso agrícola, que dominam a paisagem. Em vista aérea confirma-se que este padrão se repete por todo o município, exceptuando na vila de Vagos, a norte, relativamente mais densa. Perante a paisagem, a dimensão do novo centro escolar causa alguma estranheza, embora a escolha do lugar para a construção seja justificada nos desígnios da Carta Educativa do Concelho de Vagos, datada de Maio de 2006, que funciona como “instrumento de planeamento e ordenamento dos edifícios e equipamentos educativos do concelho e que visa desenvolver o processo de agrupamento das escolas, de forma a obter uma coerência satisfatória com a política urbana do concelho, no presente e no futuro”. Este documento estipulou a redução das 46 escolas existentes para cinco, mantendo-se apenas uma existente (que será ampliada) e construindo quatro novos edifícios. Desta concentração espera-se a optimização de recursos materiais e humanos, a melhoria das taxas médias de ocupação dos equipamentos e a reorganização dos transportes escolares. Só que, apesar dos concursos bem-sucedidos e do estabelecido na Carta Educativa, apenas se encontram em construção os centros de Fonte do Angeão e da Gafanha da Boa Hora, cujo projecto vencedor do concurso é da autoria do <i>atelier</i> António Portugal e Manuel Maria Reis.</p>
<p><b>Um ‘Atelier’ Em Construção </b></p>
<p>Miguel Marcelino concluiu o curso de Arquitectura na Universidade Autónoma de Lisboa em 2005, e nesse ano foi distinguido com o Prémio Secil de Arquitectura – Universidades.</p>
<p>No ano anterior tinha trabalhado no escritório Herzog &amp; de Meuron, em Basileia, na Suíça, e depois da licenciatura até 2007 estagiou com Bonell &amp; Gil, em Barcelona. A sua primeira encomenda foi em Portugal (<i>Casa sobre um Armazém</i>, cuja construção está agora em fase de conclusão), e nesse momento teve vontade e oportunidade para se dedicar a tempo inteiro aos seus próprios trabalhos. Em 2008, como sintetiza no seu currículo, “de volta a Lisboa, estabelece <i>atelier</i> próprio e vence o seu primeiro concurso público”.</p>
<p>O <i>atelier</i> de Miguel Marcelino é uma estrutura doméstica – um espaço anexo à sua própria casa – onde se ocupa deste projecto e de outros mais recentes. O processo de concurso do Centro Escolar seguiu os trâmites normais, prolongados, de homologação e contratação. Só no final de 2009 é que se avançou com o projecto de execução e foi apenas no desenvolvimento desta fase que recorreu à colaboração de outro arquitecto. Segundo as suas palavras, a opção de manter um “<i>atelier</i> pequeno” não tem que ver com um “capricho ou idealismo romântico mas sim com questões económicas”, na medida em que uma estrutura maior (com maiores encargos de rendas, ordenados, equipamentos, etc.) implicaria lógicas de aceitação e procura de trabalho que poderiam não ser tão estimulantes ou eficazes para o exercício da arquitectura como a concebe. É uma opção intelectualmente comprometida, que garante a satisfação diária no trabalho desenvolvido, mas é uma opção que também promove um certo isolamento, intensificando um diálogo interior que lhe apraz. “A escrita é uma actividade a que gostaria de dedicar mais tempo, pois é fundamental para esclarecer uma série de dúvidas e questões.” Em todos os projectos repete um exercício: “Escrevo uma memória descritiva com um máximo de mil caracteres (incluindo espaços) para sintetizar e saber o que é importante.”</p>
<p>O Centro Escolar de Fonte de Angeão é a sua primeira obra pública e a grande protagonista, até à data, na construção deste <i>atelier</i>. Neste momento o seu maior desafio é acompanhar a obra, a cerca de 200 quilómetros de distância. No seu trabalho destaca-se igualmente o Museu da Música Mecânica, em Palmela<i> </i>(projecto que ganhou em 2011 num concurso por convites), actualmente em início de construção. O percurso de Miguel Marcelino mostra que, apesar da crise e do crescente descrédito na possibilidade de estabelecer uma carreira profissional – sobretudo entre os (muitos) jovens arquitectos portugueses –, ainda é possível ser arquitecto e construir em Portugal.</p>
<p><b>O Edifício</b></p>
<p>A grua gigante que se destaca na paisagem assinala o local da obra. Atravessando a vila, na mira da grua, encontra-se uma ribeira que delimita o pequeno aglomerado e demarca a frente de acesso ao centro escolar. O local está repleto de eucaliptos, de campos agricultados, e tem uma atmosfera límpida. Ao atravessar a ponte sobre a ribeira e contornando o estaleiro, é possível imaginar crianças e a comunidade local – o ginásio, as salas multiusos e de informática são também abertas à população local – a percorrer o caminho em ritmo de passeio ou de bicicleta. A obra confronta esta imagem pitoresca com vários volumes “cegos”, alinhados e repetidos, que se afirmam na paisagem à semelhança de uma operação <i>land art</i>. A subtileza do material de revestimento da construção (tijolo cerâmico de cor idêntica à da terra revolta), o ritmo e abstracção dos volumes, a escala controlada mas expressiva, e o rigor geométrico da implantação (em simetria perfeita a partir do eixo central) evidenciam a sensibilidade na interpretação da envolvente e na forma de a transformar.</p>
<p>A obra encontra-se a meio caminho, mas as características do edifício já são perceptíveis. No grande parque exterior, que prevê um paisagismo adequado às funções de recreio, destaca-se o grande paralelepípedo dentado da escola, onde uma generosa e elegante cobertura em consola marca a entrada no edifício e, ao mesmo tempo, oferece uma zona de recreio coberto. A entrada é seguida do refeitório e marca um eixo de luz nascente-poente que divide funcionalmente a escola em duas: a sul, o infantário; a norte, a escola básica. A meio, localizam-se os serviços comuns aos dois núcleos e à população: a biblioteca – com zonas específicas de leitura –, salas multiusos e o ginásio, que se destaca na cobertura, assinalando o centro do conjunto.</p>
<p>As juntas de dilatação nas paredes de tijolo, as instalações à vista com materiais e cor cuidadosamente escolhidos, as cofragens do betão, a quase inexistência de condutas, etc., caracterizam um edifício em que o detalhe é a própria construção. A estrutura do edifício – paredes duplas em betão armado aparente, no interior, e tijolo de face à vista sem nenhum acabamento, no exterior – está já concluída e revela uma imagem muito próxima do que será o futuro edifício: um corpo desmultiplicado pela alternância de volumes que se sucedem entre pátios. Esta “franja” em blocos que caracteriza o perímetro resulta da vontade de suavizar a presença do volume na paisagem, mas contribui, igualmente, para o uso de técnicas de climatização passiva.</p>
<p>A forma segue o programa. Metodologicamente, o projecto aproxima-se da extrusão de um diagrama funcional concebido segundo o caderno de encargos do concurso. Cada bloco é uma sala autónoma com uma função específica que, por entre rasgos, se destaca do corpo central. As variações volumétricas destes blocos periféricos resultam da acomodação das diferentes áreas definidas pelo programa, com pequenos ajustes de composição. O estudo cuidado do programa permitiu ainda, em diálogo com o cliente, eliminar algumas salas por conterem funções redundantes.</p>
<p>Entre as duas áreas distintas (as salas e os espaços de serviço) estão os “corredores de recreio”. Por serem compridos, amplos (3,5 metros de largura) e sistematicamente rasgados para o exterior, criam uma antecâmara simultaneamente de estar e distribuição, com uma forte componente cénica e performativa. É neste caminho circular que a paisagem exterior é perceptível, porque, à excepção dos topos norte e sul (onde a opção foi abrir as salas para o exterior), as aberturas das restantes salas estão orientadas para a parede cega do bloco seguinte, onde a luz de sul é reflectida. Em cada sala, o exterior só é perceptível numa perspectiva diagonal, de modo a “criar um ambiente propício à concentração”, e a luz, também ela indirecta, ganha “uniformidade e profundidade”. As vistas francas para o exterior apenas se encontram no infantário e, quem sabe se como recompensa, nas salas dos alunos mais velhos.</p>
<p>A entrada em obra das carpintarias (nos caixilhos e pavimentos) e pontuais revestimentos de parede e tecto acústico são o ingrediente em falta para equilibrar o aspecto austero dos materiais aparentes. Marcelino afirma que, tal como na culinária, é o balanço entre os contrastes dos materiais que garante a riqueza e a qualidade do produto final – que aguardamos, com curiosidade, ver colorido pelas crianças, o que confirmará a vocação da arquitectura para participar na construção de um novo território.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Este artigo foi publicado no J-A 247, Mai — Ago 2013, p. 114-125.</p>
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		<title>Muda aos 5, acaba aos 10</title>
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		<pubDate>Sun, 19 May 2013 10:00:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>edit</dc:creator>
				<category><![CDATA[Obra Feita]]></category>
		<category><![CDATA[247]]></category>
		<category><![CDATA[Nuno Cera]]></category>
		<category><![CDATA[Ricardo Lima]]></category>

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		<description><![CDATA[Com o propósito de intervir sobre uma estrutura existente, os arquitectos foram convocados para desenvolver um projecto de recuperação e transformação de um armazém em recinto desportivo, equipado com dois campos de relva sintética. Sem a carga de intervir em património histórico (o armazém funcionava como depósito de materiais de construção), a obra assumiu um carácter experimental e livre de constrangimentos. Foi nessa perspectiva que o N10-II – na sequência de uma primeira experiência bem-sucedida entre o cliente e o atelier em 2004, o N10-I – assumiu a condição de “exercício construtivo de rápida execução”.]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><strong><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/04_obr_feita_comoco.jpg"><img class="alignnone  wp-image-871" alt="Lançamento em profundidade para o centro da área adversária" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/04_obr_feita_comoco.jpg" width="700" height="500" /></a>Recinto desportivo N10-II, Eiras, Coimbra.<br />
Projecto de COMOCO.</strong></p>
<p><b>Aquecimento</b></p>
<p>Com o propósito de intervir sobre uma estrutura existente, os arquitectos foram convocados para desenvolver um projecto de recuperação e transformação de um armazém em recinto desportivo, equipado com dois campos de relva sintética. Sem a carga de intervir em património histórico (o armazém funcionava como depósito de materiais de construção), a obra assumiu um carácter experimental e livre de constrangimentos. Foi nessa perspectiva que o N10-II – na sequência de uma primeira experiência bem-sucedida entre o cliente e o <i>atelier</i> em 2004, o N10-I – assumiu a condição de “exercício construtivo de rápida execução”.</p>
<p><b>Primeiro tempo</b></p>
<p>A vontade de expandir o negócio N10 manifestada pelo cliente deu início a um período de prospecção de espaços, terminando com a visita a este armazém, localizado algures no emaranhado urbano em torno de Coimbra, um lugar “estranho”. O cliente decidiu comprar as naves industriais, construções genéricas das décadas de 1960 e 1970, de vão livre e cobertura curva treliçada. Além da substituição das chapas translúcidas da cobertura e da instalação do tapete verde, definiu-se um programa com “três áreas: recepção, zona de balneários e zona de festas” (sobretudo aniversários), que, a par da venda de bebidas hidratantes ricas em sais minerais (a N10 chegou a ser o maior revendedor da região centro) e dos <i>placards</i> e telões publicitários (importantes para simular uma atmosfera de estádio), “são fundamentais para a sustentabilidade e dinamização deste tipo de equipamentos”. Nas palavras do escritor espanhol Javier Marías, “o futebol é o regresso semanal à infância”.</p>
<p>A solução do projecto para criar o recinto é extremamente racional. Resulta da disposição de uma grelha (1,44 × 1,44 m) sobre um embasamento de infra-estruturas em cimento afagado (39,45 × 11,20 × 0,20 m). Esta faixa resulta da subtracção da área dos campos à largura de duas naves do armazém. É a partir dessa faixa que se define a distribuição funcional. As duas áreas maiores são os balneários e a zona de festas, divididas pela entrada, onde a recepção e o respectivo balcão são secundados por uma pequena copa de apoio às festividades. A grelha, aberta e permeável à luz zenital, circunscreve este programa, através de uma estrutura porticada composta por pilares e vigas em pinho americano, travados por elementos de MDF, que, deixados com acabamento natural, definem balcões, paredes e coberturas. Esta opção contribui para a clareza construtiva do volume e estabelece uma relação apropriada com a beleza tosca e funcional do armazém.</p>
<p>Como explica um dos autores, Luís Miguel Correia, “a escolha do material vem de um primeiro ensaio com o qual ficámos bastante agradados, no projecto de reorganização da colina do Castelo de Pombal”, onde uma série de mirantes em estrutura porticada de madeira (obra finalista do Prémio Nacional de Arquitectura em Madeira de 2011) eram um anúncio da solução a adoptar no N10-II. Também o mobiliário, composto por cadeiras, bancos e mesas em pinho e MDF lacado a preto, <i>baralha e volta a dar</i>, contribui para a coerência da proposta. A iluminação, suspensa e engenhosamente intercalada com a grelha fundadora, bem como o sistema de drenagem de águas pluviais, segue o mesmo princípio, assumindo-se, à vista, como mais uma camada <i>ready-made</i> sobreposta aos armazéns. O único sinal exterior da intervenção, a entrada no recinto através de um elemento em chapa metálica, “tipo túnel” que “perfura a parede do pavilhão”, é a excepção que confirma a regra.</p>
<p>Os campos, com dimensões regulamentares para partidas de futebol de 5 (admitem, considerando as tabelas e, sobretudo, a qualidade dos artistas, jogos de seis contra seis), correspondem a ¼ do investimento. Excluindo a aquisição do armazém de 2385 metros quadrados, a obra custou cerca de 200 mil euros – 100 mil relativos ao grosso da obra e os restantes 50 mil para reforços estruturais e arranjos pontuais. Uma obra praticamente “seca”, que, beneficiando da sistematização do processo construtivo, foi concluída em apenas cinco meses.</p>
<p>O cliente, Rui Campos, ex-jogador da Académica de Coimbra e herdeiro de uma linhagem de antigas glórias da mítica Briosa da década de 1960 e 1970, aguarda retorno do investimento inicial para avançar com a segunda fase da obra. O armazém original, composto por três naves, admite a instalação de um terceiro campo, “mais rápido, do tipo ‘futebol de salão’”, e, consequentemente, o expandir da grelha, ampliando a zona de festas.</p>
