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	<title>Jornal Arquitectos &#187; Em Construção</title>
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		<title>EM BUSCA DE UMA ARQUITECTURA INTEGRADA</title>
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		<pubDate>Thu, 07 May 2015 08:00:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>edit</dc:creator>
				<category><![CDATA[Em Construção]]></category>
		<category><![CDATA[252]]></category>
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		<category><![CDATA[Pedro Baía]]></category>

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		<description><![CDATA[Num momento em que os centros históricos se tornaram um território apetecível para promotores imobiliários e fundos de investimento, a proposta de um processo de reabilitação gerido localmente, com tempo e cuidado, por arquitectos atentos aos recursos naturais e aos sistemas construtivos tradicionais constitui um acto de resistência ou um acto diferenciador?]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><b><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/03_skrei_01.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3074" alt="Equipa Skrei na oficina de Santo Tirso" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/03_skrei_01.jpg" width="700" height="530" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/03_skrei_02.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3075" alt="Trabalho no Largo do Terreiro" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/03_skrei_02.jpg" width="700" height="530" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/03_skrei_03.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3076" alt="Amostras de texturas e materiais" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/03_skrei_03.jpg" width="700" height="530" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/03_skrei_04.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3077" alt="Amostras de texturas e materiais" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/03_skrei_04.jpg" width="700" height="530" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/03_skrei_05.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3078" alt="Repositório de pigmentos e materiais experimentais" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/03_skrei_05.jpg" width="700" height="530" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/03_skrei_06.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3079" alt="Garrafas de ensaio" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/03_skrei_06.jpg" width="700" height="530" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/03_skrei_07.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3080" alt="Teste de materiais" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/03_skrei_07.jpg" width="700" height="530" /></a>Reabilitação de edifício no Largo do Terreiro, Porto<br />
</b><b>Projecto de Skrei – Oficina de Arquitectura Integrada</b></p>
<p>Num momento em que os centros históricos se tornaram um território apetecível para promotores imobiliários e fundos de investimento, a proposta de um processo de reabilitação gerido localmente, com tempo e cuidado, por arquitectos atentos aos recursos naturais e aos sistemas construtivos tradicionais constitui um acto de resistência ou um acto diferenciador?</p>
<p><b>EDIFÍCIO-LABORATÓRIO</b></p>
<p>Uma viagem por Portugal durante duas semanas, com o objectivo de visitar explorações de pedra e barro, saibreiras, fornos de cal e oficinas cerâmicas, foi o ritual fundador da Skrei – Oficina de Arquitectura Integrada. Para Francisco Adão da Fonseca, arquitecto formado na Universidade de Delft, e Pedro Jervell, arquitecto formado na Architectural Association, foi um marco fundamental para o início do seu percurso, permitindo a ambos uma prospecção única numa realidade material, geológica e industrial complementada pelo contacto com os próprios artesãos, mestres dos fornos e das oficinas. No Porto, a oportunidade de ocupar um edifício na Ribeira para instalação do seu próprio espaço de trabalho permitiu a implementação de um laboratório à escala real, onde os arquitectos puderam experimentar e testar diferentes materiais e técnicas de construção. O edifício é hoje a sede da Skrei, empresa fundada em 2010 pelos dois arquitectos, com Alexandre Magalhães, responsável pelo departamento de gestão.</p>
