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	<title>Jornal Arquitectos &#187; Obra Feita</title>
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		<title>TURBILHÃO</title>
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		<pubDate>Fri, 08 May 2015 08:00:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>edit</dc:creator>
				<category><![CDATA[Obra Feita]]></category>
		<category><![CDATA[252]]></category>
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		<description><![CDATA[O novo Terminal de Cruzeiros é a face mais visível de uma importante reestruturação em curso do porto de Leixões, capaz de afectar a sua organização interna e a sua relação com a cidade e com a região. O edifício é uma das maiores obras de carácter público construída no norte do país nos últimos anos, e constitui também a dimensão visível do contributo da arquitectura num processo complexo de mediação de diferentes poderes em actuação e confronto no território.]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><b><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/leixoes700_01.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3083" alt="O terminal e o molhe, a partir do Castelo do Queijo" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/leixoes700_01.jpg" width="700" height="500" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/leixoes700_02.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3084" alt="Perspectiva da marina de recreio" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/leixoes700_02.jpg" width="700" height="500" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/leixoes700_03.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3085" alt="Zona do restaurante no piso superior" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/leixoes700_03.jpg" width="700" height="500" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/leixoes700_04.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3086" alt="Sob a passarela de ligação com o percurso superior do molhe" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/leixoes700_04.jpg" width="700" height="500" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/leixoes700_05.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3087" alt="O Atlântico do anfiteatro da cobertura" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/leixoes700_05.jpg" width="700" height="500" /></a>Novo Terminal de Cruzeiros de Leixões, Matosinhos.<br />
Projecto de Luís Pedro Silva</b></p>
<p>O novo Terminal de Cruzeiros é a face mais visível de uma importante reestruturação em curso do porto de Leixões, capaz de afectar a sua organização interna e a sua relação com a cidade e com a região. O edifício é uma das maiores obras de carácter público construída no norte do país nos últimos anos, e constitui também a dimensão visível do contributo da arquitectura num processo complexo de mediação de diferentes poderes em actuação e confronto no território.</p>
<p><b>O PORTO DO PORTO</b><b></b></p>
<p>A estrutura portuária construída no estuário do rio Leça data de finais do século XIX. Os cem anos que seguiram esta fundação foram marcados pela progressiva absorção da actividade portuária que tinha lugar na cidade do Porto, facto que em grande medida se explica pela dificuldade da entrada das embarcações na embocadura do Douro, marcada por sucessivos e trágicos registos de naufrágio. Como em muitas outras cidades, a especialização e modernização da actividade portuária, nomeadamente o processo de contentorização do transporte de carga, foi responsável pela situação actual, em que o porto, apesar do seu papel fundamental para a vitalidade económica da região, tem pouca ou nenhuma relação com a sua envolvente urbana. O desaparecimento do afã portuário do contexto urbano e a tentativa de o amenizar são tão antigos como a da história do próprio porto.</p>
<p>O arquitecto Luís Pedro Silva integrou, desde 2003, a equipa que elaborou o Plano Estratégico do Porto de Leixões, que, além da melhoria funcional do porto, visava a inversão desta relação. Nesse âmbito, faziam parte das recomendações a criação de um parque urbano no Vale do Leça, a articulação directa do porto com as novas infra-estruturas rodoviárias a nascente, e a melhoria das condições existentes de acolhimento de cruzeiros de passageiros. Na sequência do estudo anterior, o <i>atelier</i> de Luís Pedro Silva foi convidado a desenvolver um estudo prévio para o programa de passageiros, que, além da solução formal e da localização da infra-estrutura, tinha como objectivo definir o programa do edifício e elaborar um estudo de viabilidade económica.</p>
<p>O primeiro projecto apresentava cinco cenários com diferentes posições no porto, cada um deles com diferentes modos de articulação com a envolvente. A versão escolhida era já próxima da que foi materializada, quase no extremo do molhe sul. Da proposta fazia parte um conjunto de operações: a construção de um novo cais de acostagem para cruzeiros, um porto de recreio, o edifício para a estação de passageiros, um arruamento de acesso público ao longo do molhe ligando ao passeio marginal da praia de Matosinhos, e a conquista de acesso público a uma área ajardinada – como prolongamento do Jardim do Senhor do Padrão – que agora é um espaço expectante reservado ao porto.</p>
<p>O movimento no porto de Leixões, gerido pela Administração dos Portos do Douro, Leixões e Viana do Castelo (APDL), integra os usos de transporte de carga, pesca, navios de passageiros e barcos de recreio. A aposta no reforço das condições da actividade cruzeirista pretendia permitir a acostagem de navios de maior porte e ampliar a capacidade de receber passageiros em <i>turnaround</i>, ou seja, que efectuam embarque e desembarque (o que implica uma infra-estrutura para a logística das malas e o <i>check-in</i> de passageiros). Esta função permite conquistar proveitos materializáveis de forma indirecta na economia local e abre a possibilidade de estender os períodos de permanência de turistas por mais uma ou duas noites na região. O antigo Terminal de Passageiros Norte, um imóvel classificado projectado pelo arquitecto Francisco Figueiredo em 1955, apenas pode acolher 600 passageiros em <i>turnaround</i>, e o seu cais está limitado à acostagem de barcos de 250 metros. O novo cais tem capacidade para barcos até 340 metros e está localizado logo à entrada do porto, o que simplifica as manobras dos cruzeiros e minimiza a interferência deste tráfego nos movimentos de barcos de carga. Desde a abertura deste novo cais em 2011, o volume de entrada de navios-cruzeiros cresceu substancialmente, sem afectar o funcionamento das outras actividades portuárias.</p>
<p><b>UM REDEMOINHO DE BETÃO</b></p>
<p>O edifício do Terminal de Cruzeiros de Leixões está implantado entre o molhe sul e o cais de acostagem de cruzeiros, a 800 metros da linha de costa, no ponto de transição entre o tramo recto e o sector curvo do molhe. Entre o molhe e o cais está a futura marina de recreio, onde existe uma outra plataforma de acostagem destinada à trasfega de passageiros dos grandes navios para barcos de menor dimensão, capazes de navegarem até à barra do Douro e subirem o rio até à Régua e à região turística do vinho do porto. Enquanto se aguarda pela conquista de um jardim público no interior do porto, o arruamento de acesso ao edifício permitirá a circulação de autocarros, bicicletas e peões, e prevê a possibilidade de instalar trilhos para ligação à rede de eléctricos. Esta acessibilidade transforma o molhe sul num espaço público aprazível, oferecendo à cidade o usufruto de um novo lugar com uma nova perspectiva sobre a própria cidade.</p>
<p>Os vários fluxos confluem no edifício do terminal e dão origem a uma forma dinâmica em torno do centro oval. É em torno desse centro que uma lâmina em betão armado, num movimento espiral ascendente, percorre toda a obra, do chão à cobertura, e organiza os percursos exteriores de acesso. No espaço público, do caminho do molhe até à linha do cais de acostagem, a obra é envolvida por linhas cuja tensão formal caracteriza a dimensão singular da obra. No espaço gerado pela sobreposição dos vários anéis da espiral abrem-se as linhas de iluminação natural, complementadas por uma clarabóia generosa sobre o vazio do núcleo central no interior do edifício. Este núcleo articula os diferentes níveis e as diferentes funções do edifício em torno de uma rampa contínua que prolonga no movimento interior a expressão dinâmica das formas exteriores.</p>
<p>O programa inicial previa a instalação da estação de passageiros no primeiro piso e uma zona comercial no segundo, complementada com área de restauração no último piso, além do miradouro na cobertura e do estacionamento automóvel no piso subterrâneo. Em 2008, enquanto a APDL fazia estudos de viabilidade económica para a exploração da área comercial, a Universidade do Porto manifestou interesse em integrar o seu Pólo do Mar no edifício em projecto. Isso obrigou a um ajuste na organização interna, de modo a acomodar, no espaço anteriormente destinado a 13 lojas, um programa de maiores dimensões e com necessidades funcionais mais complexas: laboratórios, gabinetes, administração e um biotério. A área necessária para o novo uso foi conquistada às zonas de circulação em torno do vazio central e implicou o desenho de um piso intermédio com gabinetes dispostos em mezanino sobre os laboratórios. A iluminação natural deste centro de investigação é conseguida através do poço de luz e, pontualmente, por clarabóias de condução de luminosidade através de tubos com o interior espelhado. O último piso foi convertido em gabinetes de administração da APDL, espaços para eventos e um pequeno restaurante. Na cobertura, em forma de anfiteatro voltado a sul e protegido do vento norte, encontra-se uma panorâmica da cidade e do mar.</p>
<p>A especificidade de uma estação de passageiros consiste no funcionamento por picos: o frenesim das chegadas e partidas – que em Leixões ronda as 3000 pessoas – alterna com longos momentos de inactividade. O uso do edifício como Pólo do Mar prevê uma ocupação permanente de 250 investigadores (distribuídos pelos laboratórios e gabinetes do 2.º piso e pelos aquários no piso inferior) aos quais se somam os funcionários da administração da APDL e as ocupações pontuais do espaço multiusos no 3.º piso. A terceira utilização será a pública, com a possibilidade de acesso à praça na cobertura. O desenho dos espaços e da linguagem do edifício cumpre a missão complexa de responder e articular estes vários andamentos, muitas vezes contraditórios, entre o momento de excepção numa lenta viagem oceânica, o espaço de concentração e trabalho quotidiano, ou o lugar disponível para o uso público.</p>
<p>A estrutura da obra, em betão armado, repousa em estacaria assente no fundo rochoso, a dez metros de profundidade. A complexidade geométrica do edifício é estruturada segundo um conjunto de pilares de secção circular, organizados de forma radial com um desenvolvimento em diagonal para o exterior, suportando as lajes de piso e as lâminas exteriores. A paleta de materiais é dominada pelo betão branco, o granito de São Gens (um material da região no qual tinham sido construídos os molhes do porto) nos pavimentos exteriores – que se prolongam para o interior do piso térreo – e por grandes panos de vidro. O ambiente interior é predominantemente branco, conseguido no acabamento dos pavimentos em betonilha, rebocos de parede, vidros serigrafados ou tectos em tela branca retroiluminados. Pontualmente, há revestimentos “preciosos”, como o tecto em tela acobreada no piso de recepção, rebocos em tons de terra, latão escovado no restaurante ou veludo azul na sala de actos. No entanto, o grande destaque nos materiais cabe ao revestimento de ambas as faces das “lâminas” em mosaicos cerâmicos brancos produzidos pela Vista Alegre, uma estreia desta fábrica no sector da construção. A geometria das peças, hexagonais com faces oblíquas ao plano da fachada e disposição aleatória, confere ao edifício uma textura com um efeito cénico atractivo, capaz de reflectir inesperadamente a luz do sol sobre as suas superfícies curvas.</p>
<p><b>LEVANTA-SE O VÉU</b></p>