<p>Se a arquitectura desempenha um papel importante, é também pela sua vivência e utilização que um espaço pode ter a capacidade de nos surpreender e tornar-se especial. No N10-II reúnem-se para a <i>peladinha</i> semanal várias antigas glórias da Académica, em desafios durinhos mas sempre bem jogados, como tivemos oportunidade de testemunhar. Vítor Campos, possante médio ofensivo, internacional A português e titular na histórica final da Taça de Portugal de 1969 que o Benfica acabou por vencer com um golo de cabeça de Eusébio, e Miguel Rocha, filho de um dos monstros sagrados da história da Briosa, capitão e exemplo ímpar de fidelidade e dedicação ao clube onde jogou durante 18 épocas, são alguns dos ilustres <i>habitués</i>. Citando Diego Maradona, “la pelota no se mancha”.</p>
<p><b>Segundo tempo</b></p>
<p>Este modelo de intervenção pragmática, com benefícios evidentes para todas as partes envolvidas e para a comunidade que delas usufrui, tem contribuído para o desenvolvimento de uma nova consciência arquitectónica. Não apenas no que se refere à recuperação de equipamentos e espaços devolutos ou considerados obsoletos, dentro da cidade consolidada ou nas suas margens mais informais, mas sobretudo, e de um modo mais relevante, no que se refere a uma nova disponibilidade para repensar o âmbito e os propósitos da disciplina. É o caso desta obra, que resgata para um novo uso naves industriais no aglomerado limítrofe de Coimbra, um território entre o informal e o caótico. Não obstante, a comunidade que habita este território precisa, tal como qualquer outra, de equipamentos e lugares de encontro – lugares com um significado. Considerando o contexto económico português, cada vez mais adverso, esta forma pragmática de abordar os problemas é também a garantia de alguma encomenda. Este exemplo é a confirmação de que, afinal, a arquitectura ainda não acabou. Aplicando competências adquiridas em intervenções de outra envergadura, e de outros tempos, escritórios como o COMOCO podem talvez contribuir para um novo entendimento da profissão. Uma mudança de paradigma que, por questões endémicas à condição periférica do país, os arquitectos portugueses estão habilitados a trilhar. Uma nova cultura arquitectónica que possa aliar consciência social e cívica, sem abdicar da defesa do desenho e do rigor construtivo que a caracterizam.</p>
<p>Numa publicação recente da editora internacional a+t architecture publishers, foi dado destaque ao projecto para o Pavilhão N10-II. O título da publicação explica de imediato o sentido da escolha: <i>Reclaim: Remediate, Reuse, Recycle</i>. Ou seja, “Recuperar: Remediar, Reutilizar, Reciclar”. É o primeiro número de uma série dedicada a este tema, em sintonia com uma certa “euforia do re”, tal como a designou Rui Mendes no número anterior do J-A. A intervenção do COMOCO está na categoria <i>Reuse</i>, descrita pelos editores como a dos projectos cujo principal objectivo é dotar estruturas existentes de novos programas, promovendo lógicas de economia de recursos, ao arrepio da ocupação <i>ex-novo</i> do território. “A reutilização assenta mais em novos programas do que propriamente na recuperação integral do edifício.” Juntamente com projectos de natureza mais institucional (como as intervenções no antigo Matadero de Madrid) e propostas mais experimentais (como um jardim no interior de uma ruína no sul de Telavive), o N10-II destaca-se, quer pela crueza da solução, quer pelo baixo preço de construção, 419,29 €/m<b><sup>2</sup></b> no total da obra (230 €/m<b><sup>2</sup></b> se considerarmos apenas o novo volume e o seu embasamento). No texto introdutório, o editor e arquitecto Javier Mozas faz uma leitura inclusiva do fenómeno e define o tom da publicação e as suas escolhas: “Nestas intervenções que configuram o fenómeno ‘re’ não há uma satisfação final que resulte de o projecto ter sido concluído. Elas pertencem a ciclos sem fim que contradizem o sentido de permanência que tem sido historicamente atribuído ao ‘monumento’ enquanto objecto que deve ser restaurado e preservado. Elas fazem parte de ciclos que não visam confrontar o velho e o novo, porque procuram uma alquimia de misturas de usos, épocas, atitudes e soluções técnicas. Quando este efeito mágico acontece, tudo se justifica e compreende e é apreciado.”</p>
<p>Numa cidade de grandes tradições, o futebol, sobretudo o de rua, malandro e de dribles improváveis, terá, graças à arte e engenho de um craque das letras como Fernando Assis Pacheco, contribuído para alguns dos momentos maiores de literatura futebolística mundial. Assis Pacheco, que preferia ouvir relatos na telefonia enquanto escrevia, a assistir aos jogos televisionados, chegou a confessar-se: “O Eusébio marca livres de trinta metros, o Artur Jorge chuta em moinho, o Dinis faz fintas à bandeirola de canto, mas eu fui o maior craque da Rua Guerra Junqueiro e está para nascer um sucessor digno desse título.” Fazendo justiça a essa memória literária e sentimental, talvez o N10-II possa ser a incubadora das novas coqueluches da Briosa – da mesma forma que já é um importante contributo para o repensar do <i>statu quo</i> da prática da arquitectura. Aguardam-se, pois, os próximos dribles.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Este artigo foi publicado no J-A 247, Mai — Ago 2013, p. 126-137.</p>
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		<title>O centro ‘sexy’ ou Nova Iorque no Minho</title>
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		<pubDate>Tue, 21 May 2013 10:00:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>edit</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crítica]]></category>
		<category><![CDATA[247]]></category>
		<category><![CDATA[Joaquim Moreno]]></category>

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		<description><![CDATA[Para quem chega pela primeira vez, o CAAA é uma fábrica pintada de preto. Como está a 30 segundos do shopping e o empedrado da rua em frente cheira a centro histórico, a demão de tinta na velha fábrica marca logo pontos na regeneração urbana, ou de modo mais congenial, na invenção de urbanidade.]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><strong><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/06_critica_comoco.jpg"><img class="alignnone  wp-image-877" alt="Biblioteca de Yehuda Safran recém-chegada ao CAAA, Dezembro de 2011" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/06_critica_comoco.jpg" width="700" height="464" /></a>Centro para os Assuntos da Arte e da Arquitectura, Guimarães</strong></p>
<p>A paráfrase que retive da apresentação que Eduardo Souto de Moura fez do livro sobre as imagens que envolvem o seu processo de projecto – o <i>Atlas de Parede: Imagens de Método</i> – foi a referência à justeza editorial do livro, à sua oportunidade e à ausência de oportunismo. O livro contribuía substancialmente para o presente, era tempestivo, oportuno; mas não mobilizava esta oportunidade para proveito próprio, não era oportunista. Recordo que esta definição liminar fazia eco com o lugar e o momento em que a presenciei: no arranque de Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura, no CAAA – Centro para os Assuntos da Arte e da Arquitectura. Era fácil as coisas serem diferentes, um livro à boleia de um reconhecimento mundial, e um pequeno espaço cultural dedicado às artes e à arquitectura à boleia de mais um episódio da cultura do capital europeu chamado Capital Europeia da Cultura. Mas o livro era reflexivo, não comemorativo; as imagens de método funcionavam em <i>feedback</i>, reinventando as causas com os efeitos. E a persistência do espaço com o nome impronunciável demonstra que o capital da cultura foi um empurrão, não o horizonte ou a estação terminal como noutras paragens. Mas o que é o CAAA e o que fez com as oportunidades que lhe surgiram?</p>
<p>Para quem chega pela primeira vez, o CAAA é uma fábrica pintada de preto. Como está a 30 segundos do <i>shopping</i> e o empedrado da rua em frente cheira a centro histórico, a demão de tinta na velha fábrica marca logo pontos na regeneração urbana, ou de modo mais congenial, na invenção de urbanidade. Encontrar uma fábrica assim do outro lado do atlântico implicaria uma viagem a um Brooklyn mesmo alternativo, aqui a oportunidade <i>sexy</i> do <i>loft</i>, da fábrica abandonada à espera de uma reciclagem artística, está perto do Largo do Toural e do sítio onde nasceu Portugal. Nesta capital da cultura a “baixa” é cheia de contrastes. O CAAA é parte activa desta paisagem urbana transgénica, composta de elementos reconhecíveis reorganizados numa sequência manipulada. A patine <i>sexy</i> de Brooklyn foi enxertada numa fábrica de Guimarães. Os dois pisos do interior fazem de loja e sobreloja, são frente de casa e espaço para exposições, concertos e eventos em baixo; servem para reflexão, produção, investigação e residências em cima. Os balões flutuantes de Mylar (modelo Warhol) a esconder o tudo-à-vista certificam a manipulação genética da psicogeografia: arquitectos, artistas, cineastas, fotógrafos, músicos, <i>designers</i>, associados numa infra-estrutura de produção e exibição: uma Factory. Dantes era uma fábrica, agora também, mas de outras coisas.</p>
<p>Galeria, <i>black-box</i>, estúdios, sala de ensaio, <i>ateliers</i> são em si um valioso acrescento à infra-estrutura cultural de Guimarães. Uma galeria de arquitectura que também mostra fotografia, cinema, <i>performance</i>, dança, artes visuais; é boa vizinhança neste momento de redefinição da prática e do papel social da arquitectura. Mas o CAAA (o nome parece um acidente de registo de domínios da Internet) tem outros romances, prospera com outras oportunidades. Um destes outros impulsos foi o resgate oportuno de uma biblioteca ameaçada de despejo. Quando o CAAA abriu, no final de 2011, havia uma sala reservada no piso de cima, com caixotes de livros amontoados a um canto e um <i>road movie</i> a passar em <i>loop</i>. O filme documentava o resgate de uma colecção de livros que um intelectual errante tinha armazenado algures em França e que estava ameaçada de despejo, quase a ficar sem tecto. A biblioteca que a errância de Yehuda Safran tinha deixado atrás a caminho de Nova Iorque, através de uma mistura de cumplicidades e sentido de oportunidade, estava a caminho de Guimarães. O castelo de livros com que Yehuda Safran tinha abrigado o seu trabalho sobre Adolf Loos ameaçava ruína. As redes de relações inesperadas que uma colecção de livros estabelece, as conversas secretas entre eles, a teia de fios de Ariadne que permitiam reconstruir ideias, o saber que o acumular de uma biblioteca produz, arriscavam ficar na rua. Através da hospitalidade e do sentido de oportunidade do CAAA, a biblioteca de um itinerante ganhou uma casa; o <i>road movie</i> era afinal o documentário de um regresso a casa. Agora, reunida numa sala com o nome na porta, esta soma de livros continua a ser uma colecção, um arquivo de um universo pessoal e singular, mas a porta aberta torna-a simultaneamente pessoal e pública, singular e partilhada. Um oportuno apoio para pequenas bibliotecas públicas da Fundação Calouste Gulbenkian (a tal que tinha uma frota de bibliotecas itinerantes) permite actualmente a sua catalogação. O fruto de todo este romance constitui um legado, e custodiar este legado segrega memória, vontade de permanência e compromisso intelectual; faz durar. O lastro temporal da colecção projecta-se no centro. A cerimónia da viagem dos livros está guardada, agora é possível viajar neles na sala de leitura/centro de documentação.</p>
<p>O compromisso intelectual com um legado implica o seu uso, o trabalho sobre ele e sobretudo a partir dele. A exposição <i>Adolf Loos, Nosso Contemporâneo</i>, que neste momento está numa outra itinerância e em trânsito para outras paragens, é uma evidência do potencial deste compromisso com a cultura arquitectónica. A exposição não apostava em objectos raros ou com <i>pedigree</i>, em originais causadores de reverência ou espanto, era mais que tudo a partilha de uma inquietação, de uma pergunta: Como pensar Adolf Loos hoje? Qual pode ser o seu contributo contemporâneo? Quais os ecos da sua prática e da sua teoria? Como se posicionam nomes sonantes da contemporaneidade sobre a sua obra? Quem quer ainda construir a grande coluna dórica? O acervo documental da biblioteca serviu para ilustrar a viagem das ideias de Loos no seu tempo e até nós, mostrando os livros e revistas que publicou, bem como as traduções e republicações, as mudanças de contexto e perspectiva. À boleia desta base, a exposição cresceu na interacção com as pessoas e os lugares; em trânsito e em construção. Esta pequena conversa engendrada no CAAA está agora numa outra versão em Viena e a caminho de Nova Iorque. Este trabalho a partir da documentação da biblioteca esclarece outra das ambições do CAAA: ser um lugar de construção de ideias, não apenas um espaço de exposição. O CAAA quer manifestamente contribuir para o debate arquitectónico, procura um compromisso disciplinar com a arquitectura como produção cultural. O CAAA é assim, entre outras coisas, uma <i>factory</i> reciclada, uma biblioteca resgatada e um centro de investigação; flexível e polivalente como convém nos dias que correm, mas claro na sua cumplicidade com uma visão expandida da arquitectura.</p>
<p>Actualmente o Centro para os Assuntos não cheira a fim de festa, mas, como qualquer lugar ou instituição “sem fins lucrativos” que se proponha multiplicar olhares, dimensões, pertenças, oportunidades ou escalas, está num momento de reflexão pós-festa. Entretanto já sobreviveu tanto ao apagão que encerrou outros espaços, como ao congelamento que preserva uns restos embalsamados para turistas atrasados. No entanto impõe-se perguntar: Qual será o combustível para um movimento mais perene? Para um CAAA duradouro? Talvez o seu segredo seja andar em boas companhias, talvez as artes ainda tenham assuntos pendentes com a arquitectura. Mas a pergunta maior de como inventar um horizonte para além dos grandes eventos impõe-se a todos, impõe-se à arquitectura. O CAAA ajuda a colocar a questão.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Este artigo foi publicado no J-A 247, Mai — Ago 2013, p. 156-158.</p>
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		<title>Futebol para a esperança</title>
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		<pubDate>Wed, 15 May 2013 10:00:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>edit</dc:creator>
				<category><![CDATA[Correspondentes]]></category>
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		<category><![CDATA[Ana Reis]]></category>