<p style="text-align: center;"><b>Somos uma oficina de projecto, construção e produção artística. Reunimos diferentes profissionais da construção – técnicos, artistas, executantes, projectistas, académicos – numa prática profissional integrada. Queremos redefinir o modo e a tradição de abordar a construção. Ao conjugar diferentes áreas numa só prática profissional, estamos a impulsionar novos modos de projectar, novos modos de construir, e a ensaiar modelos para uma construção mais equitativa, mais saudável e tecnicamente mais qualificada.</b></p>
<p>O projecto de reabilitação do edifício do Largo do Terreiro é um processo em aberto, que se vai consolidando sala a sala, parede a parede, conforme as possibilidades e as circunstâncias. Enquanto espaço de trabalho e laboratório de ensaios, o edifício manifesta a vontade de recuperar a proximidade da arquitectura com a realidade de uma construção sensível à utilização de materiais naturais como a argila, a cera de abelha, a casca de arroz, a concha do mar ou a lã de ovelha. Numa das salas do piso térreo, por exemplo, foi aplicado um pavimento de terra compactada com óleo de linhaça, enquadrado por juntas em madeira que permitem que a caixa-de-ar respire – uma solução de pavimento muito utilizada nas adegas por causa do transporte das pipas, devido à boa elasticidade e capacidade de resistência à compressão. Junto à porta da entrada desta divisão percebe-se na parede uma gradação de experiências na aplicação da argamassa, que permitiu testar a fórmula mais adequada na composição final de um reboco a aplicar numa das obras em curso. Nas escadas, ao subir, encontra-se numa das paredes um outro ensaio de reboco, com base no barro de Santa Catarina vindo do Algarve. Na sala de reuniões, um tecto em gesso existente, recortado segundo uma elipse, deixa a descoberto a estrutura das vigas escuras de madeira. Na sala do lado, ao longo de uma sequência de materiais expostos, destacam-se várias garrafas organizadas num arquivo de amostras de diferentes sedimentos. No último piso do edifício, mais testes, materiais, ferramentas e protótipos à escala real se amontoam num cenário de pendor medieval, onde também tem lugar uma residência artística de acolhimento temporário para artistas plásticos.</p>
<p>Todas estas experiências pressupõem que seja o próprio arquitecto a pôr a mão na massa e a percorrer as várias fases do processo, desde a composição das argamassas, passando pela sua aplicação, até à avaliação da sua eficiência. Nesta aprendizagem, além do espírito autodidacta dos arquitectos, desenvolve-se também uma relação próxima com os artesãos, mestres na arte da construção. A procura da transmissão do conhecimento das técnicas construtivas tradicionais, aliada à experimentação contemporânea dos materiais naturais, é um dos factores mais estimulantes para a prática quotidiana da Skrei: “Temos consciência de que não sabemos muito sobre construção e arquitectura; estamos sempre a experimentar e a aprender.”</p>
<p><b>CONSTRUÇÃO CIVIL</b></p>
<p>Na sua essência, a Skrei assume-se como uma empresa de construção civil que, além de reunir na mesma actividade a arquitectura, a engenharia e a investigação de materiais, integra uma oficina de serralharia em Santo Tirso. E, para já, um conjunto de carpinteiros e trolhas que subcontratam pontualmente. O objectivo consiste em assegurar que a equipa, incluindo os próprios estagiários e colaboradores, é capaz de enfrentar as várias fases da obra com uma postura crítica atenta aos recursos locais e às qualidades construtivas e energéticas dos materiais. O encontro entre os vários protagonistas associados à construção é assumidamente inspirado nos agrupamentos de construtores medievais, estando por isso na origem do lema da “arquitectura integrada” que identifica a prática desenvolvida no trabalho da Skrei. Todos os intervenientes são incentivados a transcender as suas funções de base: do serralheiro, que também contribui nos trabalhos de carpintaria, ao arquitecto, que “chapa massa” ou ajuda nos trabalhos de demolição.</p>