<p>A forma do edifício é inusitada, icónica e com uma forte presença urbana, visível a partir das frentes marítimas do Porto e de Matosinhos. Como refere Luís Pedro Silva, a forma gerou desde o início uma adesão capaz de motivar e dinamizar os vários agentes envolvidos: a autoridade portuária (APDL), as autoridades municipais e regionais e a Universidade do Porto (UP). A forma do projecto terá tido ainda a capacidade de contribuir para o desfecho positivo da candidatura conjunta da APDL e da UP aos fundos comunitários do QREN. Envolvida desde a definição estratégica do porto, aos sobressaltos da definição programática e culminando na caracterização formal de uma nova atracção turística, o contributo da arquitectura foi fundamental para a viabilização da própria obra.</p>
<p>A inauguração do edifício é a próxima etapa de um longo processo. Mas a obra só atingirá o seu potencial com a construção e a abertura ao público do arruamento de ligação a terra e dos jardins adjacentes. Nesse momento será reforçado o papel do edifício enquanto extensão do espaço público, se for permitido um acesso tão livre quanto é possível à sua rampa interior e, finalmente, à praça da cobertura. Só assim se cumprirá o que constitui a maior força desta obra: a abertura do porto de Leixões à cidade. Trata-se de procurar articular de modo mais fluido o interior e o exterior de um espaço vedado, com lógicas funcionais e administrativas completamente distintas e por vezes antagónicas, intervindo na espessura mínima da fronteira que os divide: o molhe. Mais do que derrubar muros, esta arquitectura permite caminhar sobre eles, e usufruir do que acontece de ambos os lados.</p>
<p>Este texto foi publicado no J-A 252, Jan–Abr 2015, p. 546–559.</p>
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		<title>‘WE ARE LOVE’</title>
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		<pubDate>Fri, 13 Feb 2015 10:23:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>edit</dc:creator>
				<category><![CDATA[Obra Feita]]></category>
		<category><![CDATA[251]]></category>
		<category><![CDATA[André Tavares]]></category>
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		<description><![CDATA[Há um festival de Verão que aposta na arquitectura como argumento forte da sua programação. Ao lado da música e da experiência colectiva que atrai milhares de pessoas a um mesmo lugar num mesmo momento, o Boom quer ser um instrumento de mudança, “criar uma realidade que se relacione de forma positiva com o meio ambiente e contribua para a educação e o conhecimento”.]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><b><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja251_site_04_700_0.jpg"><img class="alignnone  wp-image-2753" alt="Boomers sob o calor intenso do Verão da Beira Baixa" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja251_site_04_700_0.jpg" width="700" height="550" /><b></b></a><b><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja251_site_04_700_5.jpg"><img alt="Liminal, nicho em superadobe" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja251_site_04_700_5.jpg" width="700" height="550" /><b></b></a><b><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja251_site_04_700_4.jpg"><img alt="Boomer descansa na sombra fresca do pavilhão Liminal" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja251_site_04_700_4.jpg" width="700" height="550" /></a></b></b><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja251_site_04_700_2.jpg"><img class="alignnone  wp-image-2755" alt="Doze das 284 unidades de sanitários secos" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja251_site_04_700_2.jpg" width="700" height="550" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja251_site_04_700_3.jpg"><img class="alignnone  wp-image-2756" alt="Aspecto do acesso ao festival através dos 19,5 hectares de estacionamento automóvel" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja251_site_04_700_3.jpg" width="700" height="550" /></a><b><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja251_site_04_700_1.jpg"><img alt="Dance Temple" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja251_site_04_700_1.jpg" width="700" height="550" /></a></b></b><b>Boom Festival. Idanha-a-Nova</b></p>
<p>Há um festival de Verão que aposta na arquitectura como argumento forte da sua programação. Ao lado da música e da experiência colectiva que atrai milhares de pessoas a um mesmo lugar num mesmo momento, o Boom quer ser um instrumento de mudança, “criar uma realidade que se relacione de forma positiva com o meio ambiente e contribua para a educação e o conhecimento”. A arquitectura do Boom não é canónica, mas responde a considerações técnicas e a problemas ambientais sem pôr em causa a experiência psicadélica da música. Talvez por isso mesmo a organização do espaço e das formas construídas ofereça pistas para ultrapassar os limites das convenções e repensar o universo tal qual o conhecemos. “We are love” é o lema deste festival: haverá lugar para uma arquitectura do amor?</p>
<p align="center"> ***</p>
<p><b>UMA POLÍTICA PARA A LOGÍSTICA</b></p>
<p>Em cada Verão multiplicam-se os festivais de música. Cada festival exige uma logística complexa, que envolve receber temporariamente milhares de pessoas. São operações que se aproximam da arquitectura militar, activando estruturas leves e sistemas de abastecimento capazes de garantir o conforto e a fruição de um momento singular. No espaço de poucas semanas, montam-se e desmontam-se cidades, com espaços de habitação (campismo) e comércio (alimentação e não só), estacionamentos para milhares de viaturas, cargas e descargas, e, infalivelmente, todos os focos apontam para palcos e cenários monumentais. Na maior parte dos casos, a arquitectura sucumbe perante a engenharia e os sistemas modulares industrializados, mas há um festival português onde a arquitectura assume um papel preponderante, e, do <i>marketing </i>à experiência física do lugar, a organização do espaço e as formas construídas são elementos centrais da concepção desse evento. O Boom Festival, o mais internacional dos festivais portugueses e que tem como matriz a cultura psicadélica e a música Trance, é, também, um festival de arquitectura.</p>
<p>A valorização da arquitectura está em consonância com as preocupações sociais e ecológicas subjacentes à cultura específica deste festival. O discurso da sustentabilidade, das energias renováveis, da compostagem dos resíduos sanitários, da protecção dos ecossistemas, da bioconstrução e das práticas ambientalmente conscientes faz parte de uma postura política da organização e dos participantes. Não se trata de uma lavagem de consciência ou de um vocabulário sonante para atrair financiamentos a fundo perdido, uma vez que a venda de ingressos cobre integralmente os custos do festival (os bilhetes custam entre 120 e 160 euros e o número de entradas é limitado, com a lotação esgotada muito antes do evento). Ou seja, há convicção na possibilidade de construir um mundo alternativo à sociedade de consumo, e a construção física do espaço do festival reflecte essa convicção e toma formas objectivas. Isto independentemente de a realidade ser mais cruel do que o sonho e, feitas as contas, as acções e estratégias do festival se inscreverem no próprio contexto social e económico que é contestado. Essa domesticação explica a “terceira vaga” que o Boom atravessa: se nos primeiros anos era um festival declaradamente “anarquista”, passando depois por uma época “psicadélica”, o Boom é agora “<i>ecotech</i>”.</p>
<p>Durante sete dias de Agosto, o recinto do Boom acolhe cerca 30 mil pessoas, activas 24 horas por dia. Como se organiza um espaço desta natureza? Segundo a explicação de Artur Mendes, um dos organizadores do festival, a estratégia parece simples, algures entre uma teoria vitruviana e uma concepção moderna do planeamento. O trabalho começa por reconhecer a natureza do lugar, nomeadamente as características topográficas e geológicas do terreno, os recursos hídricos e caminhos de água, a existência de sombras naturais, as pendentes mais apropriadas para construir o assentamento. O segundo momento cruza a definição do zonamento com o sistema de fluxos: um festival é feito de circulação, entre as zonas de campismo e os palcos, entre as áreas de repouso e os espaços de alimentação. Os fluxos de público encontram a natureza do lugar e tudo parece acontecer naturalmente, como se a singularidade da experiência social psicadélica apagasse o esforço e a razão subjacentes à concepção do recinto.</p>
<p>A Herdade da Granja, com cerca de 150 hectares na margem da albufeira da barragem de Idanha, é ocupada pelas áreas de repouso e pelos vários palcos do festival. Em torno dessa zona central foram preparados 41,3 hectares para campismo, 19,1 hectares para caravanas (e tendas) e 19 hectares de estacionamento. Há um controlo de acessos único, e todo o recinto é cuidadosamente vedado. Apesar do sistema de acessos e transportes públicos, a massa interminável de automóveis recobertos de poeira fina é a porta de acesso ao “mundo Boom”. Tractores transformados em <i>navettes </i>fazem a ponte entre o estacionamento e o campismo e o ponto fulcral dos acontecimentos do festival: as margens da albufeira, onde estão localizados os palcos para a música e as tendas para a dança. Há aspectos logísticos cruciais, nomeadamente a gestão do consumo de água em chuveiros (a água é gratuita e fornecida a partir da rede pública), ou a opção pela compostagem de resíduos sólidos nos sanitários. Também aqui se sente a nota ecológica do festival, quando os organizadores afirmam “adoramos transformar dejectos em terra fértil”. Essa terra, por sua vez, é utilizada para a produção hortícola, consumida especialmente no tempo da montagem das estruturas antes do festival. Durante os dias de festa há 315 pessoas que se ocupam permanentemente da limpeza do recinto, o que ainda assim não evita a presença constante de priscas de cigarros pelo chão. Isto para além dos 45 espaços de alimentação (e dos respectivos sistemas de cargas e descargas), das equipas de segurança, dos postos de cuidados médicos, dos escritórios para coordenação e, também, dos técnicos de manutenção dos poderosos equipamentos sonoros sobre os quais se concentram todas as atenções do festival.</p>
<p>Há um ponto-limite em que a dimensão do recinto, a complexidade logística e a presença da multidão entram em conflito com as expectativas de alternativa política e cultural. A dúvida sobre os terminais de multibanco permite aferir essa tensão. Apesar das longas filas para levantar dinheiro, os organizadores dizem que para a próxima edição não haverá mais terminais, “estar no Boom não é como estar num <i>shopping center</i>”, uma afirmação que condiz com a dúvida:</p>
<p align="center"><b>&#8230; entre os <i>boomers </i>as opiniões divergem sobre o que traz um número crescente de participantes: para alguns perde-se o espírito do festival, para outros demonstra que há cada vez mais pessoas inflamadas com o espírito</b> <b>do <i>psytrance</i>, a cultura psicadélica e formas alternativas de vida.</b></p>
<p>A organização do festival garante que o objectivo é a qualidade, “no futuro haverá menos bilhetes disponíveis”.</p>
<p><b>O OVO E A GALINHA</b></p>
<p>O epicentro do Boom é o Dance Temple, uma catedral construída em bambu. A dimensão é colossal (uma forma com cerca de 75 metros de diâmetro e torres entre 25 e 31 metros de altura) e a complexidade técnica é evidente. Trata-se de um conjunto com uma planta cruciforme de quinze módulos abobadados, envolvidos por um anel de torres que suspendem quatro “folhas”, cobrindo os mais de quatro mil metros quadrados de área de dança. O foco das atenções é o palco, numa das extremidades da cruz para onde a ligeira pendente do terreno aponta, mas a força vertical das estruturas de bambu gera um espaço isotrópico. As torres são os elementos formalmente mais intrigantes, compostas por seis costelas verticais, subdividem-se em três níveis estruturais (base, fuste e espiral), articulados por cintas, anilhas e parafusos metálicos. As colunas levantam um mastro que permite suspender o cordame que dá forma às telas, e são também utilizadas para incorporar a iluminação decorativa que dá presença nocturna à estrutura. No ponto de maior diâmetro do nível da base é lançado um anel de espigões que sustêm telas num raio de sete metros, telas essas que se associam às quatro folhas e à cruz central, rematando a composição. A construção em bambu é complementada com um aparato tecnológico substancial, nomeadamente cablagens para a ligação entre a <i>régie</i>, o palco e a distribuição dos pontos de difusão sonora, bem como um aparato decorativo assinalável.</p>