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		<description><![CDATA[Em Cabo Verde, a iluminação pública é quase inexistente, e a viagem de Toyota Hiace da Cidade da Praia para o Tarrafal, à noite, faz-se emersa na escuridão e no bafo quente do ar húmido da ilha. Na manhã do dia em que se apresentou o projecto “20 Centres for 2010” no Tarrafal, a primeira]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/07_corresp_tarraf.jpg"><img class="alignnone  wp-image-879" alt="Abertura de caboucos e construção das fundações do centro Futebol para a Esperança, no Tarrafal. Fotografia: Ana Ramos" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/07_corresp_tarraf.jpg" width="700" height="500" /></a>Em Cabo Verde, a iluminação pública é quase inexistente, e a viagem de <i>Toyota Hiace</i> da Cidade da Praia para o Tarrafal, à noite, faz-se emersa na escuridão e no bafo quente do ar húmido da ilha. Na manhã do dia em que se apresentou o projecto “20 Centres for 2010” no Tarrafal, a primeira impressão do percurso entre o hotel e a Delta Cultura Cabo Verde (DCCV), no táxi local que é uma carrinha de caixa aberta, foi a de uma vila sem organização aparente, em construção, inacabada. Os edifícios de habitação, maioritariamente de dois andares em blocos de betão, crescem aqui e ali ao longo de curtas avenidas com expressão de abandono. O cinzento das paredes contrasta com caixilhos e portas pintados com cores primárias fortes, os telhados são lajes de pavimento com o ferro à vista das armações de futuros pilares, indício de que um ou mais pisos poderão vir a ser acrescentados – a generalização deste aspecto inacabado está relacionada com o pagamento, ou, neste caso, com o não pagamento, de um imposto sobre imóveis; não estando a obra “terminada” o imóvel está isento do pagamento. Na rua, há crianças de uniforme escolar, mulheres a vender fruta, adolescentes a vaguear, muitos cães e, à medida que se sobe para a DCCV, o tecido urbano torna-se mais denso e as estradas, agora mais estreitas, deixam de ser em paralelo e passam a terra batida. O centro da vila é organizado em torno de uma praça com um jardim público à volta do qual se distribuem edifícios de arquitectura colonial, a Câmara Municipal, o antigo Mercado Municipal e a Igreja. Os edifícios são pintados de cores fortes, os telhados são em telha de canudo com beirados, e as portadas dos vãos em madeira. No jardim, várias pessoas com <i>laptops</i> estão conectadas a uma rede Wi-Fi gratuita que o município disponibiliza, prática comum noutras praças do país.</p>
<p>A apresentação pública da campanha “20 Centres for 2010” a personalidades locais e a entidades envolvidas no projecto fez-se na DCCV. Foi feita em inglês e traduzida para português e para crioulo. A campanha surgiu no rescaldo do Mundial de Futebol de 2010 na África do Sul e resultou de uma parceria entre diversas entidades (Fédération Internationale de Football Association – FIFA), Streetfootballworld e Architecture for Humanity) em vários locais de África, e foi enquadrada no âmbito do movimento internacional Football for Hope, que reúne associações sem fins lucrativos que usam o futebol como ferramenta para transformar a vida de comunidades. O resultado final da campanha será a construção de 20 centros Football for Hope em quinze países africanos, até Junho de 2013. Cinco dos centros de acolhimento estão a ser construídos na África do Sul, os restantes são espalhados em países como o Botswana, Quénia, Ruanda, Gana ou Tanzânia. O programa para cada uma destas infra-estruturas é simples e idêntico em todas as intervenções, sem excepção: um edifício de um piso, com um máximo de 180 metros quadrados de área construída coberta para apoiar programas relacionados com educação e/ou de saúde pública, um campo de futebol em relva artificial com 20 por 40 metros, a reutilização e integração no projecto de arquitectura de dois contentores marítimos que transportam os materiais necessários para a construção do campo de futebol em locais remotos e, ainda, se o orçamento o permitir, espaços exteriores cobertos. O programa exige que se adoptem técnicas construtivas e mão-de-obra locais e sistemas passivos de eficiência energética.</p>
<p>A expectativa era desenvolver os projectos de arquitectura e especialidades nas fases normais de qualquer processo (estudo prévio, projecto-base e projecto de execução), num prazo máximo de 14 meses, que incluía ainda a elaboração de um concurso para seleccionar um empreiteiro – com a selecção de pelo menos três empresas para a apresentação de propostas, o que contribuiu para a transparência do processo de adjudicação. Neste prazo, deveriam ainda ser envolvidos parceiros locais (engenheiros, arquitecto e medidor-orçamentista), solicitadas aprovações às autoridades, licenciado o projecto e concluída a obra. Até hoje nenhum dos centros cumpriu este prazo, pelas mais variadas razões, mas a principal foi a vontade de responder a aspirações, requisitos e condicionantes de muitas entidades envolvidas e a dificuldade em adaptar um programa genérico às necessidades específicas de cada lugar. Projectar para locais tão diferentes como Cabo Verde, África do Sul ou Ruanda tem implicações distintas e nem todos os centros de acolhimento têm as mesmas necessidades – enquanto uns precisam de um edifício coberto e protegido, outros requerem apenas zonas exteriores cobertas, ou a melhoria de instalações existentes, apesar de o programa não prever esta elasticidade.</p>
<p>No projecto para o Centro n.º 16, que desenvolvi com a Architecture for Humanity, inicialmente na África do Sul e durante dez meses no Tarrafal, os principais desafios passaram pela limitação do programa e pela adaptação, dentro do valor orçamental previsto, às necessidades efectivas do cliente. A DCCV possuía já um centro comunitário (e escola de futebol) em funcionamento, que necessitava de obras de reabilitação e de zonas exteriores cobertas. Após vários <i>workshops</i> e com alguma dificuldade foi definido um programa-base que se resumiu a uma biblioteca, uma sala polivalente com portas de acordeão para ampliar a flexibilidade programática e instalações sanitárias para jovens com acessibilidade limitada. Optámos por reduzir a área coberta e incluir nos 180 metros quadrados um espaço exterior de sombreamento, respondendo assim às aspirações do cliente. O “truque” para este espaço exterior (considerado extra e que estaria sujeito a condicionantes financeiras) ser aprovado pela FIFA passou por considerá-lo como extensão do espaço interior.</p>
<p>A colaboração com parceiros locais foi essencial, quer durante a fase de licenciamento <b><i>–</i></b> Cabo Verde tem um regime de edificação semelhante ao português, o Regulamento Geral de Construção e Habitação Urbana (RGCHU) é familiar do homólogo português e define as normas de licenciamento, técnicas e competências sancionatórias em vigor <b><i>–</i></b>, quer no desenvolvimento de pormenores construtivos adequados e na utilização de materiais disponíveis. Nesse processo foi possível minimizar o custo total do projecto e, sobretudo, minimizar os custos de manutenção futura. O centro está agora em construção.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Este artigo foi publicado no J-A 247, Mai — Ago 2013, p. 166-167.</p>
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		<title>Noutra Costa da Caparica</title>
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		<pubDate>Mon, 13 May 2013 10:25:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>edit</dc:creator>
				<category><![CDATA[Reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[247]]></category>
		<category><![CDATA[Paulo Moreira]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro Campos Costa]]></category>
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		<description><![CDATA[O bairro das Terras do Lelo Martins existe mas não se vê. Está “camuflado” entre terrenos agrícolas na sombra da frente marítima densamente construída e a paisagem protegida da arriba fóssil da Costa da Caparica. A existência do bairro é um tema controverso, de difícil resolução. Trata-se de um assentamento de formação espontânea onde vivem aproximadamente 400 pessoas em casas autoconstruídas.]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/1.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1268" alt="(Prima +/-) O bairro das Terras do Lelo, entre a arriba fóssil e a muralha imobiliária" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/1.jpg" width="700" height="560" /></a><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/2.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1269" alt="Formas de habitar no bairro das Terras do Lelo" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/2.jpg" width="700" height="560" /></a><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/3.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1270" alt="Formas de habitar no bairro das Terras do Lelo" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/3.jpg" width="700" height="560" /></a><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/4.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1271" alt="Formas de habitar no bairro das Terras do Lelo" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/4.jpg" width="700" height="560" /></a><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/5.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1272" alt="Formas de habitar no bairro das Terras do Lelo" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/5.jpg" width="700" height="560" /></a><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/7.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1273" alt="Relação entre o bairro das Terras do Lelo e os campos agrícolas, hipótese estratégica alternativa" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/7.jpg" width="700" height="560" /></a><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/8.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1274" alt="Formas de habitar no bairro das Terras do Lelo" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/8.jpg" width="700" height="560" /></a><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/9.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1275" alt="Formas de habitar no bairro das Terras do Lelo" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/9.jpg" width="700" height="560" /></a><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/11.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1276" alt="Formas construídas no bairro das Terras do Lelo" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/11.jpg" width="700" height="560" /></a><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/12.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1277" alt="Formas construídas no bairro das Terras do Lelo" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/12.jpg" width="700" height="560" /></a><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/111.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1342" alt="  " src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/111.jpg" width="700" height="560" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/121.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1343" alt="  " src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/121.jpg" width="700" height="560" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/13.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1344" alt="  " src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/13.jpg" width="700" height="560" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/14.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1345" alt="  " src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/14.jpg" width="700" height="560" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/15.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1346" alt="  " src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/15.jpg" width="700" height="560" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/16.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1347" alt="  " src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/16.jpg" width="700" height="560" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/17.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1348" alt="  " src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/17.jpg" width="700" height="560" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/18.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1349" alt="  " src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/18.jpg" width="700" height="560" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/19.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1350" alt="  " src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/19.jpg" width="700" height="560" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/20.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1351" alt="  " src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/20.jpg" width="700" height="560" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/21.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1352" alt="  " src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/21.jpg" width="700" height="560" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/22.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1353" alt="  " src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/22.jpg" width="700" height="560" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/23.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1354" alt="  " src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/23.jpg" width="700" height="560" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/24.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1355" alt="  " src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/24.jpg" width="700" height="560" /></a><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/0.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1360" alt="Domingo" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/0.jpg" width="700" height="560" /></a></p>
<p><strong>Olhares Sobre um Bairro ‘Invisível’</strong></p>
<p>O bairro das Terras do Lelo Martins existe mas não se vê. Está “camuflado” entre terrenos agrícolas na sombra da frente marítima densamente construída e a paisagem protegida da arriba fóssil da Costa da Caparica. A existência do bairro é um tema controverso, de difícil resolução. Trata-se de um assentamento de formação espontânea onde vivem aproximadamente 400 pessoas em casas autoconstruídas. A complexidade e a dimensão da operação financeira que o processo de realojamento implicaria, associados ao impasse jurídico em que se encontra o Plano de Pormenor previsto para aquela área, parecem adiar indefinidamente o futuro dos habitantes daquele lugar.</p>