<p style="text-align: center;"><b>A arquitectura integrada é um modelo de actividade baseado na tradição construtiva medieval, em que a empreitada geral era confiada a um colectivo de artesãos, ficando esse mesmo colectivo responsável pela obra na sua totalidade, desde a prospecção de matérias-primas, à concepção, planeamento (projecto) e construção, incluindo partes do desenvolvimento artístico.</b></p>
<p>Junto ao edifício do Largo do Terreiro, numa das ruas estreitas da Ribeira, localiza-se a Adega São Nicolau, onde os arquitectos foram bem-sucedidos no processo de construção de uma obra complexa, no tempo curto de duas semanas e num espaço de dimensões reduzidas. A aplicação de um revestimento de madeira no tecto, com um reguado longitudinal diferenciado, amplia o espaço da sala de refeições, em contraste com a resolução homogénea do lambrim, ao longo do perímetro da sala, na qual foi aplicada uma argamassa de barro negro de Barcelos, aditivada com estrume de cavalo e cera de abelha. A execução dos restantes detalhes, incluindo a colocação dos perfis de latão nos aros dos vãos interiores, foi partilhada entre arquitectos e artesãos durante a obra.</p>
<p style="text-align: center;"><b></b><b>A reintegração das várias artes da construção dentro da arquitectura permite que os esforços se concentrem na qualidade do edificado e não em tecnicidades legais, como a eficácia dos contratos celebrados entre os vários intervenientes na produção do edifício – projectistas, empreitadas e subempreitadas –, ultrapassando um dos aspectos mais sensíveis da construção corrente. A reaproximação das várias disciplinas reforça o sentido de responsabilidade de grupo, a inventividade e a co-autoria. A Skrei procura diluir as distinções entre técnicos e artistas, projectistas e executantes, mestres e aprendizes, apresentando uma nova coreografia para a arquitectura.</b></p>
<p>Esta nova coreografia que a Skrei procura desenvolver em obra entre os vários intervenientes pretende reduzir os intermediários envolvidos no processo. A metodologia de intervenção incide então numa acção continuada e persistente de uma estrutura de trabalho onde o topo da pirâmide organizativa está mais próximo da base. Esta relação diminui à partida o risco de trabalhos a mais que se vão acumulando nos processos de reabilitação, baseados em regimes estratificados de subcontratação com quatro ou cinco níveis de intermediação. É com o objectivo de contrariar esta fragmentação do sistema de obra que a Skrei defende a integração da construção civil na prática da arquitectura. O modelo que privilegiam é o de contrato “chave na mão”, em que o valor acordado integra o conjunto de projectos e a construção.</p>
<p><b>MÃO NA MASSA</b></p>
<p>A Skrei está hoje mais interessada na reconstrução, na possibilidade de recuperar estruturas consolidadas, do que na construção dita de raiz. Neste âmbito, tiveram oportunidade de intervir na reabilitação de casas, adegas, lojas e oficinas. Se se comparar com o custo da construção corrente, o custo médio da construção por metro quadrado das reabilitações que realizaram é mais elevado. Utilizando madeira revestida no exterior pela cal e no interior pela argila, conseguem fazer casas a 2500 euros por metro quadrado. No entanto, por vezes algumas das intervenções executadas podem rondar os cinco a seis mil euros por metro quadrado. Nestes casos, o arquitecto Francisco Adão da Fonseca compara-as a pequenas obras de joalharia.</p>
<p>Nestas intervenções específicas, imbuídas de um espírito localizado que procura integrar os recursos naturais do território envolvente, detectam-se semelhanças de processo e de pensamento com o universo vinícola, pela simbiose que ambas estabelecem com a terra e pelo tempo muito próprio que exigem. Esta ligação ao <i>terroir</i> traduz-se também numa preocupação de ordem ecológica relativamente ao modo como as paredes respiram, as casas ventilam e os materiais se comportam perante a acumulação de humidades e fungos. Daí que, na composição de um vinho, tal como na composição de uma argamassa, a investigação, o cuidado e uma sensibilidade particular sejam semelhantes. É neste contexto de procura diferenciadora de um produto que o trabalho desenvolvido pela Skrei é mais valorizado.</p>