<p>A forma espiralada das colunas leva os autores a citar a Sagrada Família como modelo, um projecto em busca da dimensão sagrada do espaço. Mas as estruturas têxteis que o cobrem parecem ser o aspecto mais importante do pavilhão, seja para sombrear a multidão que dança, seja para garantir o melhor desempenho acústico da tenda. A qualidade do som é extraordinária e a estrutura em bambu e tela transforma-se numa caixa de ressonância e absorção para a amplificação sonora. Talvez seja o problema do ovo e da galinha: o que terá chegado primeiro? Os autores do projecto não confirmam nem desmentem, como nos diz François Baudson:</p>
<p align="center"><b>“a arquitectura do Dance Temple” como um espaço de comunhão influenciado pela Sagrada Família foi seguramente mais potente do que o som.</b></p>
<p align="center"><b>Em primeiro lugar, as pessoas reúnem-se naquele “espaço sagrado” para desfrutar da experiência proporcionada pela música. As grandes colunas e as torres de amplificação que construímos para a Funktion-One são uma tentativa algures entre o som e o <i>design</i>&#8230; E, afinal, não é tudo isso arquitectura <img src='http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' /> </b></p>
<p>Esta ambiguidade de leitura também é confirmada por Gerard Minakawa:</p>
<p align="center"><b>Não sei se “estar dentro de um altifalante gigante” é uma coisa boa ou má <img src='http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' /> , mas é certo que tivemos de articular o desenho estrutural com a equipa Funktion-One antes de construir o que quer que fosse. O contributo deles foi muito grande desde o início do processo.</b></p>
<p>É o mesmo conflito entre razão e emoção que também encontrámos em conversa com André Soares, um dos arquitectos do Boom. Há uma prática do projecto que assenta em fundamentos ideológicos ou conceptuais, a razão da construção e os seus suportes tecnológicos apenas oferecem os instrumentos necessários para levar a cabo a obra. Apesar de os instrumentos serem determinantes no desenvolvimento do projecto, torna-se absurdo focar a atenção nesses aspectos: se os instrumentos fossem outros, a obra seria outra, mas a ambição seria a mesma.</p>
<p>Se a concepção do Dance Temple foi confiada a Gerard Minakawa e François Baudson, o modelo tridimensional para o cálculo da estrutura e controlo de execução foi desenvolvido pela mexicana Alejandra Sotelo Cortés, assim como outra equipa desenhou as lonas da cobertura e outros artistas colaboraram na formalização das portas de entrada, tal como a equipa Funktion-One desenhou o desempenho sonoro. Ao contrário de outros pavilhões do Boom, no pavilhão de bambu a predeterminação do projecto é fundamental. A tecnologia adoptada exige um controlo de representação e detalhe que aproxima o trabalho do <i>design </i>industrial, afastando o desenho dos  modelos de representação convencionais. Plantas, cortes e alçados apenas fazem sentido enquanto representações esquemáticas que orientam a distribuição de cablagens dos sistemas de som e iluminação. A simplicidade aparentemente natural da obra, muito apreciada pelos <i>boomers</i>, só é possível graças à sofisticação tecnológica subjacente ao projecto. Este paradoxo, mais do que ser uma contradição, está no cerne da cultura Boom. A tecnologia oferece os instrumentos necessários para superar os limites do convencional e abre caminhos para construir uma sociedade mais bela. As arquitecturas do Boom são um reflexo dessas experiências.</p>
<p><b>ARQUITECTURA EXEMPLAR</b></p>
<p>O espaço do festival usa-se em movimento. Os <i>boomers </i>transitam entre o Dance Temple e os Chill Out Gardens, ou entre o Alchemy Circle e Liminal/Art Museum, contemplam o Sacred Fire a poente do recinto ou alimentam-se nas tendas a nascente, tomam banho na Funky Beach ou sobem para as zonas de campismo. O movimento não é aleatório, os telefones móveis são a tecnologia fundamental para a navegação (e para o encontro), e cada construção é como um farol que orienta o movimento. Não há uma rede de infra-estruturas a ordenar um território, há construções, cada uma com o seu simbolismo voluntarioso, que marcam pontos de referência e estruturam a paisagem. Cada palco, ou cada função, ganha estatuto de monumento, na medida em que se organiza de forma auto-suficiente e é capaz de gerar referências na estrutura do conjunto.</p>
<p>Há obras muito diferentes, mas todas parecem decorrer de uma paixão específica. O Chill Out é povoado por criaturas moldadas em terra, há vários cestos e ninhos que convidam à intimidade e, cada uma dessas peças tem o seu artesão, que as constrói no lugar, em comunhão com outros construtores, que depositam na obra um afecto particular. Ou, noutra perspectiva, também há marcos especiais, como a Wish Tower, uma torre colorida e luminosa desenhada pelo colectivo Like Architects. E outros palcos são estruturas mais ou menos convencionais. No meio desta biodiversidade de arquitecturas, tal como o Dance Temple, destaca-se o pavilhão Liminal.</p>
<p>O Liminal é uma sala de conferências construída em superadobe, uma técnica que usa a terra de argila ensacada em sacos de propileno e que permite a construção de paredes com formas orgânicas, apiloadas, mas sem necessidade de recorrer a cofragens. As paredes circulares constroem vários nichos com uma resistência térmica notável (que oferecem aos <i>boomers </i>pequenas salas frescas que contrastam com o calor de Idanha), e esses nichos conformam um espaço interior coberto com um toldo tensionado entre o palco e uma série de mastros contrapostos às curvas do superadobe. André Soares, o arquitecto, destaca o papel fundamental do trabalho de colaboração no momento da construção. A equipa debate o projecto, e cada um, com a sua competência, dá forma a uma obra colectiva. Há uma grande margem para improvisação, tirando partido não apenas dos percalços inesperados, mas, sobretudo, das capacidades e empenho de cada um dos colaboradores-construtores. A obra torna-se um lugar de ensaio e experimentação, mas, como nos sublinha o arquitecto, torna-se sobretudo um lugar de “celebração do conhecimento”. O esboço inicial lança a “semente da ideia” e oferece espaço para cada trabalhador partilhar o seu prazer e as suas competências, coordenando e integrando esses contributos numa construção orgânica. É uma homenagem à “arquitectura sem arquitectos”, mas, mais do que isso, é uma noção de projecto que abre outros caminhos à noção de eficiência. Como nos diz André Soares, “a obra faz-se na obra, não no projecto. Não podemos ficar prisioneiros do projecto.”</p>
<p><b>EXPERIÊNCIA PSICADÉLICA</b></p>
<p>Os <i>boomers </i>são criaturas únicas. Circulam pela noite em direcção ao palco certo, à experiência física do som e ao prazer dos sentidos, sempre sorridentes. O Boom é um mundo à parte, um universo fechado onde tudo parece fazer sentido, uma experiência acelerada pela combustão psicotrópica que transparece nos rostos e nos corpos sob o calor intenso da Beira Baixa. Será que a arquitectura também pode ser assim?</p>
<p>Este texto foi publicado no J-A 251, Set — Dez 2014, p. 462 – 475.</p>
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		<title>NA TERRA DO FOGO</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Oct 2014 09:00:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>edit</dc:creator>
				<category><![CDATA[Obra Feita]]></category>
		<category><![CDATA[250]]></category>
		<category><![CDATA[André Cepeda]]></category>
		<category><![CDATA[Isabel Barbas]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro Campos Costa]]></category>

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		<description><![CDATA[Construir na cratera de um vulcão é uma façanha destemida. O poder da paisagem parece ser avassalador e não deixar espaço para qualquer forma de arquitectura. Perante esse cenário, o projecto que venceu um concurso público em 2007 para a sede do Parque Natural do Fogo é uma combinação engenhosa de competência e processo.]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><b><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/04_obra-feita_700_001.jpg"><img class="alignnone  wp-image-2408" alt=" " src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/04_obra-feita_700_001.jpg" width="700" height="547" /></a><img class="alignnone  wp-image-2389" alt=" " src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/04_obra-feita_700_01.jpg" width="700" height="547" /> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/04_obra-feita_700_02.jpg"><img class="alignnone  wp-image-2390" alt=" " src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/04_obra-feita_700_02.jpg" width="700" height="547" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/04_obra-feita_700_033.jpg"><img class="alignnone  wp-image-2391" alt=" " src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/04_obra-feita_700_033.jpg" width="700" height="547" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/04_obra-feita_700_04.jpg"><img class="alignnone  wp-image-2392" alt=" " src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/04_obra-feita_700_04.jpg" width="700" height="547" /></a>Sede do Parque Natural Do Fogo, Chã das Caldeiras, ilha do Fogo, Cabo Verde.<br />
</b><b>Projecto de OTO Arquitectos</b></p>
<p>Construir na cratera de um vulcão é uma façanha destemida. O poder da paisagem parece ser avassalador e não deixar espaço para qualquer forma de arquitectura. Perante esse cenário, o projecto que venceu um concurso público em 2007 para a sede do Parque Natural do Fogo é uma combinação engenhosa de competência e processo. Inaugurado em Março deste ano, a obra demonstra como a melhor arquitectura se constrói no fio da navalha, entre a ficção e a realidade.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p><b>TENSÃO E COEXISTÊNCIA</b></p>
<p>A omnipresença do vulcão domina a paisagem física e mental da ilha do Fogo. No edifício da sede do Parque Natural do Fogo há uma tensão latente na relação entre a obra e a natureza. A relação inevitável com o lugar implica a coexistência, o edifício não desaparece na paisagem, não quer desaparecer. Os arquitectos dizem que nunca foi opção enterrar, ou esconder, a arquitectura. O edifício procura apenas mimetizar a sua envolvente para pertencer ali, para ser e resistir, não como um ser estranho àquele mundo mas como um organismo que lhe pertence. Aliás, como as casas da povoação de Chã das Caldeiras, que se envolvem e fundem na paisagem pela materialidade do tecido geológico. A cor e a textura da construção parecem desmaterializar a forma. As volumetrias construídas com pedra de lava agarram-se ao território pela mão de quem o quer habitar e, com o próprio território, procura construir as suas casas e cultivar os seus alimentos. É essa a força visível nos cenários vulcânicos habitados, a força do homem que molda a matéria. O edifício da sede do Parque Natural do Fogo é um artefacto construído, é feito de matéria que não se dissolve, mistura-se e quase desaparece, mas não desaparece. Está lá, no lugar, indica a presença humana e procura tornar-se parte integrante do vulcão.</p>
<p><b>A CONSTRUÇÃO NO LUGAR</b></p>
<p>O edifício tem uma textura que sugere ter sido construído com pedra, ou lava. Mas na verdade foi construído com banais tijolos de cimento, feitos <i>in situ </i>e secos ao sol, como se fossem de adobe. A pedra foi descartada por razões políticas e culturais: os habitantes da ilha constroem com pedra (lava) local que está a desaparecer, pondo em risco as características naturais da paisagem. A autoridade administrativa não quis dar maus exemplos no que toca à conservação da paisagem, e o projecto optou por utilizar blocos com a tonalidade da pedra local. Chegaram a fazer-se testes com partículas de lava para se conseguir a mesma tonalidade da ilha, mas os arquitectos confessam que essa estratégia não funcionou. “Acabámos por fazer testes com pigmento da Secil, que deu mais garantias.” A secagem ao sol e a produção <i>in situ</i>, sugerida pelo próprio empreiteiro, foi a solução com melhor relação custo benefício.</p>
<p>A textura irregular das paredes resulta da manualidade do processo, com imperfeições e desfasamentos provocados na colocação das peças. O edifício mimetiza a textura porosa das superfícies de lava escura. A fragilidade do adobe de cimento é contrariada pela imponência das paredes, que chegam a ter uma tripla camada e a atingir 80 centímetros de espessura para garantir a auto-suficiência energética do conjunto. A estrutura é um sistema convencional em pilares e vigas de betão armado. O enchimento da cobertura ajardinada, cultivada com espécies autóctones, chega a atingir dois a quatro metros de profundidade, opção que também traz vantagens no desempenho térmico. A geometria da cobertura é um dos aspectos fundamentais do projecto, as rampas em espiral permitem a incorporação de depósitos de água, e a camada de enchimento é uma forma engenhosa para a filtragem da água.</p>