<p>O que poderão fazer os arquitectos perante este cenário? O J-A procurou entender as várias dimensões desta realidade urbana: o seu modo de funcionamento, contexto social, enquadramento político. Ouviram-se os principais interlocutores, que expressaram opiniões divergentes, e percebeu-se que tem havido alguma hostilidade, e falta de diálogo e de concertação entre as partes. No último Verão, o bairro foi objecto de uma experiência académica que permitiu a aproximação de um grupo de arquitectos e estudantes aos seus problemas e potenciais soluções. Os resultados revelaram um conjunto de ideias alcançáveis. Mas seria a sua implementação bem recebida?</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p><b>Bairro das Terras do Lelo Martins</b></p>
<p>Ligeiramente recuado em relação à massa de construção costeira, sobre terrenos agrícolas inicialmente pontuados por algumas construções autorizadas, as Terras do Lelo Martins foram sendo paulatinamente ocupadas. Na primeira década dos anos 2000, a densificação assumiu maior proporção, sem “plano” e sem infra-estruturas básicas. Desde esse momento, o presidente da Junta de Freguesia da Costa da Caparica, António José Neves, tem vindo a alertar a presidente da Câmara Municipal de Almada (CMA) da situação, através de cartas a que o J-A teve acesso. Eis o excerto de uma dessas mensagens:</p>
<p style="text-align: center;"><strong>A construção clandestina tem sido nestas últimas décadas, na Freguesia da Costa da Caparica, um autêntico flagelo, com custos sociais difíceis de quantificar. [...] Como se não bastasse e apesar dos avisos efectuados, continua-se na maior das impunidades a recorrer nos mesmos locais a novas construções, à ampliação das existentes, e com tudo isto a aumentar o nível de degradação de uma terra de vocação turística. Visto isto, será caso para perguntar a V.ª Ex.ª: Será que ninguém responsável vê? Será que só o autor desta carta, colegas do Executivo, membros da Assembleia de Freguesia e residentes da Costa da Caparica, é que vêem?</strong><b></b></p>
<p>A ‘Costa’ esteve sempre ligada à actividade piscatória, dadas as condições naturais que a propiciam. A sua extensa orla costeira – 40 quilómetros de praia aos pés de Lisboa – fizeram da ‘Costa’ uma estância balnear de cura, repouso e turismo, desde o início do século xx. No entanto, não era a zona de veraneio preferida das gentes da capital: o comboio fez da ‘linha’ a praia de Lisboa, sobretudo das elites. Nos anos anteriores ao 25 de Abril, a ‘Costa’ tinha ligações estreitas com o regime político vigente (ao contrário do que acontecia nas regiões de Almada e do Seixal, mais ligadas à indústria e às lutas sociais), particularmente através do apoio do almirante Henrique Tenreiro, dirigente da Junta Central das Casas de Pescadores.</p>
<p>Após a revolução de 1974, iniciou-se um processo de grande transformação social e urbana. Construíram-se infra-estruturas e a ‘Costa’ tornou-se um local atractivo para os veraneantes de Lisboa – tendo muitos deles construído abrigos de férias junto ao litoral. Simultaneamente, o processo de descolonização levou a que muitos cidadãos vindos das ex-colónias fossem realojados no concelho de Almada. A sobrelotação de hotéis e outros equipamentos adaptados conduziu à formação de assentamentos informais, em diversas zonas da ‘Costa’, incluindo a envolvente do actual bairro das Terras do Lelo Martins. Mais tarde, durante os anos 80 e 90, muitos desses aglomerados foram demolidos e os moradores transferidos para bairros camarários, libertando espaço, para gáudio da indústria da construção. À medida que os projectos imobiliários avançavam, o município de Almada levou a cabo operações de erradicação das construções ilegais (operações semelhantes tiveram lugar na área metropolitana de Lisboa e em todo o país). Entretanto, os movimentos migratórios dos países africanos de língua oficial portuguesa em direcção a Portugal levaram uma nova população a fixar-se na zona.</p>
<p><b>Será que ninguém vê?</b></p>
<p>A questão da “invisibilidade” do bairro é usada como argumento no debate político. As posturas das diversas entidades envolvidas, directa ou indirectamente, são contrastantes, e os argumentos que utilizam são, por vezes, contraditórios. Por um lado, a Junta de Freguesia não reconhece aos bairros de génese ilegal qualquer legitimidade ou contributo para a comunidade, e tem sido bastante crítica em relação à actuação da CMA na atenção que tem dado ao tema. Para António José Neves, cabe à autarquia resolver a situação: “As Terras do Lelo [Martins] e do Abreu [bairro vizinho, também de génese ilegal] não são nem do Lelo nem do Abreu: são terrenos públicos, reserva agrícola na zona de protecção da arriba fóssil da Costa da Caparica.” Por outro lado, a Câmara Municipal de Almada não nos confirmou a informação sobre a propriedade daqueles terrenos. O director do Departamento de Planeamento Urbanístico, o arquitecto Paulo Pardelha, mostrou-se reticente em conversar sobre este caso específico, preferindo enquadrá-lo como parte de um território mais abrangente. Questionado sobre a visão para o futuro daquela zona, relembra-nos que as Terras do Lelo Martins se encontram abrangidas pelo Plano de Pormenor n.º 4 (PP4), no âmbito da intervenção gerida pela sociedade Costa Polis, com participação de 60% do Estado Português e 40% da CMA. Nesse âmbito alargado existem sete Planos de Pormenor, dos quais apenas dois não estão concluídos, entre eles o dito PP4 – Frente Urbana e Rural Nascente, da autoria dos arquitectos MVCC, Mercês Vieira e Camilo Cortesão, em conjunto com a PROAP. Pardelha explica que o PP4 ainda não está implementado por existir um conflito com uma estrada proposta, que atravessa as imediações do actual bairro: não só as Estradas de Portugal discordam do traçado, como foi apresentada uma providência cautelar por uma associação ambientalista, que argumenta que a nova via, paralela à existente, destruiria os campos agrícolas e o equilíbrio ecológico da zona.</p>
<p>Outra entidade envolvida no local é o movimento Fronteiras Urbanas, um grupo cívico criado em 2009 por educadores, profissionais de comunicação, académicos, sociólogos, antropólogos, arquitectos, artistas plásticos e moradores de todas as idades (quer da comunidade, quer das zonas envolventes). O movimento tem procurado trabalhar directamente com a comunidade e apresentar alternativas para a sua consolidação social e urbana, e tem levado a cabo uma série de cursos de formação (alfabetização, recolha de lixo, etc.). Confrontada com a questão da propriedade dos terrenos, Mônica Mesquita, co-fundadora e coordenadora do movimento, bem como investigadora principal do Projecto Fronteiras Urbanas, não tem dúvidas: “Para mim, o proprietário é o Sr. João, a Dona Maria, a Dona Joana, etc. Vivem aqui há anos, construíram as suas casas, pagam as suas contas&#8230;” Esta é uma perspectiva mais próxima dos moradores, que procuram ver reconhecidos os seus direitos como cidadãos. Uma abordagem que aceita a realidade tal como ela é, e procura legitimá-la de forma socialmente justa e participada.</p>
<p>A visita às Terras do Lelo com membros do movimento Fronteiras Urbanas e alguns moradores, entre os quais Euclides Fernandes, permitiu observar a estrutura, a organização e o modo de funcionamento do bairro. A primeira constatação é a inexistência de água canalizada, apesar de os campos agrícolas vizinhos terem sistema de irrigação. A população abastece-se num chafariz situado a uns 500 metros do limite norte do bairro, o suficiente para realizar as actividades do dia-a-dia, sejam elas cozinhar, tomar banho ou lavar a roupa (pode aprender-se, por exemplo, a usar uma máquina de lavar sem água corrente). Há luz eléctrica e televisão por satélite, sujeitas a pagamento e assinatura, como em qualquer zona do país. A população activa trabalha, ou trabalhava, na agricultura, na limpeza doméstica e, maioritariamente, na construção civil. Os seus filhos frequentam escolas. Levam uma vida normal, com altos e baixos, como em qualquer lado. Mas os residentes queixam-se de segregação por parte das autoridades e entidades oficiais. Sentem que ninguém os vê, ou que ninguém os quer ver, apesar de por diversas vezes já terem procurado colaboração para a melhoria das condições de habitabilidade das suas casas.</p>
<p><b>Passar à acção</b><br />
<b>Oportunidades para a organização do território</b></p>
<p>O tempo de rejeitar territórios por serem “feios” já passou. Na ressaca do modernismo, animador da destruição de aglomerados urbanos não planeados e da sua substituição por uma nova ordem assente em premissas definidas <i>a priori</i>, o momento social e económico actual leva à necessidade de repensar o modo de actuação nas cidades. Há dados que indicam que 40% das zonas urbanas são construídas de forma espontânea, como as Terras do Lelo. Mas parece haver uma certa incapacidade por parte das autoridades e agentes de transformação do território em lidar com estes núcleos geridos por lógicas não instituídas, à margem de uma ordem planeada e legal. Na procura de novas soluções para a apropriação do território, os arquitectos podem ter um papel fundamental. No nosso contexto, será útil olhar para outras latitudes – o Rio de Janeiro, por exemplo, onde, depois de várias décadas de “luta” contra as favelas, os programas de realojamento têm sido intercalados com programas de revitalização económicos e inclusivos. Olhar para o território, analisá-lo, interpretá-lo, e propor soluções, faz parte da profissão do arquitecto. Vários exemplos têm demonstrado que, além dessas competências, os arquitectos podem e devem aprender a ser proactivos nesses processos.</p>
<p>Uma experiência académica recente (ver caixa) permitiu formular propostas capazes de promover uma discussão acesa sobre alternativas de futuro para as Terras do Lelo. O saber mobilizado pelos arquitectos teve um efeito que se sentiu para além da sala de aula. Ao contrário de outros projectos promovidos pela Câmara Municipal de Almada, as propostas do <i>workshop</i> não estavam “embrulhadas e bloqueadas com problemas legislativos e políticos”, como comentou Paulo Pardelha. Essa independência e as qualidades de algumas propostas geraram o interesse da comunidade sobre as alternativas de projecto. Mônica Mesquita confessou-se surpreendida com a motivação que encontrou na comunidade e  com a visibilidade que a actividade deu ao bairro.</p>
<p>Duas das propostas tiveram um carácter performativo e geraram o envolvimento imediato da população. O grupo coordenado por Like Architects propôs uma instalação espelhada por fora (uma metáfora à invisibilidade do bairro), que, por dentro, tinha como objectivo envolver a população, nomeadamente as crianças do bairro, na própria instalação, usando o <i>workshop</i> como instrumento para transmitir uma mensagem. A instalação foi realizada na praça dos correios, com a ambição de “puxar os residentes” para a Costa da Caparica. Outro grupo, coordenado pelo Ateliermob, propôs um processo de mediação entre os vários actores sociais da zona, construindo uma mesa em torno da qual os intervenientes se possam sentar. A natureza informal desta solução, eventualmente contrária à prática dos arquitectos, tem sido muito explorada noutras situações como ferramenta de intervenção. A proposta concluiu-se com um jogo de futebol, que não conseguiu juntar todos os actores envolvidos no processo, mas juntou tutores, convidados, estudantes e habitantes do bairro num jogo de equipas mistas, com vencedores e vencidos em ambiente de festa e confraternização. Os habitantes organizaram uma pequena festa para depois do jogo, onde se comeu e bebeu no bar do bairro.</p>
<p>Outras propostas consideraram mecanismos de transformação mais próximos das convenções de projecto. O grupo coordenado pelo Atelier Base propunha um sistema de permutas, utilizando edifícios devolutos e abandonados da Costa da Caparica como motor da reabilitação necessária. Além de realojar os habitantes na proximidade, evitando as trágicas desarticulações familiares habituais em processos de realojamento, a proposta incluía ainda um sistema de financiamento de custos através de um banco de horas onde os habitantes poderiam prestar trabalhos à comunidade de forma a custear o seu realojamento. A juntar ao facto de ser uma proposta concreta e pragmática, a ideia utilizava um “problema” como pretexto e incentivo à reabilitação do edificado da Costa da Caparica que também é problemático. Uma outra proposta, a do grupo coordenado por Argot, apoiava-se no parque urbano previsto no PP4, transformando o seu processo de implantação e também o seu desenho, por forma a incorporar nesse investimento o realojamento dos habitantes. Partindo do princípio de que o parque urbano pode não ser apenas um relvado, mas um parque agrícola, a solução formalizava a possibilidade de os habitantes terem uma ocupação agrícola nos campos do parque (situação que já acontece, mas de forma espontânea e pontual), sendo os habitantes os próprios responsáveis pela produção e manutenção do parque. Esta proposta mantinha a forma de povoamento agrícola que actualmente já é perceptível e que permite simultaneamente a fruição e a manutenção dos campos.</p>
<p>Outras propostas adoptaram estratégias mais radicais. O grupo coordenado por Oto optou por estender o problema a toda a Costa da Caparica e conceber um horizonte para 2050. O bairro das Terras do Lelo é o menor dos problemas numa ‘Costa’ degradada e insustentável. A partir de uma análise/proposta sectorial para cada um dos principais problemas da ‘Costa’ (ecológico, ambiental, mobilidade, etc.), o grupo propôs a requalificação da orla costeira através dos pontões de mar e a consolidação da língua de areia que existia no princípio do século, que permitiria um melhor acesso às águas para a pesca e para o turismo.</p>
<p>Por último, o grupo coordenado por Sérgio Silva e José Castro Caldas propôs a manutenção do bairro, que parece ser a situação que perdurará, devido aos impasses económicos e jurídicos que existem. Perante a realidade, o grupo apresentou sistemas de construção capazes de melhorar aspectos específicos das condições de vida da população, sistemas que podem ser inclusivamente aplicados noutras situações equivalentes.</p>
<p>As reacções encorajadoras em relação aos métodos de abordagem àquela realidade contrastam com a tensão inerente às histórias que se contam dentro e fora do bairro. O <i>workshop</i> Noutra Costa provou que, mesmo com diferentes perspectivas, é possível fazer melhor e debater-se o território sem preconceitos. E demonstrou também que os arquitectos e futuros arquitectos, se estiverem dispostos a isso, podem ter um papel determinante na mediação de ambições e na compatibilização de vontades em determinado lugar.</p>
<p><b>Soluções, visões e contradições</b></p>