<p style="text-align: center;"><b>A Skrei tem conquistado terreno na área dos vinhos com clientes como a Ramos Pinto, para quem estamos a fazer o novo laboratório; a Muxagata, na investigação e desenvolvimento de soluções construtivas; o Vale Meão, na reabilitação das adegas; e a Herdade do Esporão, onde estamos a trabalhar na caracterização do complexo industrial. Estamos prestes a terminar a nova adega para produção de vinhos experimentais – Adega de Lagares – e temos a decorrer projectos relevantes no enoturismo.</b></p>
<p>Além da concepção de projectos de arquitectura e construção, a Skrei tem colaborado com projectos como o “Mão na Massa”, promovido pelo grupo Fortifeio – Arquitectura e Derivados, através da orientação de uma oficina prática em torno dos revestimentos naturais em argila, numa iniciativa que se propunha recuperar o conhecimento das técnicas construtivas tradicionais através da interacção e do contacto directo com os materiais, utensílios e ferramentas da construção. Num outro enquadramento, numa acção de formação promovida pelo Centro de Formação Profissional da Indústria da Construção Civil e Obras Públicas do Norte, o arquitecto Francisco Adão da Fonseca colaborou numa oficina sobre construção com terra, que tinha como objectivo a promoção da reabilitação através da utilização do tabique com acabamento em terra argilosa.</p>
<p>Numa vertente mais institucional, a Skrei tem desenvolvido um conjunto de contactos com os laboratórios de engenharia civil da Universidade do Minho, de Aveiro e do Porto, no sentido de estudar as propriedades e potencialidades dos materiais construtivos. No caso da Universidade do Minho, com base no projecto em curso para o Hotel do Esporão, estabeleceu-se uma parceria para investigar o desempenho da taipa e do bloco de terra compactado. Num plano internacional, devido à formação do arquitecto Pedro Jervell em Londres, a Skrei organiza no Verão, na aldeia de Muxagata, uma oficina com os alunos da Architectural Association, com o objectivo de explorar estratégias na área da arquitectura e das artes que resgatem uma outra identidade para além da indústria turística e da agricultura tradicional.</p>
<p>O colectivo, com apenas cinco anos de actividade, tem pela frente um percurso que desperta expectativas no domínio da reabilitação, em busca de uma arquitectura integrada capaz de se impor no mercado enquanto solução pertinente, equilibrada e qualificada. Entretanto, deixam-nos com o mote de “recuperar a aura do arquitecto enquanto zelador da comunidade” e com a dúvida ainda por responder: trata-se de acto de resistência cultural perante o avanço da economia de mercado, ou um de acto diferenciador perfeitamente integrado nessa dinâmica económica?</p>
<p>Este texto foi publicado no J-A 252, Jan–Abr 2015, p. 536–545.</p>
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		<title>A SOLUÇÃO GLOBAL</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Feb 2015 11:13:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>edit</dc:creator>
				<category><![CDATA[Em Construção]]></category>
		<category><![CDATA[251]]></category>
		<category><![CDATA[Ivo Poças Martins]]></category>
		<category><![CDATA[Nuno Cera]]></category>

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		<description><![CDATA[A presença da arquitectura portuguesa além-fronteiras tem sido crescente, mas discreta. A construção da torre do Kempinski Rafal Centre, que arrancou este ano em Riade, é um sinal de que este padrão pode ser invertido.  A visibilidade da operação, o volume construído e a assunção do desígnio global do projecto por um escritório português são marcos de uma forma de trabalho que ultrapassa a noção da exportação de arquitectura de autor.]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja251_site_03_700_31.jpg"><img class="alignnone  wp-image-2751" alt="Maqueta de trabalho" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja251_site_03_700_31.jpg" width="700" height="430" /></a><b>Kempinski Rafal Centre, Riade, Arábia Saudita.<br />
</b><em id="__mceDel"><b>Projecto de Promontório</b></em></p>