<p>Os desenhos parecem mimetizar um corte geológico. A força destes desenhos revela uma empatia com o lugar e com a sua materialidade que se compreende no conjunto e em cada detalhe. A rocha porosa e leve permite acumular humidade e alimentar o mato bravo (funcho, videira, erva-cidreira e mostardinha, entre outras), e tem o peso formal e a leveza física que justificam o detalhe construtivo inusitado. As paredes dispõem de um sistema de perfuração e de grelhas que garantem a ventilação natural dos espaços. A forma do conjunto também se caracteriza pela permeabilidade dos acessos, pelas rampas que conectam os espaços exteriores interiores, os corredores e acessos cobertos nas áreas de serviços e nas zonas técnicas. Podemos entender o conjunto como uma massa porosa que se foi moldando na erosão do processo de projecto.</p>
<p><b>A FUNÇÃO DO LUGAR</b></p>
<p>O processo teve início em 2007, com um concurso de arquitectura integrado no programa de consolidação do Parque Natural do Fogo, promovido pelo governo de Cabo Verde e com financiamento integral da Cooperação Alemã para apoio a países em vias de desenvolvimento. As sucessivas reuniões e debates com os diferentes intervenientes e utilizadores do futuro edifício levaram a uma gradual alteração do programa funcional. O projecto foi-se ajustando ao programa, ao lugar e às exigências das especialidades, particularmente às componentes térmica e mecânica. As simulações dinâmicas das especialidades foram requerendo avanços e recuos relativamente às soluções adoptadas que o desenho da arquitectura foi capaz de receber e integrar. Os autores sublinham que foi exactamente esta característica que motivou a ideia de projecto. A partir de dados concretos procuraram fazer o mínimo para integrar o máximo e tirar partido da real expressão do lugar. Sem artifícios, respeitaram a crueza dos dados, uma metodologia que acabou por caracterizar o edifício, como que sublinhando a ideia de que o funcional é belo.</p>
<p>O programa caracteriza-se por uma área administrativa e técnica de apoio ao Parque Natural com salas para gestão, monitorização das espécies e da actividade vulcânica e integrou um conjunto de valências de apoio à comunidade. Foi acrescentada uma biblioteca, um centro de exposições e dois auditórios, um interior e outro exterior. A infra-estrutura e os serviços prestados pela biblioteca, nomeadamente o acesso à Internet, permitem-lhe receber visitas diárias da população local, nomeadamente de estudantes. Se o primeiro objectivo foi criar um centro de interpretação do vulcão e da paisagem, foi possível ajustar o programa para que o edifício se tornasse uma mais-valia para a população. Discreto mas perceptível no impacto visual, a sua função exprime-se na consolidação de uma nova paisagem física e social.</p>
<p><b>AUTO-SUFICIÊNCIA</b></p>
<p>Desde o primeiro momento, a concepção do projecto e a sua estrutura formal procuraram responder ao problema da auto-suficiência. O lugar assim o exigia: auto-suficiência de energia, de comportamento térmico equilibrado e ventilação natural, e de gestão de águas. Esta procura fascinante de independência é um tema recorrente, mas neste contexto específico tornou-se um imperativo e não apenas um desejo ou um argumento teórico. Temas comuns foram elevados à categoria de premissas fundadoras do projecto. O edifício demonstra essa resposta, adapta a sua cércea ao relevo preexistente, no sentido de se agarrar geograficamente ao terreno, tirar o melhor partido da orientação solar e levar a que, através dos acessos e da forma volumétrica, se definam caminhos de recolha de águas pluviais.</p>
<p>A engenheira Maria João Rodrigues, coordenadora dos projectos de especialidades e ideóloga do sistema térmico e de produção de energia, garante que as dificuldades que o projecto apresentava se transformaram numa oportunidade criativa para pensar um edifício capaz de integrar os vários elementos passivos. A especificidade das paredes e dos seus materiais, os ensombramentos dos vãos e a cobertura ajardinada foram sendo afinados através de cálculos dinâmicos e concomitantes com o trabalho dos arquitectos. Em forma de desabafo, a engenheira confirmou: “Não é fácil encontrar arquitectos disponíveis para esta intersecção. Ao longo da minha experiência profissional foram muito poucas as situações em que realmente foi possível fazer e concretizar este tipo de experiência.”</p>
<p>A estratégia adoptada visou, por um lado, eliminar as cargas para climatização (aquecimento e arrefecimento), fazendo uso de uma combinação de massa térmica, isolamento, exposição solar controlada e ventilação natural, e, por outro, reduzir significativamente as cargas de iluminação artificial introduzindo níveis adequados de iluminação natural nos espaços com maior utilização. As temperaturas internas são controladas passivamente – tirando partido da interacção entre a inércia térmica (que permite a acumulação de calor durante o dia) e a ventilação natural nocturna (facilitada por grelhas dispostas estrategicamente ao longo da envolvente dos diferentes blocos). E a ventilação natural beneficia da exposição favorável do edifício aos ventos locais, promovendo, durante a estação de arrefecimento (Verão), o arrefecimento nocturno das várias áreas do edifício, particularmente nas áreas administrativas e de exposições.</p>
<p>Devido à integração dos sistemas construtivos, e com a vantagem de o seu uso ser exclusivamente diurno, o edifício tem um baixo consumo energético, que lhe permite funcionar normalmente em total autonomia. O uso esporádico do auditório, que vai gerar picos de consumo, fez prever um gerador de emergência para o caso de ser consumida a energia acumulada nas baterias. O sistema fotovoltaico está desenhado para ser ligado à rede (<i>ongrid</i>), embora a maior parte da energia produzida seja directamente consumida e o recurso às baterias seja muito reduzido. A gestão das águas, um bem escasso, é feita através de dois tanques de recolha estrategicamente colocados por baixo da cobertura ajardinada. A água pluvial é tratada localmente e está integrada num circuito de consumo que a reutiliza para todos os usos.</p>
<p><b>O LUGAR DO ENGENHO</b></p>
<p>A sede do Parque Natural do Fogo é um engenho complexo; simultaneamente austero e racional, é, também, como um pedaço de lava. O trabalho dos arquitectos foi capaz de gerar uma infra-estrutura que pertence ao lugar. O presidente de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, considerou este edifício um símbolo da arquitectura contemporânea cabo-verdiana. A referência é legítima porque a obra representa a tensão entre o engenho humano e a inclemência da natureza, entre o Homem e a força esmagadora do Vulcão. Tal como na <i>Casa de Lava</i>, filme de Pedro Costa rodado na ilha do Fogo em 1993, ou em <i>Stromboli</i>, filmado em 1950 por Roberto Rossellini, a paisagem e as tensões das relações sociais que se geram à margem do vulcão caracterizam-se pelas margens ténues entre a ficção e a realidade. Entre o mimetismo e a insinuação, não é claro se neste edifício pertencemos, ou não pertencemos, ao vulcão. Tal como em <i>Stromboli</i>, não vivemos sem ele, não vivemos com ele.</p>
<p>Este texto foi publicado no J-A 250, Mai — Ago 2014, p. 378 – 389.</p>
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		<title>Na ‘Ilha Negra’</title>
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		<pubDate>Mon, 07 Apr 2014 08:00:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>edit</dc:creator>
				<category><![CDATA[Obra Feita]]></category>
		<category><![CDATA[249 @pt-pt]]></category>
		<category><![CDATA[Isabel Barbas]]></category>
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		<description><![CDATA[O concelho de São Roque é o menos populoso da ilha do Pico, que, segundo os últimos sensos, tem 14 806 habitantes. Na ilha destaca-se a imponente montanha do Pico, que, com uma altitude de 2351 metros, é o ponto mais alto de Portugal. São Roque e a Casa E/C ficam por trás de um segundo edifício vulcânico, numa encosta de grande declive, voltada a norte.]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja249_site_04_sami_700px_01.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1909" alt="Acesso pela cota alta. As coberturas de madeira, plana e inclinada, funcionam como solário orientado a sul" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja249_site_04_sami_700px_01.jpg" width="700" height="560" /></a><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja249_site_04_sami_700px_03.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1911" alt="Abertura na ruína para o antigo espaço de cozinha, com forno, que agora é um pátio" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja249_site_04_sami_700px_03.jpg" width="700" height="560" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja249_site_04_sami_700px_04.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1912" alt="Acesso à casa pela cota inferior ao nível da Estrada Nacional" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja249_site_04_sami_700px_04.jpg" width="700" height="560" /><br />
</a><b>Casa E/C, São Roque, Ilha do Pico.<br />
</b><b>Projecto de Sami</b></p>
<p align="right"><b><i>Pico é a mais bela, a mais extraordinária ilha dos<br />
</i></b><b><i>Açores, duma beleza que só a ele lhe pertence,<br />
</i></b><b><i>duma cor admirável e com um estranho poder de<br />
</i></b><b><i>atracção. É mais do que uma ilha – é uma estátua<br />
</i></b><b><i>erguida até ao céu e amolgada pelo fogo – é<br />
</i></b><b><i>outro Adamastor como o do cabo das Tormentas.<br />
</i></b>Raul Brandão, <i>As Ilhas Desconhecidas</i></p>
<p>O concelho de São Roque é o menos populoso da ilha do Pico, que, segundo os últimos sensos, tem 14 806 habitantes. Na ilha destaca-se a imponente montanha do Pico, que, com uma altitude de 2351 metros, é o ponto mais alto de Portugal. São Roque e a Casa E/C ficam por trás de um segundo edifício vulcânico, numa encosta de grande declive, voltada a norte. Dos “mistérios” (solos de basalto formados por erupções vulcânicas ocorridas após o povoamento) às piscinas naturais nas lajes de pedra, passando pelas atafonas erigidas em pedra seca empilhadas ao longo de gerações, ou dos maroiços, muros, currais, adegas e casas primitivas, até às construções de carácter religioso, o basalto negro imprime um valor cromático que, na sua relação com o mar e a vegetação, caracteriza de forma impressiva uma bela atmosfera negra, sóbria e enigmática. No código de cores das ilhas açorianas, o Pico é a “ilha negra”. A Casa E/C foi construída nesta paisagem.</p>
<p style="text-align: center;"><b>***</b></p>
<p><b>DE PARIS PARA O PICO</b></p>
<p>A ilha do Pico encontra-se num conjunto vulcânico que dista 2710 quilómetros de Paris, cidade onde se conheceram Inês Vieira da Silva e Miguel Vieira, quando, em 1999, eram ambos bolseiros Erasmus na École d’Architecture de Paris La Villette. Depois de estágios curriculares em Paris e Évora, integraram a equipa coordenada pelo arquitecto Nuno Ribeiro Lopes no gabinete de gestão da candidatura do Pico a Património da Humanidade. Entre 2002 e 2004 trabalharam juntos na ilha, testando compatibilidades (distintas sensibilidades e formações), e assim se formaram os Sami, antecedendo a criação de um escritório em 2005, na cidade de Setúbal, onde actualmente exercem a profissão.</p>
<p><b>‘DA PEDRA NASCEM UVAS’</b></p>
<p>Foi à custa de trabalho árduo que os campos de lava se foram transformando em vinhedos férteis e produtivos. Esta cultura atingiu o auge nos séculos xviii e xix, dando origem a um vinho aperitivo regional – o verdelho – que se desenvolveu no momento em que os baleeiros americanos chegaram ao Pico e implementaram a caça ao cachalote. O ciclo do verdelho terminou abruptamente com o oídio e a filoxera, na segunda metade do século xix, um século antes das proibições internacionais que puseram fim à caça ao cachalote em 1984. O declínio económico da ilha começou a ser ultrapassado no último quartel do século xx, com a pesca do atum e o desenvolvimento da indústria de conservas e, recentemente, com a sua valorização turística. A indústria do turismo tem-se voltado para o mar: observação de cetáceos, mergulho, piscinas naturais, etc., complementando essa oferta com outras actividades de lazer, como a escalada, trilhos pedestres, observação de pássaros, etc.</p>