<p>“Não deixem as pessoas viver na lama. Não são bichos, são seres humanos.” Lídio Galinho, presidente do Sindicato dos Trabalhadores de Pesca do Sul – Delegação da Costa da Caparica – e também membro fundador do movimento Fronteiras Urbanas, defende que se deveria encontrar uma solução para melhorar as condições de vida da população do bairro e ver reconhecidos os seus direitos. Numa conversa lúcida e emotiva, apresentou o exemplo de um pescador guineense, morador nas Terras do Lelo, um pescador com carteira profissional não reconhecida em Portugal. Explica tratar-se de um excelente profissional da arte da xávega, uma técnica de pesca tradicional, e diz estar desgostoso pelo facto de não conseguir contribuir para a legalização do processo de imigração do pescador: “Mesmo tendo um contrato de trabalho, não querem legalizá-lo no nosso país.” Este é apenas um exemplo dos laços profissionais e afectivos entre moradores do bairro e a comunidade local. Mas será possível transformar essa relação estável numa convivência duradoura? Euclides Fernandes, de forma muito humilde, diz existir vontade, e afirma sonhar com isso, poder ter direitos e ser português. Paulo Pardelha concorda que casos como este deveriam ter uma resolução mais simples do que na verdade têm. “Os processos legislativos exigem muito tempo&#8230; Não são consentâneos com o ritmo de vida dos tempos actuais, com as dinâmicas inerentes ao território. Há um desfasamento. Neste dilema, a forma institucional de resolver problemas tem a sua <i>mea culpa</i>.” Questionado sobre como poderia este ciclo adaptar-se à realidade, Pardelha desabafa: “Acho que há muitas respostas que têm de vir da comunidade civil. Parece-me que não pode ser só a responsabilidade dos decisores ou dos investigadores&#8230;” E dá um exemplo implementado pela autarquia. “O Monumento à Multiculturalidade foi um desafio lançado pela CMA: como construir um monumento com a comunidade?” À pergunta sobre se poderia ser essa abordagem participativa uma alternativa para o futuro do bairro, Pardelha respondeu afirmativamente: “A experiência motivou a comunidade e também a nós próprios, e seria interessante replicá-la noutras áreas.”</p>
<p>As propostas que os arquitectos desenvolveram para o bairro das Terras do Lelo não são exclusivamente propostas urbanísticas. Ao gerar expectativas e demonstrar a possibilidade de alcançar novos cenários de convivência, estes projectos abrem esperanças capazes consubstanciar o reconhecimento de uma comunidade votada ao esquecimento e à invisibilidade. Esse reconhecimento é um passo fundamental para que as populações alcancem o direito à sua existência, e também para, a partir da utilização e ocupação do lugar, se conceber a sua transformação e desenvolvimento futuros. A arquitectura e os arquitectos podem ter um papel crucial neste processo, na medida em que não só dominam ferramentas de análise e compreensão de um fenómeno complexo, como também são capazes de propor soluções objectivas e pragmáticas capazes de desencadear a transformação física e social do território. Mas nem todos vêem estas dinâmicas de forma positiva. Quando o presidente da Junta de Freguesia foi confrontado com a participação da população na definição do futuro do bairro, António José Neves apresentou uma solução brutalmente mais simples: “Metia ali duas ou três máquinas e <i>Arrasem!</i> Acabou.” E o que fazer às pessoas? – perguntou-se. “A Câmara é que criou o bicho. Que resolvesse a situação.”</p>
<p style="text-align: left;">O presidente da Junta de Freguesia rejeita o bairro, mas ao mesmo tempo sente que há uma rejeição mais alargada em relação à Costa da Caparica. No seu gabinete, apontando para a parede oposta à mesa de trabalho, mostra as paisagens de três pinturas que exibem trilhos marcados sobre campos de cultivo e cenários bucólico-esverdeados. Em tom nostálgico, fala de uma terra que mudou aos seus olhos, sem que nada pudesse fazer. “Agora, vocês que são arquitectos, se forem ali até à praia e olharem para trás, o que é que vêem?” Nota-se dificuldade em lidar com a realidade – ainda que a paisagem construída não seja, de facto, particularmente aprazível. As paisagens daqueles quadros pitorescos não existem para além da ilusão das imagens. Naquele bairro da Costa da Caparica, há um capital humano heterogéneo numa paisagem viva, não uma natureza morta. Ladeando as paisagens para que o presidente apontava, encontrava-se uma pequena maqueta construída com conchas do mar. António Neves explicou-nos que foi feita por um artesão local, “daqueles que já não há”. Tratava-se de um magnífico mini-edifício com grande valor plástico e conceptual, cuja criatividade patente no uso dos materiais remete para o engenho que se observa nas casas do bairro das Terras do Lelo Martins, a pouco mais de 500 metros dali.</p>
<p>Este artigo foi publicado no J-A 247, Mai — Ago 2013, p. 88-99.</p>
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		<title>DEBATE A CÉU-ABERTO</title>
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		<pubDate>Tue, 11 Jun 2013 15:21:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>andre</dc:creator>
				<category><![CDATA[Notícias J-A]]></category>
		<category><![CDATA[247]]></category>

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		<description><![CDATA[O número 247 do Jornal Arquitectos foi apresentado publicamente na Costa da Caparica na passada sexta-feira dia 7 de Junho e no sábado, dia 8, houve nova apresentação no Porto, na garagem das casas de Álvares Cabral, num debate a céu-aberto. A publicação do segundo número da nova série do]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>O número 247 do Jornal Arquitectos foi apresentado publicamente na Costa da Caparica na passada sexta-feira dia 7 de Junho e no sábado, dia 8, houve nova apresentação no Porto, na garagem das casas de Álvares Cabral, num debate a céu-aberto.</p>
<p>A publicação do segundo número da nova série do J–A deu o mote para um conjunto de reflexões e troca de opiniões sobre os artigos já publicados, as suas fraquezas e virtudes, bem como sobre a orientação e estratégias para os números que estão em preparação.</p>
<p>Enquanto avança a edição do número 248, que chegará ao público nos primeiros dias de Outubro, o J–A iniciou uma parceria com o <span style="text-decoration: underline;"><a title="Jornal Público" href="http://www.publico.pt/multimedia/fotogaleria/um-estadio-entre-as-fabricas-321295#/0" target="_blank">Jornal Público</a></span>, onde serão publicadas mensalmente fotogalerias de alguns projectos seleccionados.</p>
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		<title>Morte e vida de um pequeno concurso</title>
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		<pubDate>Fri, 17 May 2013 10:00:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>edit</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crítica]]></category>
		<category><![CDATA[247]]></category>
		<category><![CDATA[Tiago Trigo]]></category>

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		<description><![CDATA[O modelo do concurso público é, em abstracto, um válido ditador de escolhas. Todavia, e sendo impossível determinar o mérito ou a qualidade absolutos, o concurso é também o representante de uma certa ilusão democrática que o poder político tem sabido explorar. O concurso, não raras vezes, apresenta uma ambiguidade valiosa: mediaticamente é democrático, e por isso legitimador da acção; operativamente é burocrático, e por isso anulador de tudo aquilo que se propõe representar.]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Baseado na história verídica do Concurso Público de Ideias para a Reabilitação do Largo da Lapa, no Porto</strong></p>
<p><i>O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modos para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma atenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar.</i></p>
<p align="right">Italo Calvino, <i>As Cidades Invisíveis</i></p>
<p style="text-align: center;" align="right">***</p>
<p>O modelo do <i>concurso público</i> é, em abstracto, um válido <i>ditador</i> de escolhas. Todavia, e sendo impossível determinar o mérito ou a qualidade absolutos, o concurso é também o representante de uma certa <i>ilusão democrática</i> que o poder político tem sabido explorar. O concurso, não raras vezes, apresenta uma ambiguidade valiosa: mediaticamente é democrático, e por isso legitimador da acção; operativamente é burocrático, e por isso anulador de tudo aquilo que se propõe representar. A esta fragilidade intrínseca do modelo têm-se associado, com maior frequência em tempos recentes, outras instabilidades: exigências de prazo irrealistas, falta de clareza dos regulamentos, divulgação silenciosa, júris sem formação adequada, não pagamento de verbas acordadas, etc.</p>
<p>O caso de que aqui damos conta – o Concurso Público de Ideias para a Reabilitação do Largo da Lapa – insere-se nesta tradição, e teve o condão de alargar a base de comportamentos estranhos que, em dezenas de casos específicos, se têm tornado cada vez mais genéricos. Estes processos, por serem quase sempre alvo de mediatizações incompletas e espaçadas no tempo, são de leitura difícil, o que muitas vezes torna quase impossível compreender a verdadeira dimensão de acontecimentos aparentemente isolados, como foi o caso do Concurso para o Largo da Lapa.</p>
<p>Enfrentemos, então, a imagem do que se oferece.</p>
<p>SEXTA-FEIRA, 24 DE SETEMBRO DE 1834<br />
Aquilo que viria a ser <i>tema</i> do concurso teve lugar no dia 24 de Setembro de 1834, quando o rei D. Pedro IV (D. Pedro I do Brasil) morreu no Palácio de Queluz. Foi então que, por decisão que deixara em testamento e como homenagem ao apoio dado pela cidade do Porto durante as lutas liberais (1832-1833), o seu coração foi doado à Invicta, ficando depositado num mausoléu da capela-mor da Igreja da Lapa, onde ainda hoje se encontra.</p>
<p>SEXTA-FEIRA, 18 DE MAIO DE 2012<br />
A nossa história cruza-se com esta quando, sensivelmente 178 anos após a morte do rei, Rui Rio, presidente da Câmara Municipal do Porto (CMP), constatou não existir na cidade “qualquer via pública que ostente o topónimo de D. Pedro IV”. Para obstar a tal falha propôs, em reunião camarária, que “ao novo arruamento projectado no Plano Director Municipal, vulgarmente designado como Avenida de Nun’Álvares Pereira [e que deverá ligar a Praça do Império à Avenida da Boavista] seja atribuído o topónimo de Avenida D. Pedro IV”.</p>
<p>TERÇA-FEIRA, 22 DE MAIO DE 2012<br />
Na semana seguinte, ao levar a sua proposta a votos, Rui Rio teve oposição da bancada do Partido Socialista (PS), na voz do arquitecto Manuel Correia Fernandes que sugeriu atribuir o nome de D. Pedro IV ao Largo da Lapa, invocando a presença do coração do monarca na igreja; mas também Luciano Vilhena Pereira sugeriu atribuir o nome do rei à Via de Cintura Interna. Após longo debate, e sem obter consenso, Rui Rio decidiu retirar a proposta, remetendo nova votação para uma reunião camarária futura.</p>
<p>TERÇA-FEIRA, 5 DE JUNHO DE 2012<br />
Duas semanas volvidas, a proposta foi de novo apresentada, agora (con)sensualizada em duas: a de Rui Rio, e a de Correia Fernandes. Em nova votação, ambas foram aprovadas. Ainda nesse encontro, e a pretexto da alteração toponímica, o PS propôs “a requalificação urbanística do Largo da Lapa”. Manuela Vieira, vereadora do PS, indicou que “deverá ser levado a cabo, em breve, um concurso de ideias”, “sendo depois avaliado o custo da proposta mais interessante” e, caso “fosse um custo suportável”, seria possível decidir avançar com o projecto. (Registe-se que, neste momento, a questão toponímica rivalizava já com o tempo “dedicado a outras questões, como a do futuro do bairro do Aleixo”.)</p>
<p>SEGUNDA-FEIRA, 15 DE OUTUBRO DE 2012<br />
Após a manifestação de interesse em lançar o concurso para a reabilitação do Largo da Lapa – agora futuro Largo D. Pedro IV –, e pese embora o tempo dedicado ao assunto, o processo foi esquecido durante quatro meses, reemergindo apenas a propósito de um comunicado da Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa, em que esta informou o executivo camarário da sua discórdia relativamente à decisão de alteração toponímica.</p>
<p>TERÇA-FEIRA, 16 DE OUTUBRO DE 2012<b></b><br />
No dia seguinte, a CMP informou ter respondido à Venerável Irmandade “há mais de 2 meses, dizendo que é sensível à argumentação”. Ainda nesse comunicado, pressionado pela necessidade de esclarecimento a propósito da questão toponímica, o executivo revela também que “a proposta de abertura do concurso de ideias será agendada em breve”. Paralelamente, a Comissão de Toponímia da cidade levou a cabo uma reunião, marcada com carácter de urgência, aprovando por unanimidade manter a designação de “Largo da Lapa”, revogando assim a alteração planeada.</p>
<p>SEGUNDA-FEIRA, 22 DE OUTUBRO DE 2012<br />
Uma semana após o comunicado original da Venerável Irmandade, o vereador do Urbanismo, Gonçalo Gonçalves, fez chegar aos <i>media</i> um documento informando que iria ser votada em reunião camarária a proposta para realização do concurso com vista à “selecção de cinco trabalhos de concepção”. Foi assim que, por unanimidade, se aprovou a abertura de um “concurso público para a reformulação urbanística do Largo da Lapa”, com um prazo de vinte dias para apresentação dos trabalhos a concurso. A proposta de lançamento sublinhava que Rui Rio pretendia “dignificar o espaço urbano do Largo”.</p>
<p>TERÇA-FEIRA, 13 DE NOVEMBRO DE 2012<br />
Três semanas depois, anunciou-se em <i>Diário da República</i> o lançamento do concurso e publicaram-se os “Termos de Referência”, documento de 51 páginas que aborda exaustivamente as condicionantes, exigências e expectativas relativamente às propostas a submeter pelos concorrentes. Determinavam-se aí os elementos de entrega, que deveriam ser constituídos por “peças escritas, gráficas e desenhadas” que caracterizassem a “composição espacial” da proposta e dos “elementos essenciais das redes viárias, especificando e fundamentando as opções da proposta ao nível da articulação dos diferentes tipos de mobilidade, percursos e circulações, capacidades de estacionamento e condições de acessibilidade”. Pese embora tais exigências, o documento estipulava que o concurso estaria aberto “a qualquer cidadão”. Ainda nesse dia, Pedro Santos, director municipal de Finanças, informa, sem qualquer justificação adicional, que “não serão atribuídos quaisquer prémios no âmbito do presente concurso”.</p>
<p>TERÇA-FEIRA, 26 DE NOVEMBRO DE 2012<br />
No <i>site</i> da CMP, e sem que isso seja noticiado nos <i>media</i>, publica-se o documento “Análise a Pedidos de Esclarecimento”, onde, em resposta a questões levantadas pelos concorrentes, se refere que a expressão “futuro desenvolvimento dos projectos seleccionados”, utilizada nos “Termos de Referência”, deve ser interpretada apenas como uma “recomendação”. Informa-se também que, na verdade, o concurso “se destina apenas à realização de uma exposição pública”.</p>
<p>SEXTA-FEIRA, 30 DE NOVEMBRO DE 2012<br />
Depois de ter contactado a CMP, e não obtendo resposta, a Secção Regional do Norte da Ordem dos Arquitectos (OASRN), emitiu um comunicado em que classifica a participação dos seus membros como “desaconselhável”, “lamentando a perda” de uma “oportunidade para discutir a cidade”. O prazo para submissão das propostas a concurso terminava três dias depois, a 3 de Dezembro.</p>