<p>A presença da arquitectura portuguesa além-fronteiras tem sido crescente, mas discreta. A construção da torre do Kempinski Rafal Centre, que arrancou este ano em Riade, é um sinal de que este padrão pode ser invertido. A visibilidade da operação, o volume construído e a assunção do desígnio global do projecto por um escritório português são marcos de uma forma de trabalho que ultrapassa a noção da exportação de arquitectura de autor. Esta obra em construção, a mais de cinco mil quilómetros de Lisboa, mostra que não é imprescindível ter de fazer as malas e partir definitivamente para se poder construir.</p>
<p align="center">***</p>
<p><b>A CRISE,</b><br />
<b>A INTERNACIONALIZAÇÃO E VICE-VERSA</b></p>
<p>O percurso do escritório Promontório, como o de muitos projectistas de arquitectura em Portugal, sofreu um forte abalo com a recente quebra do volume de encomendas. Após um processo de reinvenção e redefinição estratégica, centrado na procura de oportunidades de trabalho fora do país, o escritório atravessa agora um período de enorme vitalidade, “talvez melhor do que nunca”. Em Outubro começaram em Riade as obras do Kempinski Rafal Centre, um complexo que inclui uma torre residencial de 66 pisos com 215 metros de altura. Esta obra é apenas uma entre vários trabalhos para o estrangeiro que representam 92% do volume de facturação do escritório. Neste projecto para a capital da Arábia Saudita, o Promontório é coordenador principal (<i>lead consultant</i>), isso permite compreender quais os mecanismos, estruturas e meios mobilizados para a produção de arquitectura, “do Braço de Prata para o Mundo”. A actividade do escritório no estrangeiro tinha sido ensaiada no período pré-crise; a experiência acumulada em Portugal, sobretudo nas áreas do retalho e do turismo, permitira acompanhar a expansão da actividade de promotores portugueses pelo Leste da Europa, em África e no Brasil, incluindo uma experiência de extensão do escritório em Madrid. Como refere Paulo Martins Barata, um dos sócios do Promontório:</p>
<p align="center"><b>&#8230; apesar do esforço, esse ensaio não gerou resultados relevantes. Mais do que tudo, trouxe experiência e pretexto para sair, assumindo que tem de se começar por qualquer lado&#8230; Se quisermos ser honestos, em termos de facturação a nossa saída só resultou efectivamente a partir de 2009, 2010, já o Lehman Brothers estava enterrado.</b></p>
<p>O rumo que o escritório se viu forçado a seguir, com a diminuição do volume de encomenda e na sequência de ter de “emagrecer” mais de metade da sua força de trabalho (que era então de 80 pessoas), passou por explorar e conquistar novos mercados, como o Médio Oriente. Hoje, para além do “mundo lusófono”, o escritório já possui presença física no Qatar, e está em prospecção de trabalho para os Estados Unidos. Na perspectiva dos arquitectos que conduzem o escritório, se não tivesse sido feita a aposta em trabalhar fora de Portugal, certamente o Promontório teria deixado de existir.</p>
<p>Esta nova vida do escritório, que está a gerar uma expectativa de crescimento, motiva várias dúvidas importantes: será que a equipa de trabalho deve continuar maioritariamente concentrada em Lisboa? O escritório deverá procurar consolidar a sua presença em mercados onde já começa a ter resultados construídos, ou deverá procurar explorar novos? Até que distância será operativo trabalhar? Qual a vantagem da lusofonia neste processo? A título de exemplo, Martins Barata, sócio responsável pelas operações no Médio Oriente e Miami, tem questionado publicamente a vantagem da língua para trabalhar em países lusófonos; no entanto, João Luís Ferreira, que tem funções equivalentes para Moçambique, afirma que o trabalho no continente africano representa cerca de metade do actual volume de facturação. Enquanto os cinco sócios do Promontório pendulam entre Lisboa e vários países, a distância parece tornar-se o principal dilema: perante hipóteses de trabalho que se esboçaram na China e no Vietname, a necessidade de garantir uma presença cara-a-cara, confortável e continuada com os interlocutores locais, parece colocar esses lugares perigosamente fora do limite razoável de acção.</p>
<p><b>MIES ARÁBICO</b></p>