<p>O turismo e a valorização da paisagem associada desencadearam uma recuperação cuidadosa das vinhas, cuja extensão de currais (cerca de duas voltas ao equador) desenha na ilha um rendilhado de pedra extraordinário. A construção das vinhas é de tal forma expressiva e representativa da acção do homem sobre a terra de lava que foi criado um gabinete técnico para a proteger. Durante dois anos, enquanto se formavam como Sami, os arquitectos participaram na gestão da paisagem da vinha, que culminou com a elevação do conjunto ao estatuto de Património Mundial.</p>
<p>Perante a pressão turística a que o frágil território está a ser sujeito, o trabalho que os Sami desenvolveram e continuam a desenvolver tem contribuído, pelo seu exemplo, para uma tomada de consciência da necessidade de rigor, profissionalismo e relevância da arquitectura. Sobretudo, se for tido em conta que a transformação pretende não descaracterizar a paisagem, uma paisagem “protegida”, onde o exercício da arquitectura, desde o pensar ao fazer (ou não fazer…), é vital para o seu crescimento.</p>
<p><b>DOIS ARQUITECTOS, DOIS ANOS<br />
</b><b>DOIS TRABALHOS, DOIS PROJECTOS</b></p>
<p>O gabinete de protecção e candidatura da paisagem da vinha a Património da Humanidade funcionava, e continua a funcionar, como um gabinete de atendimento à população. Na maior parte dos casos, o trabalho dos arquitectos era ajudar pessoas que lidavam pela primeira vez com outros arquitectos, esclarecendo-as acerca de como construir as suas adegas, acrescentos e anexos. “Tínhamos de explicar as coisas taco a taco a uma população para quem o território é tudo, porque é finito. Porquê e para quê construir em pedra.” <i>Se a lei exige, o governo que pague </i>– reclamavam muitos dos habitantes que só queriam fazer uma casa de banho. Outra regra imposta pelo gabinete foi a de que todos os projectos deveriam ser assinados por arquitectos, avaliando as propostas submetidas à luz do regulamento da paisagem da vinha. No desempenho dessas funções, os Sami sentiram ter sido muito importante “serem de fora”. Esse “afastamento” permitiu uma melhor aceitação das novas regras impostas pelo gabinete.</p>
<p>Em paralelo com essa actividade, trabalharam no inventário dos edifícios da área de paisagem de vinha, verificando dissonâncias e o que se poderia fazer para as corrigir. Como o Governo Regional tinha “bens” dentro da paisagem candidata, considerou que essas reformas ou obras deveriam servir de exemplo dentro da lógica de recuperação. O trabalho do gabinete passou a acumular microprojectos de apoio a entidades locais; os dois arquitectos projectaram uma casa de banho, um telheiro paroquial e a recuperação/reconstrução de um moinho na zona protegida. A principal referência desse trabalho acabou por ser o projecto do Centro de Interpretação da Cultura da Vinha, encomendado em 2003 pela Direcção Regional do Ambiente. O trabalho consistiu num acrescento em vidro escurecido que emoldura, em “corte”, o terreno de cultivo da vinha com o Pico, impondo-se no horizonte – uma montra didáctica e explicativa do curral. O paralelepípedo de vidro está volumetricamente integrado na continuidade do edifício solarengo do século xviii, que foi cirurgicamente recuperado para manter as suas características originais e passou a ser exemplo de recuperação e intervenção no edificado “histórico” da ilha. A obra só terminou a sua segunda fase em 2009, e em 2011 foi nomeada para os prémios FAD.</p>
<p>Outro edifício projectado no mesmo contexto, apesar de estar fora da zona classificada, foi o projecto para o Centro de Visitantes da Gruta das Torres. Estava em curso uma obra projectada por um desenhador técnico e, perante os resultados positivos que os arquitectos estavam a demonstrar, o Governo inverteu o curso das obras atribuindo o projecto ao gabinete, valorizando assim a belíssima relíquia geológica. A urgência da intervenção reclamava, do projecto à obra, uma operatividade que ambos já tinham experimentado nos variadíssimos trabalhos do gabinete. O pragmatismo ditou o betão, e a tradição local um rendilhado em pedra. Um muro de basalto em caracol protege o acesso ao interior da gruta e, camuflando com o rendilhado, envolve o edifício de acolhimento em betão, desenhado em função do programa necessário para uma descida segura e informada ao tubo lávico.</p>
<p>Estas duas obras, com especial destaque para o projecto da Gruta das Torres (concluído em 2005 e vencedor em 2009 do prémio Tektónica/OA), proporcionaram aos Sami uma extraordinária repercussão mediática, mas não só. “Estes dois anos foram importantíssimos para nós, porque o trabalho nos obrigou a resumir o que já trazíamos e, de repente, tivemos de o aplicar a um sítio onde a arquitectura estava no seu mais elementar.” Neste contexto não existe o supérfluo e a pedra está intimamente ligada ao Homem. Como comentou Eduardo Souto de Moura no Pico, “a ilha funciona como uma máquina”.</p>
<p><b>VÁRIAS CASAS, UM PROJECTO</b></p>
<p>A Casa E/C, uma casa de férias para um casal de Lisboa, foi o primeiro projecto privado da dupla na ilha do Pico. Apesar de a obra só ter sido concluída em 2013, o projecto começou a ser concebido em 2005, quando os arquitectos voltaram para o continente. Graças à sua ligação e presença no Pico, em 2007 projectaram outra casa privada para residentes na ilha, a casa C/Z, cuja obra foi concluída em 2010 (nomeada para o prémio Mies van der Rohe em 2011 e 2.º lugar no Prémio Nacional de Arquitectura em Madeira).</p>
<p>A Casa C/Z é composta por quatro volumes em madeira escurecida, que se protegem ou abrem para as diferentes orientações, ventos e paisagens, tirando partido da pendente do terreno. Um balcão/ miradouro abre-se para o oceano, em contraponto ao encastramento dos volumes no ponto mais alto do terreno. A cobertura é totalmente visível e unifica os quatro volumes, apesar de, em pormenor, os revelar. O tema do balcão, as plataformas que relacionam interior e exterior, o tirar partido da topografia, a possibilidade de estabelecer leituras duplas e a integração de pormenores que podem ou não pôr em causa a leitura daquilo que poderia ser o “conceito inicial do projecto” revelam não só uma preocupação de integração e adequação ao lugar físico e cultural, mas também a procura de “complexidade e qualidade do espaço”. Preocupações, ou formas de projectar, que caracterizam também a Casa E/C, embora esta resulte de um pressuposto completamente diferente: construir uma casa preservando a ruína preexistente.</p>
<p>Apesar das diferenças, as duas casas no Pico revelam um conjunto constante de preocupações arquitectónicas. Podemos encontrar os mesmos pressupostos num projecto que realizaram para Ordos, na China. Nessa casa arriscaram trabalhar uma linha curva que desenha todo o projecto. Ou também num projecto para a Casa <i>Wallpaper</i>, em que a água funcionou como elemento (re)definidor de limites e espacialidades. São as diferenças dos contextos que geram diferentes abordagens – não obstante os Sami afirmarem que a atitude ao projectarem uma casa em Ordos é semelhante à atitude que têm ao projectar no Pico. O que se aplica na China também se poderá aplicar para uma casa que neste momento projectam para Bali, ou para uma intervenção que estão a ultimar na ilha do Pico, a Casa do Granel.</p>
<p>A interpretação do lugar ou programa, aliada a uma relação estruturada entre o “conceito” e a matéria ou materiais construtivos, revela uma atitude que se afasta da maioria dos arquitectos da sua geração, e que contribui para os definir como os mais <i>novos </i>dos <i>velhos</i>. O seu processo de trabalho resulta de um tempo longo que tem dificuldade em coadunar-se com a dinâmica dos concursos ou com a possibilidade de se dedicarem a outras actividades como o ensino: “A concentração no escritório é total.” Nunca ficam deslumbrados com um desenho e desconfiam dos projectos que perseguem o “conceito”: “É importante o ‘conceito’ do projecto, mas isso não é uma história que se conta; não andamos à procura do enredo que conta a história do início ao fim.” No seu processo de trabalho não existe o “esquiço emblemático” nem a construção de maquetas conceptuais. Trabalham o projecto em modelos digitais tridimensionais e só experimentam em maqueta perante uma questão importante. Perseguem o <i>desenho </i>até à exaustão, em busca de equilíbrio e complexidades caracterizadoras de “profundidade na arquitectura”, tema que consideram fundamental e que temem estar a perder-se no exercício contemporâneo da arquitectura: “Não há nada, por mais pequeno que seja, que não tenha intensidade e qualidade.”</p>
<p><b>UMA CASA</b></p>
<p>O fascínio exercido pela “ruína” levou os clientes a desejar uma casa de férias “típica”. Compraram um terreno com uma ruína que preservava a estrutura de uma casa: o piso inferior para os animais e o superior para habitação, com cisterna e forno alto. Sem laje e cobertura, as paredes que a definem, com aberturas magníficas para a paisagem, são de basalto em junta seca, sem qualquer argamassa, de acordo com a tradição da ilha. O terreno em forte pendente é cultivado com milho e tem na zona inferior escadas de acesso à casa. O desejo dos clientes era recuperar a bela ruína. Valorizando esta premissa, os Sami fizeram outro exercício: construir uma casa totalmente nova dentro da ruína, conseguindo assim manter a sua integridade. A beleza que emana da memória histórica, a delicadeza dos processos construtivos, as tonalidades e o tempo continuarão a afirmar-se na paisagem com a elementaridade e força expressiva da adaptação do homem à ilha vulcânica. A ruína é assumida como um “cenário” a preservar para desfrute estético e afirmação da sua presença simbólica. A casa nova, de betão aparente e coberturas em <i>deck </i>de madeira, adapta-se à preexistência, tirando partido das possibilidades oferecidas pela dupla fachada: “O projecto começou por preencher todos os limites da ruína, e depois percebemos que, se nos afastássemos das paredes, os vãos poderiam ter outra dimensão e alinhamento.” A ideia de a “fachada olhar para si própria” teve origem neste processo de desenho e os (des)alinhamentos, encontros e desencontros originaram um espaço complexo, inusitado e muito qualificado.</p>
<p>A relação entre o novo e o velho afirma-se através da integridade de cada elemento e do respeito pela identidade de cada tempo. O par movimenta-se suavemente entre o contacto e o afastamento dos corpos. Essa afinação gera uma nova identidade singular. Entre o tempo lento do escritório em Setúbal, o calor de uma casa de férias e o rigor do clima na “ilha negra”, o encontro refinado e subtil entre a construção contemporânea e as capacidades “simbólicas” da ruína pode ser entendido como um manifesto acerca das funções da arquitectura.</p>
<p>Este será publicado no J-A 249, Jan — Abr 2014, p. 298-309.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>As pedras rolantes de Montemor-o-velho</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Oct 2013 10:30:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>edit</dc:creator>
				<category><![CDATA[Obra Feita]]></category>
		<category><![CDATA[248]]></category>
		<category><![CDATA[Diogo Seixas Lopes]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro Baía]]></category>

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		<description><![CDATA[Este ano, Montemor-o-Velho voltou a fazer as festas de Santo António no Castelo. Com o projecto do Percurso Pedonal Assistido quase pronto, o Atlético Clube Montemorense decidiu organizar o arraial junto às muralhas, num terreiro abandonado em frente às ruínas da Capela de Santo António e da Torre do Relógio. O Percurso Pedonal Assistido é uma obra do município, inaugurada pouco depois, com escadas rolantes que vencem a encosta sul da colina até ao Castelo. Santo António chegou primeiro, e a população decidiu experimentar o novo caminho ainda sem os degraus a rolar. Foi, para todos, uma reconquista. Miguel Figueira, responsável pelo Departamento de Urbanismo da Câmara Municipal de Montemor-o-Velho]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><strong><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja248_04_mmv_700.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1573" alt="O acesso ao Castelo visto dos milheirais do vale do Mondego" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja248_04_mmv_700.jpg" width="700" height="438" /></a>Acessos mecânicos ao Castelo de Montemor-o-Velho. Projecto da divisão de projecto urbano, Miguel Figueira</strong></p>