<p>QUARTA-FEIRA, 2 DE JANEIRO DE 2013<br />
Em comunicado aos media, a CMP deu conta da existência de “dez [cidadãos] interessados em desenhar o novo Largo da Lapa, no Porto”. Na imprensa sublinha-se que a adesão foi “pouco comum”, tendo em conta que normalmente o número de participantes é inferior.</p>
<p>TERÇA-FEIRA, 2 ABRIL 2013<br />
Com mais de um mês de atraso relativamente ao prazo estipulado, a CMP divulgou os “cinco trabalhos de concepção melhor classificados”. Não foram apresentadas imagens ou desenhos das propostas. No relatório apresentado não consta qualquer referência à data ou local para a exposição dos trabalhos. Pese embora esta divulgação incompleta, e mesmo não se vislumbrando qualquer tipo de debate em torno das propostas, a assessoria de imprensa da CMP afirmou que se havia atingido “o efeito prático pretendido”.</p>
<p><i>Se pensarmos nos diversos valores morais e éticos – bem, bondade, lealdade, altruísmo, honestidade, solidariedade, liberdade, verdade, justiça, sabedoria, coragem, etc., verificaremos que, se no meio deles estiver o funcionamento de uma máquina, estes valores tornam-se pouco consequentes.</i></p>
<p align="right">Gonçalo M. Tavares, “Sobre os Tempos”<i></i></p>
<p align="right"> <i>Público</i>, 3 de Janeiro de 2013</p>
<p><b>Epílogo</b></p>
<p>É difícil, por saturação, distinguir cada uma das falhas e a natureza de cada uma delas no processo acima sintetizado: perversão da ideia original do concurso; utilização dos <i>media</i> para veicular intenções falsas; fraco discernimento na prioridade dada aos desafios do município; aproveitamento do actual estado da economia para explorar uma classe profissional e assim obter a prestação de um serviço gratuitamente; incitamento à precariedade laboral; elaboração de uma consulta “aberta a qualquer cidadão” com exigências que conformam os actos próprios da profissão de arquitecto; desrespeito pelo <i>Código dos Contratos Públicos</i>; pretensão de “reabilitar um espaço urbano” através da realização de uma “exposição”, etc.</p>
<p>Ainda assim, mais do que permitir esta enumeração de truísmos, o que a narrativa oferece é o retrato da <i>máquina política</i> e a percepção do ritmo constante, seguro, inquietantemente <i>certo</i>, com que tal <i>aparelho</i> executa todas estas (dis)funções; o modo como esta <i>máquina</i>, que ostenta orgulhosamente o “rigor” como palavra-troféu da sua acção, é incapaz de compreender o duplo significado desse mesmo vocábulo: algo “insensível” ou “indiferente”.</p>
<p>Não houve consulta, nem concurso, nem participação, nem reabilitação; haverá talvez, em data e local a determinar, uma “exposição”, o “único compromisso assumido”. O horror perante o debate fez-nos chegar a um ponto tal que, num concurso aberto a todos os cidadãos, a presença de “dez interessados” chegou a ser classificada pelos serviços camarários como “elevada”, assim se evidenciando uma histórica falta de vontade em saber ler e perceber as verdadeiras causas do vazio da <i>abstenção</i>.</p>
<p>Por fim, talvez venha a ser esta indiferença maquinal que, a partir da sua violência, dê <i>vida</i> a essoutro estado de consciência, entre a vigília e o sonho, de que nos falava Italo Calvino. Só assim, mesmo se atordoados pelo seu ruído e hipnotizados pela cadência dos seus movimentos, poderemos distinguir o <i>inferno</i> a que a <i>máquina</i> dá corpo e, enfim, conseguir que o <i>excepcional</i> passe a ser regra.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Este artigo foi publicado no J-A 247, Mai — Ago 2013, p. 148-151.</p>
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		<title>EDITORIAL</title>
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		<pubDate>Wed, 01 May 2013 10:00:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>edit</dc:creator>
				<category><![CDATA[Notícias J-A]]></category>
		<category><![CDATA[247]]></category>

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		<description><![CDATA[A arquitectura está refém da sua suposta inutilidade. À falta de investimento na construção, as competências próprias da disciplina são tidas como dispensáveis. A urgência do quotidiano mobiliza recursos noutras direcções, e os arquitectos são instados a mudar de profissão ou a emigrar. Esta lógica é equívoca: a arquitectura não é apenas um saber instrumental à mercê das flutuações do mercado; a arquitectura é uma forma de conhecimento útil nas mais variadas circunstâncias. Só que a falta de encomenda, depois de anos de excesso da mesma, deixa a profissão num impasse que a fragiliza. Será que os arquitectos só servem para desenhar edifícios ou para coordenar planos de urbanização?]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><b>Combate e táctica</b></p>
<p>A arquitectura está refém da sua suposta inutilidade. À falta de investimento na construção, as competências próprias da disciplina são tidas como dispensáveis. A urgência do quotidiano mobiliza recursos noutras direcções, e os arquitectos são instados a mudar de profissão ou a emigrar. Esta lógica é equívoca: a arquitectura não é apenas um saber instrumental à mercê das flutuações do mercado; a arquitectura é uma forma de conhecimento útil nas mais variadas circunstâncias. Só que a falta de encomenda, depois de anos de excesso da mesma, deixa a profissão num impasse que a fragiliza. Será que os arquitectos só servem para desenhar edifícios ou para coordenar planos de urbanização?</p>
<p>Perante o impasse social que habitamos, outros saberes fazem valer melhor as suas competências: o <i>marketing</i> ou o <i>design</i>, por exemplo, incutem nos objectos do seu trabalho pretensas mais-valias, obtidas a partir de um investimento moderado. A concorrência, que não vem do campo irmão da engenharia, gera fricções e alternativas à prática profissional, as quais, apesar de serem capazes de extravasar os actos próprios da profissão, se alimentam do conhecimento disciplinar da arquitectura. A convivência e a partilha são úteis, mas têm gerado alguma confusão. Porque há uma tendência voraz para a especialização, têm também provocado alguns extremismos inúteis.</p>
<p>Um dos perigos que hoje espreitam a cultura arquitectónica é, precisamente, o afastamento de dois pólos: um profissional, outro alternativo. Tal afastamento reflecte-se numa profissão surda à produção de conhecimento, o qual se expande por diferentes áreas de actuação e origina, por outro lado, formas de descoberta e investigação em arquitectura desinteressadas do quotidiano da prática construtiva. O desafio é encontrar pontos de contacto entre estes universos e gerar práticas críticas e analíticas capazes de atravessar fronteiras que, na nossa opinião, tendem a tornar-se cada vez mais estanques. Talvez assim a arquitectura possa reencontrar uma posição social de relevo e contribuir para a sua reinvenção necessária e urgente.</p>
<p>Para estabelecer a ponte entre as diferentes formas de conhecimento e o exercício profissional é necessário entrar num território de combate. Os artigos deste número do J–A dão conta desse território. Perante a falta de encomenda, não é difícil, para mentes treinadas na transformação do mundo físico, compreender o alcance social destas transformações. A mobilização das populações, em processos participativos ou reivindicativos é um mecanismo eficaz para dar uso e forma ao saber arquitectónico. Essa prática, como tem sido levada a cabo em muitos contextos, tem trazido resultados positivos e recompensadores, quer na satisfação profissional dos arquitectos, quer na melhoria efectiva das condições de vida de muitas populações. Como se inicia essa prática? Ao contrário da fórmula mágica e cada vez mais complexa do arquitecto enquanto autor, são cada vez mais frequentes e competentes os mecanismos de acção colectiva, em que se convocam diferentes aspectos de saberes disciplinares para actuar com acutilância. Isso faz-se valorizando as competências próprias de cada indivíduo, e não um eventual padrão corporativo da profissão. Muitas vezes, o difícil é preservar nessas estratégias de acção alguns valores clássicos da arquitectura, nomeadamente o rigor de composição formal ou o controlo tecnológico dos sistemas de construção. E se os arquitectos prescindem da base estruturante do seu saber, correm o risco de se dissolver noutros campos profissionais, ou numa lógica de mercado que já não os contempla.</p>
<p>Um segundo aspecto deste combate é o marasmo institucional em que estamos atolados. As formas convencionais da prática da arquitectura confrontam-se com instituições incapazes – por ingenuidade, megalomania, negligência ou pura incompetência – de actuar com eficácia e perseverança, adequando os projectos às suas condições de execução. Num momento em que escasseia o dinheiro disponível, a adequação é fundamental. Se por um lado devemos exigir a renovação da cultura institucional, por outro lado também existem soluções e tácticas de projecto capazes de responder com singeleza e eficácia às condições de escassez com que somos confrontados. No plano de uma prática convencional do projecto, esta adequação é cada vez mais urgente, sobretudo quando o confronto com uma realidade construtiva cruel e com recursos limitados já tornou perceptível que os esforços de desenho e de exuberância formal ou tecnológica estão condenados ao fracasso.</p>
<p><strong>A Direcção do J–A</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Este texto foi publicado no J-A 247, Mai — Ago 2013.</p>
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		<title>O Arquitecto espontâneo</title>
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		<pubDate>Mon, 13 May 2013 10:22:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>edit</dc:creator>
				<category><![CDATA[Discurso Directo]]></category>
		<category><![CDATA[247]]></category>
		<category><![CDATA[Mariana Pestana]]></category>

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		<description><![CDATA[Num cenário em que os desafios económicos e sociais são cada vez mais complexos, são também cada vez mais os arquitectos que iniciam a sua prática profissional fora de um contexto tradicional de encomenda. Quer isto dizer que iniciam os seus próprios projectos, angariam fundos para os realizar, negoceiam lugares para os implementar e encontram legislação que permita a sua construção. Esta realidade questiona as estruturas tradicionais da prática e do ensino da arquitectura. Fomos ao encontro dos Assemble, um colectivo de dezoito arquitectos, para perceber de que forma trabalham, que métodos usam e se voltarão à escola.]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><b>J-A conversa com Amica Dall e James Binning, Assemble</b></p>
<p>Num cenário em que os desafios económicos e sociais são cada vez mais complexos, são também cada vez mais os arquitectos que iniciam a sua prática profissional fora de um contexto tradicional de encomenda. Quer isto dizer que iniciam os seus próprios projectos, angariam fundos para os realizar, negoceiam lugares para os implementar e encontram legislação que permita a sua construção. Esta realidade questiona as estruturas tradicionais da prática e do ensino da arquitectura. Fomos ao encontro dos Assemble, um colectivo de dezoito arquitectos, para perceber de que forma trabalham, que métodos usam e se voltarão à escola.</p>
<p><iframe src="http://player.vimeo.com/video/65901345?title=0&amp;portrait=0&amp;color=ffffff" height="293" width="520" allowfullscreen="" frameborder="0"></iframe></p>
<p><b>Apresentação </b></p>
<p><b>J-A – Estamos a conversar com dois, Amica e James, mas os Assemble são aproximadamente 18 pessoas. Quem são elas?</b></p>
<p><b>Amica – </b>Actualmente são Lewis Jones, Alice Edgerley, Fran Edgerley, Maria Lisogorskaya, Louis Schulz, Matt Leung, Joe Riddley, Adam Willis, Amy Perkins, Giles Smith, Holly Briggs, Jane Hall, Paloma Strelitz, Anthony Engi-Meacock, Ellie Headley e Amelia Mashhoudy.</p>
<p><b>J-A – E onde estão eles?</b></p>
<p><b>James – </b>Neste momento, nove estão no escritório a tempo inteiro, mais ou menos. Os outros nove ainda estão a estudar, na verdade talvez 10 ou 12, em escolas de arquitectura espalhadas por Londres. E perdemos um que foi para Nova Iorque, mas talvez regresse.</p>
<p><b>J-A – Vocês descrevem os Assemble como uma prática colaborativa de artistas, <i>designers</i>, fazedores de arquitectura. Podem falar-nos um pouco sobre vocês e sobre o vosso trabalho?</b></p>
<p><b>James – </b>Começámos com um projecto, o Cineroleum. A maioria de nós tinha estudado arquitectura. A nossa origem é essa, e à medida que o projecto se desenvolveu tivemos outras necessidades, e integrámos pessoas como a Amica, com percursos mais especializados, em cinema e programação de eventos. E fomos gradualmente acumulando mais especialistas, produtores e técnicos, desde fazedores de pizzas a pessoas com aptidões manuais, que percebem de electricidade ou de canalização. O Joe tem uma espécie de capacidade de improviso, uma perspectiva alternativa sobre tudo. Mas, na origem, a maioria tem formação em arquitectura.</p>
<p><b>Amica – </b>Creio que o género de trabalho que temos feito reflecte as competências que temos disponíveis a cada momento. Com frequência, o modo como imaginamos ou pensamos os projectos reflecte os recursos de que dispomos. É uma boa forma de manter uma prática aberta e diversificada.</p>
<p><b>J-A – Nesse caso, as aquisições de novos elementos fazem-se em consonância com os saberes de que necessitam para cada projecto?</b></p>
<p><b>James – </b>Isso funciona mais ou menos nos dois sentidos. No Verão fizemos um projecto em Chichester, o Theatre on the Fly, e sabíamos onde devíamos chegar no momento da estreia, mas não sabíamos o género de artilharia que iríamos ter, nem como liderar uma equipa de pessoas do teatro e os membros da comunidade que nós queríamos envolver no projecto. Juntámos algumas pessoas à equipa, que acabaram por ter um papel muito importante no desenvolvimento do projecto – isto em vez de preenchermos necessidades específicas. Um era muito habilidoso a fazer coisas, outro era bom em escalada, o que se revelou um recurso incrivelmente útil, na medida em que todos os detalhes de revestimento puderam ser trabalhados. Esteve um tempo horrível durante duas semanas e acabámos a fazer trapezismo nos andaimes para fixar guinchos. Portanto, sabíamos o nível de detalhe que conseguíamos atingir, porque passámos a ter um colaborador mais habilidoso do que tínhamos antes. Agora ele trabalha connosco praticamente a tempo inteiro.</p>
<p><b>Amica – </b>Não tínhamos lugar a tempo inteiro para um alpinista.</p>
<p><b>James – </b>Acaba por funcionar nos dois sentidos: as pessoas que encontramos acabam, de certo modo, por influenciar o projecto. Penso que é desta forma que a maioria dos projectos se tem desenvolvido. Tendemos a ter uma aspiração, e essa aspiração tende a ser concretizada de um modo particular com as pessoas que trabalham no projecto.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><b>Metodologia</b></p>