<p>O projecto para o Kempinski Rafal Centre foi seleccionado através de um concurso que teve lugar em Janeiro deste ano. Sabendo que estava em curso o processo de escolha da equipa projectista, então disputado por três <i>ateliers </i>internacionais, o Promontório pediu ao promotor da obra quatro semanas para apresentar uma proposta e entrar na corrida. O desenho da solução ganhadora teve de ser pragmático e eficaz. Uma das 24 pranchas apresentadas a concurso refere a filiação desta torre na tradição dos arranha-céus de Manhattan, concretamente as obras de Mies van der Rohe e Skidmore Owings &amp; Merrill. A subtracção de pátios ajardinados ao volume da torre permite gerar aquilo que apelidaram como “arranha-céus-oásis”. A torre é um prisma de planta aproximadamente quadrada (33,5 m × 37,5 m) cuja monotonia contrasta com os padrões espalhafatosos das congéneres que se vêem por estas longitudes. A festa concentra-se no embasamento. Neste contexto cultural a atracção pela ostentação formal é uma realidade, mas, na hora do negócio, o pragmatismo dos números contrabalança a força da extravagância. A regularidade da planta permite optimizar recursos, quer pela repetição, quer por um rácio de 82% na relação entre circulações e áreas servidas (comercializáveis). Até a fantasia dos oásis suspensos se pode argumentar de um ponto de vista económico, porque a área subtraída permite subir substancialmente o valor dos apartamentos ajardinados. Numa inversão perversa, o <i>bling bling </i>fica reservado numa citação de Mies nos perfis de alumínio que riscam verticalmente a torre. Os avanços da tecnologia de vidro colado fazem desta solução técnica um atavismo, mas as dezenas de quilómetros em perfil de alumínio são afinal uma referência à necessidade de “mentir para dizer a verdade”, dando expressão formal à estrutura metálica da torre.</p>
<p>No outro volume construído, com sete pisos acima do embasamento, vão instalar-se espaços de escritórios. Entre o concurso e o arranque da construção, o projecto evoluiu de uma forma prismática de base rectangular para a extrusão de uma forma poligonal irregular, na extensão do desenho da base do conjunto. O embasamento, onde se instala uma galeria comercial aberta, ocupa toda a área do lote e organiza-se em dois pisos. O seu desenho, que regula a erosão do volume para criar um pátio virado para a King Fahd Road, é uma cobertura ajardinada de inspiração “burle-marxiana”, com varandas em vidro com vegetação digitalmente impressa, estruturas sombreadoras iluminadas de noite, lagos, cascatas e jogos de água. Para o escritório conquistar este projecto foi determinante a sua experiência precedente na concepção de grandes superfícies comerciais, seja nos aspectos de funcionamento, seja nos seus códigos visuais.</p>
<p>Ao contrário do Dubai ou Doha, que tiveram um crescimento rápido e verticalizado, Riade não é uma cidade nova. Uma das particularidades desta torre, que ilustra a sua condição singular, é o facto de um dos seus lados ser cego, por determinação do promotor. Nas imediações, as construções são muito mais baixas relativamente à futura torre. Não fosse esta imposição, e o novo edifício seria um verdadeiro miradouro sobre as casas existentes, ameaçando o recato da esfera doméstica, que é um valor particularmente caro numa sociedade islâmica.</p>
<p>O processo desenvolveu-se a uma velocidade frenética: desde a adjudicação do projecto, à abertura das fundações, decorreram apenas oito meses, e todo o projecto de arquitectua e <i>design </i>de interiores foi feito a partir do escritório de Lisboa.</p>
<p><b>TRABALHAR EM LISBOA</b></p>
<p>Para os padrões nacionais, a equipa do Promontório tem uma dimensão significativa, mas, mais do que a dimensão da força de trabalho, importa ter em conta a sua organização para ser capaz de fornecer um “serviço global de arquitectura”. A resposta ao concurso para o Kempinski Rafal Centre aponta duas pistas importantes: a massa crítica acumulada e o conhecimento das especificidades dos contextos para onde se projecta. Uma “solução global de arquitectura” compreende, além da arquitectura, a inclusão de paisagismo, <i>design </i>de interiores e <i>design </i>gráfico – funções (ou departamentos) que fazem parte da estrutura orgânica do escritório sediado em Lisboa. A lógica de produção de projecto num contexto internacional tem vindo a forçar a separação entre o que entendemos como projecto de arquitectura e o <i>design </i>de interiores. O exemplo da hotelaria é paradigmático porque, regra geral, obedece a códigos e <i>standards </i>internacionais, mas está longe de ser uma excepção. No momento da encomenda do projecto, é recorrente a separação entre “estrutura e fachada” (<i>core and shell</i>) e espaços interiores, uma separação que também se aplica com frequência ao projecto de paisagismo. A especialização de equipas no interior do escritório é uma forma de assegurar mais oportunidades de trabalho e de conseguir controlar a unidade das soluções de projecto.</p>