<p style="text-align: right;"><i>Everywhere I hear the sound of marching, charging feet, boy,</i><br />
<i>Cause summer&#8217;s here and the time is right for fighting in the street, boy</i></p>
<p style="text-align: right;">Rolling Stones, “Street Fighting Man”</p>
<p style="text-align: center;" align="center"><b>***</b></p>
<p><b>ASSALTO AO CASTELO</b></p>
<p>Este ano, Montemor-o-Velho voltou a fazer as festas de Santo António no Castelo. Com o projecto do Percurso Pedonal Assistido quase pronto, o Atlético Clube Montemorense decidiu organizar o arraial junto às muralhas, num terreiro abandonado em frente às ruínas da Capela de Santo António e da Torre do Relógio. O Percurso Pedonal Assistido é uma obra do município, inaugurada pouco depois, com escadas rolantes que vencem a encosta sul da colina até ao Castelo. Santo António chegou primeiro, e a população decidiu experimentar o novo caminho ainda sem os degraus a rolar. Foi, para todos, uma reconquista. Miguel Figueira, responsável pela Divisão de Projecto Urbano da Câmara Municipal de Montemor-o-Velho, relatava assim o sucedido:</p>
<p align="center"><b>Devir do lugar. Está quase terminada a empreitada do Ascensor Mecânico – Percurso Pedonal Assistido. Sem pré-aviso, a população apoderou-se da obra, para ocupar o abandonado largo da devoluta Capela de Santo António. Regressou ao seu lugar a festa que há décadas o tinha abandonado.</b></p>
<p>O êxito do arraial não teria sido possível sem a construção dos novos percursos. Aproveitando o antigo Caminho de Ronda, o alargamento e prolongamento do acesso viário permitiu que a estrutura do palco, as mesas e os equipamentos de apoio fossem transportados numa carrinha até ao local da festa. Por outro lado, os novos acessos pedonais que cruzam os percursos de nível que servem as várias cotas da encosta sul impulsionaram a subida espontânea até ao Castelo. Com a nova intervenção, a população consegue chegar lá acima mais facilmente, num passeio que remata com uma vista panorâmica sobre o vale do Mondego. Alcançado o topo deste percurso, a relação do centro histórico com o território dos campos e do rio fica mais clara. A ligação entre ambas assinala a importância de criar um centro histórico dinâmico, contra o abandono do espaço público e do edificado antigo. A requalificação da rede de acessos, que vai da cota baixa da vila até à cota alta do Castelo, vem reforçar o laço entre os habitantes e o seu lugar. Neste contexto, o <i>assalto ao castelo </i>representa uma estratégia mais ampla de reconquista identitária de um ponto central do vale do Mondego.</p>
<p>O Percurso Pedonal Assistido de Montemor-o-Velho é uma obra simultaneamente exemplar e excepcional. Exemplar na capacidade demonstrada por vários agentes, entre os quais arquitectos, para concretizar esta infra-estrutura. O saldo desta operação é de imediato positivo. Resulta do bem público que produz, ao facilitar o uso de um espaço que é de todos. Para tornar isto possível, também foi preciso ser excepcional. Na sua audácia quase surrealista, “as pedras rolantes” de Montemor-o-Velho galgam por entre o casario antigo da encosta. O traçado dos segmentos da escadaria mecânica, sublinhado por muros brancos, vai desenhando socalcos certeiros até ao promontório do Castelo. O projecto revela um conhecimento minucioso daquele lugar, no seu devir e na sua memória. Assim, aqui se arrisca o balanço entre passado, presente e futuro de um território – e da sua população – com vista à melhoria das condições de vida.<br />
<b></b><br />
<b>O CAMINHO DE RONDA</b></p>
<p>O Percurso Pedonal Assistido de Montemor-o-Velho é constituído por três lanços de escadas rolantes que ligam a cota baixa da vila, perto da Praça dos Paços do Concelho, à cota alta do promontório onde passava o Caminho de Ronda do Castelo. As escadas rolantes vencem um desnível de mais de 30 metros e podem ser usadas para subir ou para descer. Ao lado destas, lanços de escadarias de pedra desembocam em vários patamares a cotas intermédias da encosta sul da colina. Esta segunda rede pedonal articula a infra-estrutura mecânica com a malha do edificado em volta, criando uma nova teia de vizinhanças. Mais que uma novidade tecnológica para deslumbrar no “corte da fita”, as escadas rolantes são uma “máquina urbana” para reanimar um tecido que já existe e que continua a ser ocupado por gente. Nas palavras de Miguel Figueira, “é um <i>by-pass</i>”:</p>
<p align="center"><b>… uma intervenção violenta face a um diagnóstico crítico. A vitalidade da vila e do seu centro dependem, em grande medida, do bom relacionamento com o seu castelo, e a viabilidade da habitação na sua encosta depende da qualidade do acesso. Não é só a ligação ao castelo, mas também a integração da encosta degradada que urge resolver.</b></p>
<p>O projecto, desenvolvido pelo Departamento de Urbanismo da Câmara de Montemor-o-Velho, insere-se num plano estratégico que tem como objectivo melhorar as condições de habitabilidade na encosta sul do Castelo. Mas não só. O projecto procura também, e acima de tudo, resgatar a centralidade do vale na estrutura territorial do vale do Mondego. Neste sentido, ao reposicionar a entrada principal do Castelo na Porta do Sol, junto à Capela de Santo António, o acesso deixará de se fazer unicamente pela estrada que desde os anos de 1970 liga a Estrada Nacional 111 à Porta da Peste do Castelo. Ou seja, com a abertura da Porta do Sol, articulada com a recuperação do Caminho de Ronda e com a ligação mecânica entre a cota alta e a cota baixa, o Castelo deixará de estar de costas voltadas para a vila e para o vale do Mondego. Nesta estratégia, prevê-se ainda um projecto de requalificação, a cargo de Álvaro Siza, da envolvente sul da muralha, na faixa localizada entre o Caminho de Ronda e o Castelo, que contempla os acessos até à Porta do Sol e a recuperação da Capela de Santo António.</p>
<p>Nessa altura, ficará mais completo este novo Caminho de Ronda. O seu raio de alcance vai muito além das muralhas do Castelo. É uma operação total de transformação de Montemor-o-Velho. Dada a sua amplitude, não se faz de um dia para o outro. Requer um sentido de responsabilidade e continuidade de agentes políticos, técnicos e cívicos implicados em processos longos e complexos. Requer também agilidade para identificar momentos oportunos e não paralisar ao primeiro bloqueio burocrático. Requer, enfim, sentido de realidade e perseverança, porque tudo arrancou muito antes das escadas rolantes e do seu “prodígio de progresso”. Começou literalmente no chão do centro histórico da vila, há mais de uma década, com a requalificação viária deste casco através de lajedos, guardas, bancos, escadas e rampas. Muito desse desenho, apurado e aparentemente “invisível”, também se faz sentir nos muros brancos que agora cintam o Caminho de Ronda do Castelo de Montemor-o-Velho. São traços brancos que tanto rasgam como se encostam à topografia da encosta, fazendo brilhar o lugar matricial da vila através das planuras do vale do Mondego. Mais que qualquer valor pitoresco, este efeito visual sublinha um espaço identitário de todos, capaz de imaginar um futuro a partir desse passado.<br />
<b></b><br />
<b>“</b><b>ISTO NÃO É A SUÍÇA!</b><b>”</b></p>
<p>Junto ao Castelo de Montemor-o-Velho, com as escadas a rolar em cascata até ao centro da vila, é possível vislumbrar esse futuro que vai surgindo com a nova pista de triatlo, onde antes ficava o terreiro de um mercado temporário, ou, mais longe, com o Centro Náutico. Este equipamento desviou água e canais de modo a fixar naquele lugar um palco internacional para competições de remo. É uma infra-estrutura que expande o <i>hinterland </i>ou território vital da vila muito além do vale do Mondego. Chama até si gente de todo o mundo e vem fixando um novo perfil de habitantes associados àquela actividade desportiva. É este o verdadeiro assalto, ou cerco, ao Castelo. Miguel Figueira explica o plano, posto em prática pelo Departamento de Urbanismo de Montemor-o-Velho:</p>
<p align="center"><b>O cerco ao castelo começou a ser desenhado a partir do centro do vale, com o Centro Náutico. Ainda no âmbito do Centro de Alto Rendimento, avançámos em direcção ao centro da vila com a intervenção até à base da encosta, esclarecida a tutela do desporto das vantagens da instalação da pista de atletismo para o triatlo (associada à pousada da juventude) no parque urbano, que funcionará como charneira no relacionamento urbano do centro histórico com o rio.</b></p>
<p>O conhecimento desta realidade, adquirido ao longo dos anos, permite enquadrar o projecto do Percurso Pedonal Assistido numa intervenção mais vasta de construção do território, com implicações longitudinais nos extremos do eixo do vale do Mondego, Coimbra e Figueira da Foz, e transversais, nas suas duas margens. Foi assim que um conjunto de técnicos acreditou que a transformação de maior impacto em Montemor-o-Velho iria acontecer com a obra do Centro Náutico de Alto Rendimento. No caso concreto de Miguel Figueira, o compromisso para com o território que o acolheu e onde decidiu viver, bem como o alcance das suas propostas desenvolvidas no âmbito da administração local, explica o reconhecimento público das suas intervenções. No ano passado, foi distinguido com o Prémio AICA/SEC/Millennium BCP 2011 de Artes Visuais e Arquitectura. O seu trabalho enquanto arquitecto da Câmara Municipal de Montemor-o-Velho foi premiado por ser considerado “exemplar tanto na reabilitação do espaço público como na criação de novos programas capazes de relançar este pequeno aglomerado de tantas potencialidades, agora realçadas”.</p>
<p>Esta forma de entender o trabalho do arquitecto, em particular o de Miguel Figueira, representa uma resposta possível para o aparente beco sem saída em que a profissão se encontra. Assumindo o papel de actor interventivo e propositivo, em prol de uma comunidade, Figueira também não tem problemas em sujar as mãos no confronto com o real. É nesse espírito de mediação comprometida que intervém em processos participativos com vários actores, desde o agricultor até à presidente da Federação Internacional de Remo; em movimentos de cidadania, como o Movimento Cívico SOS Cabedelo na defesa da Onda da Figueira da Foz; ou na elaboração de projectos de financiamento do QREN. É uma forma de militância, que cabe a cada cidadão fazer. Construir, com responsabilidade, o espaço da vida social. Para tal, é preciso antes de mais criar condições para que vários indivíduos possam entender essa causa como sua.</p>
<p style="text-align: center;"><b>Os processos participativos servem para ter a cidade que queremos, ou então teremos a que merecemos, e é assim que as coisas devem ser.</b></p>
<p>Mas nada disto pode acontecer apenas com palavras, por bem intencionadas que sejam. É preciso perceber, sem rodeios, em que lugar estamos. “Isto não é a Suíça”, como exclamou Miguel Figueira a respeito do Centro Náutico.</p>
<p>A arquitectura sempre trabalhou na resolução de equações. Cabe no entanto ao arquitecto decidir com que variáveis pretende trabalhar. “Ou estamos disponíveis para jogar, ou não.” A equação complexa da gestão municipal e do ordenamento encontra uma solução possível no Percurso Pedonal Assistido de Montemor-o-Velho. O projecto faz parte de um plano maior de construção do território. Avança desde o Centro Náutico até à base da encosta da vila, com o desenho de ciclovias, pequenas pontes e uma pista de atletismo para o triatlo que articula a relação do parque urbano e do rio com o centro histórico. No fundo, a estratégia que orienta todas estas intervenções urbanas procura consolidar um novo ecossistema para a região. O Percurso Pedonal Assistido de Montemor-o-Velho, na sua relação visual com o vale do Mondego, vem fortalecer a relação histórica entre os campos e o Castelo. Hoje já é possível traçar um corte longitudinal entre o Castelo e o Centro Náutico, ao longo de uma linha que revela a continuidade de um conjunto de novas relações, usos e lugares.</p>
<p style="text-align: right;"><em>Hey! think the time is right for a palace revolution,</em><br />
<em> but where I live the game to play is compromise solution.</em><br />
<b></b><br />
Rolling Stones, “Street Fighting Man”</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Este artigo foi publicado no J-A 248, Set — Dez 2013, p. 212-223.</p>
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		<title>Muda aos 5, acaba aos 10</title>