<p><b>J-A – Receberam um financiamento muito pequeno para o vosso primeiro projecto; depois foram contratados por uma instituição do campo das artes; agora estão a trabalhar para uma estrutura governamental. Como fazem para financiar os vossos projectos?</b></p>
<p><b>Amica</b> – Começámos com uma bolsa de 2500 libras para o Cineroleum. Honestamente, esse valor não reflectiu o verdadeiro montante do projecto, que foi superior a isso. Arriscámos cobrir alguns custos, e tivemos retorno na venda de bilhetes. Essa forma de economia influenciou o funcionamento do projecto, que teve de ser muito engenhoso no uso dos materiais e no seu tratamento. A ideia era converter uma estação de serviço num cinema. No fundo investimos mais no processo de execução do que nos materiais. Fizemos as cadeiras rebatíveis com placas velhas de andaimes que deixaram de ter uso, e a cortina foi feita de polietileno plissado, Tyvek, que é um material de impermeabilização de coberturas. O lado da tela geralmente usado para o acabamento interior é bastante rico, e o exterior parece papel de alumínio, permitindo evocar reminiscências dos cinemas da época dourada da <i>art déco</i>, e em que estávamos a pensar para este projecto. Acabámos por coser quase três quilómetros de tela.</p>
<p><b>James – </b>Os três primeiros projectos que levámos a cabo nasceram por iniciativa nossa, no sentido em que tínhamos um lugar e uma ideia a partir dos quais fomos procurar formas de os realizar. Desde então, os nossos projectos têm sido encomendas: somos contactados por um cliente ou um investidor, que tem ou o dinheiro ou a ideia. Na verdade, gostaríamos de fazer agora um projecto que seguisse os moldes de como começámos. A característica-chave desses projectos era o grande investimento na sua execução, era isso que os fazia funcionar realmente bem. Eram visivelmente artesanais e trabalhados intensamente, e praticamente podia ver-se cada aspecto do processo de construção, como as coisas eram montadas. O que temos vindo a tentar fazer é encontrar modos de trazer estas experiências para contextos mais tradicionais, de longo prazo. Foi esse o ponto de partida com que começámos a trabalhar em New Addington, Croydon, onde estamos agora. Penso que ainda estamos a tentar encontrar o ponto certo para tirar partido dessa metodologia.</p>
<p><b>J-A – Qual é essa metodologia? É algo que estão a investigar através da vossa prática?</b></p>
<p><b>Amica – </b>Creio que não existe uma metodologia específica que procuremos investigar. Trata-se mais de olhar para as coisas que foram eficazes, e diferentes, no modo como operávamos nos primeiros trabalhos. Entender que métodos terão de ser usados para beneficiar dessas qualidades num contexto mais tradicional. Aqui em New Addington, por exemplo, o enunciado era estar no próprio lugar alguns dias por semana, fazer um trabalho de âmbito público e terminá-lo com um conjunto de eventos capaz de trazer as pessoas para fora de casa e de as pôr a utilizar a praça e a cidade. Tendo em conta o modo como tínhamos trabalhado anteriormente, propusemos inverter o projecto: dar primazia aos eventos, utilizá-los como um meio de trazer as pessoas para a rua, para pensar e usar o espaço com intensidade. Em parte isso foi uma forma de investigação, e nós aprendemos, e investigámos aquela área – quem ali estava e quem poderiam ser os utilizadores –, descobrindo as pessoas que dificilmente iriam a uma consulta pública promovida pela câmara. Usámos esses eventos como protótipos de algumas ideias que surgiram durante o primeiro mês em que estivemos aqui. E construímos os protótipos no lugar. Mais uma vez, num modo de trabalho manual intensivo. Construímos intensamente durante um período de duas semanas, pela noite dentro, à chuva&#8230; Todo esse processo atraiu pessoas que vieram falar connosco e tornou-nos muito visíveis, talvez um pouco cómicos. Foi bastante envolvente, e quando os eventos finalmente aconteceram já havia um ímpeto. Mas o processo também conduziu à regeneração real daquele pequeno troço de rua. Foi dessa forma que procurámos aprender a partir de um trabalho efémero.</p>
<p><b>J-A – Parece que uma componente importante deste projecto era materializar esses eventos.</b></p>
<p><b>Amica – </b>Sim. A semana do evento serviu para fazer protótipos dos projectos, mas serviu também para trazer as comunidades e as suas actividades, que são fantásticas, para o exterior e torná-las públicas. Testar os projectos era bastante secundário em relação ao carácter público das actividades. Do que mais gostei foi do modo como trabalhámos as coisas, da forma como decidimos o que o palco tinha de ter e onde seria localizado. Não se tratou necessariamente de falar com as pessoas acerca do que elas queriam que nós fizéssemos com o centro do seu bairro, mas de falar acerca daquilo de que elas necessitam, por exemplo, para fazer acontecer um evento de cães numa terça-feira 18 de Dezembro. Assim, estávamos a falar de coisas específicas. E isso ajudou-nos a desvendar as condicionantes efectivas de uma forma mais rápida e de um modo mais directo do que se as abordássemos unicamente através do desenho.</p>
<p><b>James – </b>Penso que essa estratégia nos deu argumentos muito persuasivos, pelas propostas que estávamos a desenvolver. E estar no lugar dois dias por semana foi, em muitos aspectos, uma grande vantagem, porque tínhamos pessoas constantemente a entrar-nos pela porta e a comentar o nosso trabalho, dizendo coisas do tipo: “Sei que vocês são os arquitectos e tal, mas eu tenho estas boas ideias”, ou “ponham um grande quadrado de tijolos com uma árvore no meio”. Portanto, interessava sermos capazes de apontar para os factos físicos que ocorreram e perguntar: “O que achas disto?” Sermos capazes de demonstrar o uso das coisas. Os Pathfinders, um grupo comunitário com quem estávamos a colaborar e a partilhar escritório, costumavam designar essa estratégia como “try before you buy” [experimenta antes de comprar].</p>
<p><b>J-A – Por alguma razão, não tiveram uma estratégia tradicional de participação pública. Desenvolveram a vossa própria. Qual o motivo?</b></p>
<p><b>James – </b>Na verdade, penso que por várias razões. Uma foi a aprendizagem que tivemos no projecto Folly for a Flyover. O que nos torna diferentes de quaisquer outros, apesar de alguma falta de experiência, foi termos tido aquela ocasião para programar actividades num espaço e, assim, tentar mudar a percepção do lugar através de acontecimentos&#8230; Nós não éramos capazes de oferecer uma abordagem mais tradicional, para isso haveria pessoas mais bem posicionadas.</p>
<p><b>Amica – </b>A nossa posição é um pouco céptica em relação ao que se pode aprender através de formas tradicionais de consulta e envolvimento público. Sentíamos que havia muito para aprender sobre este lugar: a praça, que é realmente o centro da cidade, como era, do que precisavam as pessoas, onde estavam os problemas&#8230; Sentimos que queríamos aprender mais do que nos seria possível através de coisas como inquéritos ou assembleias públicas a envolver a população. Penso que o método se revelou cada vez mais apropriado, e começámos a perguntar-nos verdadeiramente qual seria o nosso ponto forte, que pudesse ser adequado para aqui. Nos primeiros meses, enquanto o estávamos a desenvolver, tornou-se cada vez mais óbvio que esse era um modo produtivo de prosseguir. E a ambição alargou-se.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><b>Colaborações</b></p>
<p><b>J-A – Estamos a fazer esta entrevista no Octagon, um lugar que é parte do centro comunitário de New Addington. Querem falar-nos um pouco acerca do processo de colaboração que têm desenvolvido aqui?</b></p>
<p><b>Amica – </b>O Octagon era um sanitário público, depois foi transformado num cibercafé e, recentemente, passou a ser a sede dos Pathfinders, um grupo comunitário que funciona como uma espécie de embaixada da população de New Addington no município, gerindo as iniciativas da comunidade com vista a melhorar a cidade. Quando o projecto foi concebido pelo município de Croydon, os Pathfinders acharam que era boa ideia estarmos aqui em residência alguns dias por semana; eles escolheram este lugar e nós acabámos por trabalhar aqui a tempo inteiro durante os primeiros seis meses. Este espaço também funciona como um centro social temporário, não específico, para pessoas com problemas que os Pathfinders possam eventualmente apoiar: recolhas de lixo, iluminações de rua avariadas, crianças mal-comportadas, e por aí fora. Em boa verdade, é bastante interessante tentar fazer o trabalho de um escritório tradicional a partir do átrio de um centro social, exposto às preocupações do dia-a-dia das pessoas que aqui vivem, mas também expondo-se a elas.</p>
<p><b>J-A – Transportar o escritório para o local onde estão a trabalhar é algo que façam com frequência?</b></p>
<p><b>Amica – </b>O nosso próximo projecto deste género é em Harrow, e esforçámo-nos bastante por fazê-lo&#8230; No início, a ideia era mudarmo-nos para lá, mas acabou por ser mais complicado. Penso que da próxima vez vamos tentar repetir esta situação, se for possível. O nosso estúdio é, na verdade, um espaço de residência artística financiado pela LLDC [London Legacy Development Corporation]. Estamos lá desde 2011. Fazemos investigação e projectos com a LLDC naquela área. E o estúdio é, ele próprio, um projecto. Fizemos um escritório e uma oficina, a partir dos quais executamos todos os nossos projectos. A parte da frente é um espaço público, criado para colmatar a completa falta de comunidade pública naquela zona, que está num momento de transição entre um antigo uso industrial e um programa residencial interrompido pela queda de preços no sector imobiliário do início dos anos 2000, mas também pela especulação e desilusão causadas pelos Jogos Olímpicos, e pelo efeito de distorção que os Jogos tiveram no mercado da habitação. Suponho que há uma carência de espaços sociais, se não contarmos com o McDonalds, as igrejas ou os supermercados. E por isso abrimos um cinema, um pequeno restaurante&#8230; E conseguimos fazê-lo lá.</p>
<p><b>J-A – Isso foi uma troca com a LLDC?</b></p>
<p><b>Amica – </b>Quando acabámos o Cineroleum demo-nos conta de que ficámos com um cinema. Temporariamente fomos distribuindo as peças por Londres, nos sótãos e caves de amigos, mas rapidamente contactámos diferentes entidades e organizações do campo das artes e perguntámos: Querem isto? Imagino que a LLDC se tenha perguntado o que fazer com aqueles edifícios industriais desactivados para os quais ainda não havia perspectivas de utilização. Eles responderam ao nosso <i>e-mail</i>, que lhes tinha sido reencaminhado por alguém, e levaram-nos a visitar alguns desses edifícios. Entretanto a nossa actividade cresceu e mudou bastante. Nos doze meses seguintes fizemos o Folly for a Flyover e começámos a ter propostas para outros trabalhos, o que significava trabalho a tempo inteiro. O que originalmente começou como ideia para uma instalação, que consistia em sermos nós a oferecer o cinema que alguém iria gerir, acabou por se tornar num projecto de envolvimento.</p>
<p><b>J-A – Mas tem um prazo de validade.</b></p>
<p><b>James –</b> Em algum momento terá de acabar, mas isso não está totalmente definido.</p>
<p><b>Amica – </b>Entre três e quinze anos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><b>Aprendizagem</b></p>
<p><b>J-A – No vosso escritório há dias de “crítica” em que toda a gente traz as suas próprias propostas: dividem-se em grupos&#8230; Isso parece-se muito com uma escola. </b></p>
<p><b>Amica – </b>Isso foi como trabalhámos no Folly for a Flyover. Não voltámos a utilizar esse método. Mas temos tentado reproduzir o lado bom do trabalho num ambiente escolar, que é ter muitas pessoas a ouvir e a pensar nas tuas ideias&#8230;</p>
<p><b>James –</b> Provavelmente é apenas aspirar a um determinado processo de trabalho. É tentar replicar as qualidades da escola – o que quer dizer que continuamos todos a aprender e a ter ocasião de testar e escrutinar ideias. Ainda não encontrámos a forma ideal de o fazer, porque é um processo de trabalho difícil.</p>
<p><b>Amica – </b>É complicado porque muitas das coisas que o tornam difícil são também as coisas que o tornam interessante. O que é necessário é procurar encontrar um equilíbrio, e ainda estamos a trabalhar nisso. Penso que uma coisa realmente positiva nesse diálogo é não ser necessário começar imediatamente a desenhar.</p>
<p><b>J-A – Vocês também desenvolveram sistemas de aprendizagem dentro dos vossos próprios projectos, como no caso de New Addington. Encaram essa prática como uma alternativa a um ambiente de ensino mais convencional, como o que se pratica na universidade, por exemplo?</b></p>
<p><b>James –</b> É de certa maneira uma ambição, penso eu, experimentar e criar essas oportunidades. Nos projectos autoconstruídos foi obviamente mais fácil, tínhamos mais controlo sobre o que essas oportunidades poderiam ser.</p>
<p><b>Amica – </b>Eu não pretenderia nada tão ambicioso como substituir uma educação formal. Muitas das coisas que estamos a tentar fazer não estão necessariamente focadas em pessoas que estejam num processo de educação formal. É uma espécie de aprendizagem autoconsciente. A ideia é ter um interesse mais geral pelo modo como o ambiente está a ser transformado e entender como nos podemos envolver nessa transformação.</p>
<p><b>James –</b> É sempre difícil falar em nome de todos quando somos dezoito. Sinto que o modo como trabalhamos é uma alternativa a estar na escola, mas não quer dizer que trabalhar seja uma coisa oposta a estar na escola. Estamos a tentar cultivar diferentes oportunidades e processos, aos quais não tens acesso se estiveres numa aprendizagem arquitectónica normal.</p>
<p><b>J-A – Pensam em voltar à escola?</b></p>
<p><b>Amica – </b>Eu nunca frequentei uma escola de arquitectura, portanto não vou voltar. A Alex, por exemplo, estava a conversar com ela sobre isto na semana passada, e ela dizia que talvez possa voltar à escola, mas só daqui a dez anos ou coisa parecida. Da maneira como vocês falam sobre o assunto, parece que não dão valor ao processo de educação formal, que não é necessariamente produtivo. Pelo menos para fazer do princípio ao fim.</p>
<p><b>James – </b>Tendo em conta o ritmo de aprendizagem, as oportunidades que temos em cada projecto e o facto de estes serem guiados pelos nossos interesses, tudo isto por si só significa que estamos a aprender muito a toda a hora. Quem sabe se não haverá um momento em que possamos ser dispensados das entregas, das relações formais com clientes, dos orçamentos e de todas essas coisas&#8230; Nós estamos ausentes da primeira parte do processo de educação, em que se desenha com uma espécie de contexto mas sem muitas condicionantes reais. Imagino um momento em que seria muito útil sermos capazes de reavaliar os processos de aprendizagem, o modo como se aprende a pensar e a trabalhar nestes projectos, e dar um passo à retaguarda no processo projectual e na forma como actuamos agora. Possivelmente, dessa forma seríamos capazes de retirar muito mais daquilo que estamos a fazer agora.</p>