<p>Para conseguir trabalhar a partir de Lisboa, à capacidade de resposta (número de colaboradores) e especialização em áreas-chave (no caso, o <i>retail </i>e a hotelaria), há que acrescentar uma capacidade financeira substancial. O custo de pendular entre Lisboa e outros países distantes é pesado (em “números redondos”, significa para o escritório cerca de 20 mil euros mensais), as rendas dos escritórios são elevadas e a remuneração de um funcionário instalado na Arábia Saudita, por exemplo, é cerca de 2,5 vezes superior. Ou seja, a montante da competência na qualidade da resposta projectual há outros factores determinantes para um escritório ser capaz de competir no mercado tão almejado da encomenda internacional.</p>
<p><b>‘PORTUGUESE DO IT BETTER’</b></p>
<p>Sobretudo em Portugal, acredita-se que os arquitectos portugueses têm, em geral, uma qualidade acima da média em termos de rigor, capacidade de resposta e domínio da técnica e cultura arquitectónicas. As estratégias de apoio à exportação da arquitectura levadas a cabo por organismos oficiais têm-se centrado na promoção da arquitectura portuguesa enquanto produto cultural. Mas são raros os contextos em que a arquitectura é tomada como um produto cultural, sendo óbvio que o universo da construção é cruel na hora de seleccionar os seus prestadores de serviços. Aparentemente há duas vias para ter acesso à encomenda em mercados internacionais, que não são estanques nem mutuamente exclusivas: vender “arquitectura de autor” ou vender “serviços de arquitectura”. Numa derivação desta segunda via, alguns escritórios portugueses – precisamente pela sua qualidade e competência – já se têm afirmado enquanto <i>back offices </i>para empresas estrangeiras de maior dimensão. No entanto, a concorrência com os chamados <i>sweatshops </i>(imagine-se um barracão situado em nenhures com pessoas indiferenciadas a operar computadores ligados à Internet) é agressiva. Internacionalmente, os mercados não são reguláveis, o que impossibilita saber quais as formas mais eficazes para aceder à exportação de serviços de arquitectura. Capacidade de organização e capacidade financeira são fundamentais para trabalhar de forma sustentada além-fronteiras, mas é fundamental preparar o caminho começando pelos mecanismos de angariação de trabalho. As portas onde bater, quem indica, correspondem a relações muitas vezes insondáveis e intransmissíveis, que demoram tempo a conquistar e que só se mantêm estáveis e profícuas à conta de provas continuadas de competência.</p>
<p>Este texto foi publicado no J-A 251, Set — Dez 2014, p. 450 – 461.</p>
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		<title>ESTALEIRO PARA UMA BARCA BRANCA</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Oct 2014 09:00:42 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Num momento em que em Portugal rareiam os grandes estaleiros de obra, a construção da nova sede da EDP na frente ribeirinha de Lisboa é uma excepção. Nos últimos anos, entre Santa Apolónia e Belém tem-se fixado um conjunto de programas de cultura e lazer que propiciam uma nova fruição da Avenida Marginal. Mas nem só de lazer vive o Homem: este edifício torna-se também excepcional por instalar na proximidade do Cais do Sodré novas funções de trabalho e escritórios que prometem uma outra vitalidade para a zona.]