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		<pubDate>Sun, 19 May 2013 10:00:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>edit</dc:creator>
				<category><![CDATA[Obra Feita]]></category>
		<category><![CDATA[247]]></category>
		<category><![CDATA[Nuno Cera]]></category>
		<category><![CDATA[Ricardo Lima]]></category>

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		<description><![CDATA[Com o propósito de intervir sobre uma estrutura existente, os arquitectos foram convocados para desenvolver um projecto de recuperação e transformação de um armazém em recinto desportivo, equipado com dois campos de relva sintética. Sem a carga de intervir em património histórico (o armazém funcionava como depósito de materiais de construção), a obra assumiu um carácter experimental e livre de constrangimentos. Foi nessa perspectiva que o N10-II – na sequência de uma primeira experiência bem-sucedida entre o cliente e o atelier em 2004, o N10-I – assumiu a condição de “exercício construtivo de rápida execução”.]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><strong><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/04_obr_feita_comoco.jpg"><img class="alignnone  wp-image-871" alt="Lançamento em profundidade para o centro da área adversária" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/04_obr_feita_comoco.jpg" width="700" height="500" /></a>Recinto desportivo N10-II, Eiras, Coimbra.<br />
Projecto de COMOCO.</strong></p>
<p><b>Aquecimento</b></p>
<p>Com o propósito de intervir sobre uma estrutura existente, os arquitectos foram convocados para desenvolver um projecto de recuperação e transformação de um armazém em recinto desportivo, equipado com dois campos de relva sintética. Sem a carga de intervir em património histórico (o armazém funcionava como depósito de materiais de construção), a obra assumiu um carácter experimental e livre de constrangimentos. Foi nessa perspectiva que o N10-II – na sequência de uma primeira experiência bem-sucedida entre o cliente e o <i>atelier</i> em 2004, o N10-I – assumiu a condição de “exercício construtivo de rápida execução”.</p>
<p><b>Primeiro tempo</b></p>
<p>A vontade de expandir o negócio N10 manifestada pelo cliente deu início a um período de prospecção de espaços, terminando com a visita a este armazém, localizado algures no emaranhado urbano em torno de Coimbra, um lugar “estranho”. O cliente decidiu comprar as naves industriais, construções genéricas das décadas de 1960 e 1970, de vão livre e cobertura curva treliçada. Além da substituição das chapas translúcidas da cobertura e da instalação do tapete verde, definiu-se um programa com “três áreas: recepção, zona de balneários e zona de festas” (sobretudo aniversários), que, a par da venda de bebidas hidratantes ricas em sais minerais (a N10 chegou a ser o maior revendedor da região centro) e dos <i>placards</i> e telões publicitários (importantes para simular uma atmosfera de estádio), “são fundamentais para a sustentabilidade e dinamização deste tipo de equipamentos”. Nas palavras do escritor espanhol Javier Marías, “o futebol é o regresso semanal à infância”.</p>
<p>A solução do projecto para criar o recinto é extremamente racional. Resulta da disposição de uma grelha (1,44 × 1,44 m) sobre um embasamento de infra-estruturas em cimento afagado (39,45 × 11,20 × 0,20 m). Esta faixa resulta da subtracção da área dos campos à largura de duas naves do armazém. É a partir dessa faixa que se define a distribuição funcional. As duas áreas maiores são os balneários e a zona de festas, divididas pela entrada, onde a recepção e o respectivo balcão são secundados por uma pequena copa de apoio às festividades. A grelha, aberta e permeável à luz zenital, circunscreve este programa, através de uma estrutura porticada composta por pilares e vigas em pinho americano, travados por elementos de MDF, que, deixados com acabamento natural, definem balcões, paredes e coberturas. Esta opção contribui para a clareza construtiva do volume e estabelece uma relação apropriada com a beleza tosca e funcional do armazém.</p>
<p>Como explica um dos autores, Luís Miguel Correia, “a escolha do material vem de um primeiro ensaio com o qual ficámos bastante agradados, no projecto de reorganização da colina do Castelo de Pombal”, onde uma série de mirantes em estrutura porticada de madeira (obra finalista do Prémio Nacional de Arquitectura em Madeira de 2011) eram um anúncio da solução a adoptar no N10-II. Também o mobiliário, composto por cadeiras, bancos e mesas em pinho e MDF lacado a preto, <i>baralha e volta a dar</i>, contribui para a coerência da proposta. A iluminação, suspensa e engenhosamente intercalada com a grelha fundadora, bem como o sistema de drenagem de águas pluviais, segue o mesmo princípio, assumindo-se, à vista, como mais uma camada <i>ready-made</i> sobreposta aos armazéns. O único sinal exterior da intervenção, a entrada no recinto através de um elemento em chapa metálica, “tipo túnel” que “perfura a parede do pavilhão”, é a excepção que confirma a regra.</p>
<p>Os campos, com dimensões regulamentares para partidas de futebol de 5 (admitem, considerando as tabelas e, sobretudo, a qualidade dos artistas, jogos de seis contra seis), correspondem a ¼ do investimento. Excluindo a aquisição do armazém de 2385 metros quadrados, a obra custou cerca de 200 mil euros – 100 mil relativos ao grosso da obra e os restantes 50 mil para reforços estruturais e arranjos pontuais. Uma obra praticamente “seca”, que, beneficiando da sistematização do processo construtivo, foi concluída em apenas cinco meses.</p>
<p>O cliente, Rui Campos, ex-jogador da Académica de Coimbra e herdeiro de uma linhagem de antigas glórias da mítica Briosa da década de 1960 e 1970, aguarda retorno do investimento inicial para avançar com a segunda fase da obra. O armazém original, composto por três naves, admite a instalação de um terceiro campo, “mais rápido, do tipo ‘futebol de salão’”, e, consequentemente, o expandir da grelha, ampliando a zona de festas.</p>
<p>Se a arquitectura desempenha um papel importante, é também pela sua vivência e utilização que um espaço pode ter a capacidade de nos surpreender e tornar-se especial. No N10-II reúnem-se para a <i>peladinha</i> semanal várias antigas glórias da Académica, em desafios durinhos mas sempre bem jogados, como tivemos oportunidade de testemunhar. Vítor Campos, possante médio ofensivo, internacional A português e titular na histórica final da Taça de Portugal de 1969 que o Benfica acabou por vencer com um golo de cabeça de Eusébio, e Miguel Rocha, filho de um dos monstros sagrados da história da Briosa, capitão e exemplo ímpar de fidelidade e dedicação ao clube onde jogou durante 18 épocas, são alguns dos ilustres <i>habitués</i>. Citando Diego Maradona, “la pelota no se mancha”.</p>
<p><b>Segundo tempo</b></p>
<p>Este modelo de intervenção pragmática, com benefícios evidentes para todas as partes envolvidas e para a comunidade que delas usufrui, tem contribuído para o desenvolvimento de uma nova consciência arquitectónica. Não apenas no que se refere à recuperação de equipamentos e espaços devolutos ou considerados obsoletos, dentro da cidade consolidada ou nas suas margens mais informais, mas sobretudo, e de um modo mais relevante, no que se refere a uma nova disponibilidade para repensar o âmbito e os propósitos da disciplina. É o caso desta obra, que resgata para um novo uso naves industriais no aglomerado limítrofe de Coimbra, um território entre o informal e o caótico. Não obstante, a comunidade que habita este território precisa, tal como qualquer outra, de equipamentos e lugares de encontro – lugares com um significado. Considerando o contexto económico português, cada vez mais adverso, esta forma pragmática de abordar os problemas é também a garantia de alguma encomenda. Este exemplo é a confirmação de que, afinal, a arquitectura ainda não acabou. Aplicando competências adquiridas em intervenções de outra envergadura, e de outros tempos, escritórios como o COMOCO podem talvez contribuir para um novo entendimento da profissão. Uma mudança de paradigma que, por questões endémicas à condição periférica do país, os arquitectos portugueses estão habilitados a trilhar. Uma nova cultura arquitectónica que possa aliar consciência social e cívica, sem abdicar da defesa do desenho e do rigor construtivo que a caracterizam.</p>
<p>Numa publicação recente da editora internacional a+t architecture publishers, foi dado destaque ao projecto para o Pavilhão N10-II. O título da publicação explica de imediato o sentido da escolha: <i>Reclaim: Remediate, Reuse, Recycle</i>. Ou seja, “Recuperar: Remediar, Reutilizar, Reciclar”. É o primeiro número de uma série dedicada a este tema, em sintonia com uma certa “euforia do re”, tal como a designou Rui Mendes no número anterior do J-A. A intervenção do COMOCO está na categoria <i>Reuse</i>, descrita pelos editores como a dos projectos cujo principal objectivo é dotar estruturas existentes de novos programas, promovendo lógicas de economia de recursos, ao arrepio da ocupação <i>ex-novo</i> do território. “A reutilização assenta mais em novos programas do que propriamente na recuperação integral do edifício.” Juntamente com projectos de natureza mais institucional (como as intervenções no antigo Matadero de Madrid) e propostas mais experimentais (como um jardim no interior de uma ruína no sul de Telavive), o N10-II destaca-se, quer pela crueza da solução, quer pelo baixo preço de construção, 419,29 €/m<b><sup>2</sup></b> no total da obra (230 €/m<b><sup>2</sup></b> se considerarmos apenas o novo volume e o seu embasamento). No texto introdutório, o editor e arquitecto Javier Mozas faz uma leitura inclusiva do fenómeno e define o tom da publicação e as suas escolhas: “Nestas intervenções que configuram o fenómeno ‘re’ não há uma satisfação final que resulte de o projecto ter sido concluído. Elas pertencem a ciclos sem fim que contradizem o sentido de permanência que tem sido historicamente atribuído ao ‘monumento’ enquanto objecto que deve ser restaurado e preservado. Elas fazem parte de ciclos que não visam confrontar o velho e o novo, porque procuram uma alquimia de misturas de usos, épocas, atitudes e soluções técnicas. Quando este efeito mágico acontece, tudo se justifica e compreende e é apreciado.”</p>
<p>Numa cidade de grandes tradições, o futebol, sobretudo o de rua, malandro e de dribles improváveis, terá, graças à arte e engenho de um craque das letras como Fernando Assis Pacheco, contribuído para alguns dos momentos maiores de literatura futebolística mundial. Assis Pacheco, que preferia ouvir relatos na telefonia enquanto escrevia, a assistir aos jogos televisionados, chegou a confessar-se: “O Eusébio marca livres de trinta metros, o Artur Jorge chuta em moinho, o Dinis faz fintas à bandeirola de canto, mas eu fui o maior craque da Rua Guerra Junqueiro e está para nascer um sucessor digno desse título.” Fazendo justiça a essa memória literária e sentimental, talvez o N10-II possa ser a incubadora das novas coqueluches da Briosa – da mesma forma que já é um importante contributo para o repensar do <i>statu quo</i> da prática da arquitectura. Aguardam-se, pois, os próximos dribles.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Este artigo foi publicado no J-A 247, Mai — Ago 2013, p. 126-137.</p>
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		<title>O património a quem o quer usar</title>
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		<pubDate>Tue, 19 Mar 2013 00:00:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Obra Feita]]></category>
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		<description><![CDATA[Edifício na Rua dos Fanqueiros, Lisboa. Atelier José Adrião … habituámo-nos a julgar a obra à luz da adequação face ao aparato, talvez seja tempo de começarmos a julgar o aparato à luz da sua adequação face à obra. Bertolt Brecht, 1930 O Prémio Vasco Vilalva, instituído pela]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><strong><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/JA246_04OF_fanqueiros700.jpg"><img class="alignnone  wp-image-282" alt="Acesso comum às habitações e à conduta técnica" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/JA246_04OF_fanqueiros700.jpg" width="700" height="559" /></a>Edifício na Rua dos Fanqueiros, Lisboa. Atelier José Adrião</strong></p>
<p style="text-align: left;"><em>… habituámo-nos a julgar a obra à luz da adequação face ao aparato, talvez seja tempo de começarmos a julgar o aparato à luz da sua adequação face à obra.</em></p>