<p><b>Amica – </b>Creio que há alguma coisa fantástica no fazer projectos, na ideia de aprender através do trabalho – embora isto possa parecer um bocadinho condescendente. Penso que é realmente espantoso abordar um projecto e estar disponível para aprender coisas novas. Desse modo, é provável que consigamos evitar repetir alguns erros, e talvez nos tornemos um pouco mais críticos relativamente ao que fazemos. Não fazer apenas coisas que já se sabe fazer, que é o que acontece muitas vezes a pessoas que trabalham em escritórios a tempo inteiro: limitam-se a percorrer os caminhos que já conhecem, convencem-se de que a forma como fazem as coisas é a melhor.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><b>Colectivo</b></p>
<p><b>J-A – Sentem-se a fazer parte de uma geração? Não sei se se poderia chamar movimento, mas&#8230; sentem existir um contexto geracional para o vosso trabalho?</b></p>
<p><b>Amica – </b>Sim, claro. O Cineroleum não surgiu do nada. Havia outras pessoas a fazer coisas do género.</p>
<p><b>James – </b>Não estamos sozinhos.</p>
<p><b>Amica </b>– Creio que um dos motivos pelos quais o Cineroleum teve tanta atenção da crítica foi por ter sido lido como representativo de um conjunto de coisas que estavam a ser feitas ao mesmo tempo por muita gente. Tornou-se um pequeno ícone, no qual se concentraram muitas coisas diferentes. Pensar na nossa prática de forma isolada não faz qualquer sentido.</p>
<p><b>James –</b> Havia o Frank’s Cafe em Peckham, que foi feito pelos Practice Architecture, com quem tínhamos estudado antes do Cineroleum e isso foi&#8230;</p>
<p><b>Amica – </b>Inspirador&#8230;</p>
<p><b>James –</b> Sim, foi. Foi incrível o modo como aquelas pessoas conseguiram encontrar clientes suficientes para conseguir construir e gerir aquela estrutura, que era bastante impressionante. Suponho que a pergunta que nos têm feito com mais frequência depois do Cineroleum é: O que é que fez o Cineroleum acontecer? Constantemente há pessoas a pensar em fazer projectos, e eu penso que para nós foi importante ver que alguém já o tinha feito antes. Nós não estávamos a ser pioneiros em nada.</p>
<p><b>Amica – “</b>Se aquele fez, tu também consegues&#8230;” É como uma longa cadeia&#8230; Mas aquele provavelmente viu outros quaisquer, provavelmente os EXYZT, e disse: “Se tu consegues fazer&#8230;” É uma comunidade&#8230; Basta olhar para as pessoas com quem somos convidados a falar, ou para as pessoas com quem trabalhamos no Folly for a Flyover, e vês que estamos todos a fazer coisas um pouco diferentes, a travar combates ligeiramente distintos, mas certamente muitas pessoas à nossa volta estão a tentar fazer coisas de uma forma talvez similarmente diferente.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Este artigo foi publicado no J-A 247, Mai — Ago 2013, p. 138-145.</p>
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		<title>As outras práticas da arquitectura</title>
		<link>http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/as-outras-praticas-da-arquitectura/</link>
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		<pubDate>Thu, 23 May 2013 07:00:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>edit</dc:creator>
				<category><![CDATA[Correspondentes]]></category>
		<category><![CDATA[247]]></category>
		<category><![CDATA[Marta Caldeira]]></category>

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		<description><![CDATA[Os dados foram lançados e dobrou-se a aposta na formação teórica: a frente académica da east-coast americana promete reconfigurar o território disciplinar da arquitectura. De Yale ao MIT, passando por Harvard e Columbia, as principais escolas de arquitectura dos Estados Unidos levaram a cabo]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Os dados foram lançados e dobrou-se a aposta na formação teórica: a frente académica da <i>east-coast</i> americana promete reconfigurar o território disciplinar da arquitectura. De Yale ao MIT, passando por Harvard e Columbia, as principais escolas de arquitectura dos Estados Unidos levaram a cabo uma notável consolidação de mestrados orientados para a teoria. Com os programas teóricos emergiu uma nova área de formação em arquitectura, entre os dois extremos clássicos do ensino americano: os MArch – <i>master in architecture</i>, mestrados acreditados que visam o acesso à prática profissional – e os doutoramentos, de cariz essencialmente académico. Com uma grande procura internacional, estes programas reflectem uma fracção cada vez maior de arquitectos que não tencionam praticar arquitectura no seu sentido convencional. Os programas teóricos propõem assim substituir a prática projectual por uma série de outras práticas – de curadoria, crítica, conceptual, ambiental, editorial, etc. – que exploram meios alternativos de produção do discurso arquitectónico.</p>
<p>As práticas propostas não constituem uma novidade no campo da arquitectura. Ao longo do século xx foi notório o papel desempenhado por exposições, publicações e outros eventos como lugares privilegiados de produção e disseminação do discurso disciplinar. Dos livros da Bauhaus, a <i>This is Tomorrow</i>, ou às <i>little magazines</i> dos anos 60 e 70 como <i>Oppositions</i>, os exemplos que na sua época foram alternativos integram hoje o cânone da história disciplinar, muitas vezes assinalando pontos de viragem na sua trajectória. O que os programas teóricos americanos apresentam de novo é o facto de serem as instituições académicas a reclamar um território que até agora se propunha como “outro”, espaços de resistência possível por se situarem fora dos centros institucionais da cultura arquitectónica. Com consequências ainda imprevisíveis, a aposta numa nova configuração dos <i>master</i> teóricos parece assim levar à institucionalização de práticas disciplinares alternativas.</p>
<p><strong>Os programas</strong></p>
<p>Ao colmatarem a lacuna evidente entre os <i>master</i> profissionalizantes e os doutoramentos, os <i>master</i> teóricos distinguem-se por excluir o projecto (os chamados <i>studio</i>, parentes dos <i>ateliers</i>) do seu currículo pedagógico. A base do plano de estudos de quatro semestres é composta por disciplinas opcionais de teoria ou história, onde o objectivo principal é a elaboração de teses individuais de investigação. Nas várias etapas, os programas teóricos promovem uma formação individualizada através da colaboração entre o aluno, um orientador e o coordenador do programa. A tese, por sua vez, não segue as exigências de profundidade e rigor científico extremo das dissertações de doutoramento: os novos investigadores teóricos estão livres da “regra dos trinta anos” que vigora nos doutoramentos americanos em arquitectura, permitindo – ou mesmo encorajando – a abordagem de temas contemporâneos. A forma da tese pode também variar. Da clássica tese de teor histórico ou teórico<ins cite="mailto:Admin" datetime="2013-04-24T18:43">,</ins> ao portfólio de textos críticos, da conceptualização e documentação para uma exposição, publicação ou evento, até formatos mais vagos e abertos a modos inovadores de visualização e interacção da arquitectura, a contribuição ao campo disciplinar é feita através de uma miríade de plataformas operativas. Ao excluir o projecto tradicional, a intenção é interrogar, historizar, criticar e, eventualmente, deslocar o pensar e o fazer arquitectónico<ins cite="mailto:Admin" datetime="2013-04-24T18:43">s</ins>.</p>
<p>Apesar da diversidade e do carácter individual dos trabalhos, todos os programas teóricos estão centrados numa disciplina obrigatória de “Colloquium” ou “Métodos”, um espaço de trabalho semanal onde se debatem os objectivos, os instrumentos, o potencial e também os limites das práticas propostas. É também esta a disciplina que, através do seu conteúdo teórico, revela as diferenças relevantes na missão dos vários programas.</p>
<p>Entre os programas mais antigos encontram-se o MED (Master of Environmental Design) em Yale, e o SMArchS (Master of Science in Architecture Studies) do MIT, fundados nos anos 60 e 70. Coordenado por Eeva-Liisa Pelkonen, ela própria aluna do programa nos anos 90, o MED propõe uma especialização no estudo da arquitectura e do ambiente edificado baseada no princípio do “aprender fazendo”. No MED, “fazer” traduz-se na combinação entre pesquisa, análise e escrita em torno dos temas individuais de investigação. O arquivo de teses do MED regista as oscilações do discurso disciplinar ao longo das últimas décadas, onde se destacam os temas da habitação nos anos 70, as tipologias na década de 80, a cidade nos anos 90, e a orientação ambiental dos trabalhos mais recentes. O SMArchS, por sua vez, desdobra-se em seis áreas de estudo, onde a área de História, Teoria e Crítica (HTC), coordenada por Caroline Jones, se enquadra neste modelo pedagógico de base teórica. Os <i>colloquia</i> de ambos os programas MED e HTC concentram-se na prática da escrita através da análise de precedentes, de géneros literários, e de textos metodológicos sobre crítica e historiografia arquitectónica. O programa de HTC estuda também métodos e conteúdos historiográficos aplicados a “objectos visuais”, na tradição académica da história de arte. Destinados essencialmente a candidatos com formação em arquitectura, o MED e o HTC/SMArchS propõem-se criar condições para a difícil transição entre duas formas de pensar, entre o mundo profissional e um futuro ingresso no mundo académico dos doutoramentos, mantendo a missão original destes programas: o arquitecto transforma-se no <i>scholar</i>, e os temas e métodos de pesquisa enquadram-se nos padrões convencionais da academia americana.</p>
<p>São, contudo, os programas mais jovens como o CCCP (Critical, Curatorial, and Conceptual Practices) da Columbia, fundado em 2009, ou programas existentes mas recentemente reestruturados como o MDesS (Master in Design Studies) em Harvard, que investem mais na reconfiguração das práticas discursivas em arquitectura. Estes programas não excluem a eventual transição dos alunos para doutoramentos, mas o objectivo principal é orientar a preparação intelectual para as actividades de curadoria, crítica e <i>media</i>, praticadas tanto pelas instituições de poder como pelas fronteiras resistentes, ambas quase sempre exteriores à academia. Os <i>colloquia</i> do MDesS e do CCCP reflectem esta diferença de objectivos, que os distingue de modo radical dos programas anteriores.</p>
<p>Das oito áreas de estudo do MDesS, a área de “History and Philosophy in Design” coordenada por Timothy Hide e Sanford Kwinter é a que mais se concentra no conteúdo teórico da arquitectura. O <i>colloquium</i> “Buildings, Texts, Contexts” é leccionado ao longo de dois semestres e valoriza o enquadramento histórico da modernidade arquitectónica do século xviii até ao presente. As várias práticas que compõem o discurso disciplinar são estudadas nas suas intersecções com as condições sociopolíticas, os desenvolvimentos tecnológicos, e as expressões culturais de cada momento histórico. Em paralelo à formação histórica e ao recurso a instituições existentes – tais como museus, arquivos, galerias, etc. –, os alunos do MDesS são incentivados a explorar formas contemporâneas de práticas críticas e curatoriais no desenvolvimento do seu trabalho.</p>
<p>O CCCP, fundado e coordenado por Felicity Scott, é talvez o programa que mais radicaliza a relação entre consciência histórica e práticas alternativas em arquitectura. Scott propõe três “plataformas” operativas – editoriais, expositivas e experimentais – como chave de leitura da história. Desta forma as práticas disciplinares não são vistas como <i>produtos</i> históricos (determinadas), mas sim como <i>agentes</i> históricos (determinantes), tornando-se imperativa a avaliação constante do seu conteúdo ideológico. Com esse fim, o estudo de casos concretos de “plataformas” operativas é complementado por outro <i>colloquium</i>, conduzido por Mark Wasiuta, dedicado a teorias que informaram o discurso crítico contemporâneo em arquitectura. Os alunos do CCCP são treinados a avaliar o modo como as várias práticas arquitectónicas contribuem para a consolidação ou para a crítica do <i>statu quo</i>. Esta actividade crítica é ensaiada pelos alunos na “esfera pública”, uma frente do CCCP dedicada à promoção do debate público através da organização de exposições e conferências.</p>
<p>A missão destes programas é clara. Em vez de preparar <i>scholars</i> para uma futura integração na elite académica, o CCCP e o MDesS apostam na formação de <i>agentes de arquitectura</i>, cuja missão é ocupar espaços discursivos alternativos, por norma exteriores à academia. Esta nova ocupação é intencionalmente inclusiva e indiscriminada, tendo em vista não apenas os centros institucionais mas também as fronteiras emergentes do território disciplinar. A aceitação destes novos agentes está a ser imediata e abrangente. Em Portugal, José Esparza, recém-formado pelo CCCP, faz parte da equipa curatorial da edição de 2013 da Trienal de Arquitectura de Lisboa.</p>
<p><strong>Problema em aberto</strong></p>
<p>Qual a natureza deste novo agente de arquitectura? Ao posicionar a actividade crítica no centro da prática disciplinar, estes programas de ensino reclamam uma herança disciplinar fundada em formas de acção alternativas. Mas, ao contrário dos seus antecedentes, o novo agente é um <i>especialista</i>: mais do que recorrer a outras práticas para eventualmente redireccionar a arquitectura com uma nova teleologia, o novo agente não tenciona apresentar novas direcções, e ainda menos regressar à prática projectual. A sua função é interrogar, criticar, expor, promover o debate, tornando-se assim um instrumento vital para a disseminação da pesquisa académica perante um público (mais) geral, de arquitectos e não só – um público que era, até agora, praticamente inalcançável para o corpo académico. Para a classe arquitectónica “praticante” (entenda-se, dedicada à prática projectual), fica a incerteza desta aposta. Com a especialização destes novos agentes acentua-se certamente a distância entre a prática de projecto e as outras práticas de arquitectura. Isto porque é quase natural a cedência da instrumentalização cúmplice que no passado marcou a relação entre o projecto e as outras práticas disciplinares. Simultaneamente ganha-se a possibilidade de ter uma maior consciência histórica, não só do passado, mas acima de tudo do presente. Fica em aberto o problema da sua operatividade.</p>
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