<p style="text-align: left;">Bertolt Brecht, 1930</p>
<p>O Prémio Vasco Vilalva, instituído pela Fundação Calouste Gulbenkian com um valor pecuniário de 50 000 euros, é atribuído anualmente desde 2007 a um projecto exemplar no âmbito da defesa do património. Em edições anteriores, foram distinguidos o tratamento e divulgação de uma biblioteca, um projecto de animação cultural e restauro de arte sacra, um projecto museológico, um restauro iconográfico e, finalmente, na sua última edição, foi escolhida uma obra de arquitectura. O que tem de extraordinário esta obra para merecer um prémio tão relevante? Segundo o júri, o projecto assinala um esforço de revitalização da Baixa de Lisboa como zona residencial, “um exemplo de boas práticas numa zona em que a reabilitação urbana é especialmente sensível”. Ao ser premiada, a obra conquistou o estatuto de exemplo. Mas quem quererá seguir este exemplo?</p>
<p style="text-align: center;"> ***</p>
<p><b>A urgência de novas condições de trabalho</b></p>
<p>Sabemos que o conjunto da Baixa Pombalina é uma obra notável, inovadora e com características urbanas e arquitectónicas ímpares no mundo, nela se concentrando um troço da história da cidade e do país. Contudo, não escapou ao abandono e à degradação que se tem vindo a acumular no centro da cidade nos últimos anos. Desde que foi construído no século xviii, este edifício de gaveto agora requalificado foi constantemente sujeito a alterações, resultantes quase sempre de mutações dos usos – de habitação a escritório, de pequenos escritórios a múltiplas habitações. Com sobreposições de revestimentos ao gosto de época, foram inseridas novas infra-estruturas e houve elementos estruturais que desapareceram. Neste processo, foram postas em causa questões cruciais da identidade do edifício, nomeadamente a estrutura em gaiola que caracterizava todo o conjunto da Baixa.</p>
<p>Esta obra procurou, simultaneamente, resgatar a matriz original da construção pombalina e conceber um presente capaz de integrar as marcas que o tempo lhe imprimiu. Como disse o arquitecto, “o nosso trabalho começa de forma muito intuitiva. Só com o desenvolvimento do projecto é que se começaram a juntar todas as peças e a formar um raciocínio. Começámos a ver que a única forma lógica de operar era aceitar todas essas transformações”. Ao longo dos anos, a maioria das intervenções a que o imóvel esteve sujeito foram pontuais e parcelares, a possibilidade de conceber uma intervenção que abrangesse todo o conjunto coincidia com o novo programa funcional a instalar, que consistia em dotar o prédio de apartamentos para arrendamento, destinados a estadias de curta duração. A perspectiva era operar no edifício através da adição de uma nova camada infra-estrutural que o reunificasse a partir da reconfiguração do seu sentido original. Ora, essa opção colidia com a legislação em vigor, que permitia apenas “restauro”, e que só foi desbloqueada no final de 2009 com o Plano de Pormenor de Salvaguarda da Baixa Pombalina. “Propúnhamos adicionar um novo <i>layer</i>, para além de todos os que existiam. Nas primeiras reuniões com a Câmara, perguntávamos qual a época que devíamos restaurar. A original? A dos anos de 1940? Se não tivesse surgido o novo Plano de Salvaguarda não podíamos ter feito esta intervenção.”</p>
<p>Para o êxito da obra foi fundamental a adequação da encomenda às características do edifício e, para isso, a atenção do cliente foi determinante. “Este cliente sabia o que queria quando nos pediu um edifício em Lisboa para recuperar. Vimos sete ou oito e escolhemos este. Por um acaso esta intervenção tornou-se visível. Mas eu acho que há imensos e excelentes casos de intervenções idênticas, não creio que esta seja excepcional, no sentido de ser única, há muitas.” Ou seja, a obra resultou não apenas da vontade do promotor para recuperar um edifício degradado, mas também da possibilidade aberta pelo Plano de Salvaguarda para acolher essa vontade dentro de um quadro legal específico, simultaneamente desbloqueador do investimento e atento às especificidade patrimoniais da Baixa Pombalina. Foi essa conjunção que permitiu reavaliar uma máquina parada, a tipologia pombalina e os seus modos de construção. Nessa reavaliação verificou-se que, apesar de parada há algum tempo, a máquina pombalina é passível de ser posta em funcionamento, e o seu rigor permite adequar o edifício a novos usos e, paradoxalmente, a novas infra-estruturas, tornando possível acertar o passo do imóvel a cada novo tempo e a cada novo uso. E o resultado é positivo em vários sentidos: “Esta operação foi bastante económica: 885 euros por metro quadrado. Efectivamente, as pessoas associam estas intervenções a um preço caro, mas não é verdade. Depende é da estratégia que se tem. Quando reavaliamos hoje a nossa intervenção, parece-nos bastante clara: tratou-se de valorizar um imóvel evitando a substituição de coisas que estavam boas, de que as pessoas até não gostavam, mas que começam a apreciar.” O que isto implica é uma nova condição de trabalho, obrigando a uma mudança de léxico, de fraseado e, finalmente, de instrumentos, do projecto à obra.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><b>Estratégias de projecto e obra</b></p>
<p>Um dos aspectos mais relevantes desta obra é o modo como são enquadradas as peças que foram sendo adicionadas nas várias intervenções a que o edifício esteve sujeito, manipulando o sistema construtivo original: mais do que recuperar os traços de uma época, trata-se de incluir e reutilizar portas, janelas, portadas, azulejos e estuque, que mantêm as diferenças no desenho, de piso para piso. Essa variação projecta na obra uma hierarquia que, em certa medida, é anterior ao desenho contemporâneo e que, ao tornar-se explícita, caracteriza o novo desenho. As novas paredes e condutas técnicas são construídas em gesso cartonado, “os tabiques contemporâneos”, e organizam de forma eficaz a nova distribuição, que compreende três habitações por piso. As guardas, varandins e revestimentos da escada vão-se sucedendo em diferentes materiais: a pedra lioz forra a entrada até ao primeiro piso (uma intervenção dos anos 40 do século xx), encosta-se numa guarda de ferro original e, do lado da parede, interrompe-se numa porta opaca a partir da qual o revestimento é em azulejo até ao sexto piso. “A ideia de não tomar o edifício à força, não homogeneizar, aceitar as diferenças, permitiu que as coisas fossem feitas sem grandes alterações.”</p>
<p>Isto significa que uma parte substancial das decisões de projecto foram transferidas para a obra, convertendo o estaleiro numa oficina de pensamento e decisão onde é possível testar opções e ajustar soluções. Assim aconteceu com a estrutura da cobertura, que, destapada dos tectos falsos, se descobriu estar em bom estado: “Já tínhamos feito verificações e sondagens, mas manter tudo foi uma decisão de obra perante o que as demolições revelaram.” O projecto, mais do que detalhar soluções específicas, elaborou princípios-base de intervenção e definiu um leque de materiais – pedra, carpintarias, gesso cartonado, etc. – que se adequavam à reutilização de elementos existentes. “A introdução de novos elementos foi mínima – fizeram-se os desenhos a partir das áreas e da compartimentação existentes. Como é praticamente impossível desenhar todo o edifício nas suas pequenas diferenças, tínhamos os desenhos-base e íamos para a obra confrontar cada situação existente para aí tomar decisões.”</p>
<p>Este princípio serviu como processo de decisão sobre a carga infra-estrutural a adicionar. Casas de banho e cozinhas constituem três núcleos verticais onde se juntam novos prumos de descargas e condutas. A ausência de ar condicionado permitiu manter os soalhos (quase todos impecáveis e com 200 anos de vida) e tectos. A inclusão de um elevador foi a grande transformação ‘invisível’, o que se fez sem massacrar a generosa caixa de escadas, onde prevalece um pequeno átrio, em tudo semelhante aos átrios de acesso aos apartamentos, incólume no seu desenho original. Talvez o mais estimulante nesta obra seja a forma como tudo é calibrado sem destaques. Não existem sobreposições, mas encaixes que se prestam à diluição no tempo, até surgir uma nova camada, numa espécie de obra aberta que estimula novas apropriações.</p>
<p><b> </b></p>
<p><b>A euforia do “re”</b></p>
<p>Dentro do hábito de tecer novos enquadramentos para nos posicionarmos perante os dados da contemporaneidade (ora estimulante e desafiadora, ora aniquilante e paralisadora), “construir sobre o construído” é um desígnio que tomou o centro de muitos discursos, disciplinares e de senso comum. A ruína evidente dos centros urbanos levou a que se generalizasse esse mote também em programas políticos e, consequentemente, em domínios administrativos. Perante a crise, essa urgência é cada vez mais óbvia. Se já se fizeram Expos e Pólis, casas “de estilo emigrante” ou “de estilo arquitecto”, agora o “re” parece ser o único prefixo de ordem que resiste: temos de reciclar, reutilizar, restaurar, reprogramar, requalificar, re-significar.</p>
<p>Perante a euforia do “re”, também valerá a pena relembrar e fazer uma pequena revisão da matéria construída. Rodeado de equívocos, o que se foi construindo nas cidades portuguesas engrossou o chamado “sector da construção”, sector económico responsável por uma percentagem significativa do PIB nacional. A dinâmica do sector ajudou a reduzir o território e a arquitectura a uma soma de peças (concebidas à imaginação do freguês), onde a adequação de cada parte ao todo foi encarada como uma mera casualidade tecnocrática. Esta recordação serve para alertar, não vá a euforia do “re” ser tomada de assalto pela lógica sectorial e, se ainda nos sobra a hipótese de demonstrar o valor da arquitectura através da requalificação do património, deixarmos essa hipótese escapar devido à imposição das mesmas lógicas administrativas e políticas que garantiram a ineficácia da arquitectura para obter uma transformação qualificada do território.</p>
<p>O momento de revisão da matéria construída volta a pôr-nos perante as singularidades de uma disciplina de sínteses: intervir no património obriga-nos a enfrentar tipologias e modelos originais, a interpretar evoluções e sobreposições de uso ao longo do tempo, a seleccionar características dissonantes que necessitam de ser clarificadas. O facto de haver um reconhecimento político da necessidade e urgência de requalificar tecidos urbanos degradados e com valor patrimonial não é, por si só, um garante de apoio. Antes pelo contrário, a tendência para a burocratização, a sobre-regulação, a pressão de cumprir ciclos políticos e a permeabilidade às pressões do sector da construção fazem temer que a manta de retalhos de tutelas, actores, ambições e conflitos que caracteriza a paisagem urbana contemporânea se propague, segundo as mesmas lógicas, às práticas de requalificação do património. Vale a pena resgatar a demanda de Nuno Portas em 1969 no livro <i>A Cidade como Arquitectura</i>: “[os arquitectos] se quiserem re-dar qualidade à cidade da era da técnica e dos técnicos e dos fenómenos complexos de cuja solução há que dar conta, terão de abalançar-se a um intenso esforço de estudo, a modificar a sua formação, re-formulando corajosamente o seu lugar na edificação da cidade.”</p>
<p>A julgar pela quantidade de coisas que há para fazer e refazer, entre o que está construído e o que está por construir, o campo volta a abrir-se. Novas tipologias de uso começam a manifestar-se, tomando espaços devolutos como matéria-prima e gerando sentidos de pragmatismo em modos de fazer arquitectura menos reféns da encomenda clássica. É hoje prática comum o trabalho dos arquitectos começar pela escolha do lugar a operar, na procura de hipótese de financiamento, na concepção de candidaturas e parcerias, em sucessivas reuniões para montar operações complexas, e estando mais presentes em cada uma das fases de desenvolvimento do projecto, e cada vez mais a projectar em obra. Os arquitectos estão a reposicionar-se. Perante estes novos contextos de actuação é justo reclamar também a sua maior participação no planeamento e na organização do território, bem como na concepção dos diplomas que regulam a sua actividade, de modo a inverter lógicas que nos deixaram mergulhados no colapso urbano e social.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Este artigo foi publicado no J-A 246, Jan — Abr 2013, p. 38-47.</p>
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