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><b><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/03_emconstr_700_01.jpg"><b><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/03_emconstr_700_04.jpg"><img alt=" " src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/03_emconstr_700_04.jpg" width="700" height="467" /></a></b></a><b><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/03_emconstr_700_03.jpg"><img alt="Estrutura metálica da fachada em contraste com o tecido urbano, Julho de 2014" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/03_emconstr_700_03.jpg" width="700" height="467" /></a></b> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/03_emconstr_700_02.jpg"><img class="alignnone  wp-image-2436" alt="Perspectiva interior da estrutura metálica da fachada, Julho de 2014" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/03_emconstr_700_02.jpg" width="700" height="467" /><b><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/03_emconstr_700_01.jpg"><img alt="Estaleiro de obra perante a barreira rodoviária e caminho-de-ferro, Agosto de 2014" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/03_emconstr_700_01.jpg" width="700" height="467" /></a></b></a>Nova sede da EDP. Avenida 24 de Julho, Lisboa.<br />
</b><b>Projecto de Aires Mateus</b></p>
<p>Num momento em que em Portugal rareiam os grandes estaleiros de obra, a construção da nova sede da EDP na frente ribeirinha de Lisboa é uma excepção. Nos últimos anos, entre Santa Apolónia e Belém tem-se fixado um conjunto de programas de cultura e lazer que propiciam uma nova fruição da Avenida Marginal. Mas nem só de lazer vive o Homem: este edifício torna-se também excepcional por instalar na proximidade do Cais do Sodré novas funções de trabalho e escritórios que prometem uma outra vitalidade para a zona. Por enquanto, a evidência da estrutura metálica em construção põe a nu a natureza de práticas construtivas alternativas ao betão armado que se estão a tornar cada vez mais frequentes.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p><b>COM QUANTOS FERROS SE CONSTRÓI UMA CANOA</b></p>
<p>É grande a tentação de comparar o estaleiro de construção do novo edifício da EDP com um estaleiro naval. Pela forma e pela velocidade de construção, a expressão da estrutura dos dois volumes de escritórios lembra o esqueleto de um barco. De um modo funcional e construtivo, o conjunto separa- -se em dois: dois terços do volume da obra são enterrados e executados em betão branco (estacionamento e áreas comuns); o restante terço é construído em estrutura metálica e composto por dois volumes (escritórios) e uma praça coberta ao nível térreo. As lógicas são distintas: a obra de betão armado é fundamentalmente executada <i>in situ </i>(tratando-se de uma construção em aterro conquistado ao rio, as paredes e a laje de fundo são totalmente estanques de modo a atenuar infiltrações e a acção da água – em rigor, o betão será a barca); a estrutura metálica é pré-fabricada em Oliveira de Frades, a 300 km de Lisboa (os elementos metálicos chegam à obra numerados para montagem por aparafusamento, de modo a reduzir ao mínimo a necessidade de soldaduras em obra).</p>
<p>A operação logística é complexa – desde a preparação e fabricação de elementos com um grau elevado de variações, até ao seu transporte e recepção no estaleiro, passando pela especificidade do local e pelo modo de montagem de cada peça. Em Portugal, o uso destes sistemas de pré-fabricação é cada vez mais recorrente (o novo Museu dos Coches, cujo projecto de especialidades também é da autoria da AFA Consult, foi executado de um modo semelhante). A Martifer, responsável pela construção da estrutura metálica, executou também em Oliveira de Frades a cobertura do estádio Arena da Amazónia, em Manaus, com um volume de construção muito superior e distando mais de 7000 km do local da obra. A pré-fabricação “à medida” e deslocada do estaleiro de obra está a tornar-se cada vez mais uma opção economicamente viável no contexto da construção em Portugal e, perante isso, as lógicas de projecto e coordenação de obra estão também a adaptar-se.</p>
<p>A expressão exterior do edifício resulta da trama de pilares metálicos (afastados 1,20 m entre si e dispostos diagonalmente em relação aos planos de fachada), que será revestida com painéis pré-fabricados de betão branco armado com fibra de vidro (GRC). A orientação dos pilares da fachada, comum a todo o edifício, permite equilibrar o desejo de transparência na relação com a envolvente exterior e controlar da incidência do sol, funcionando como palas de sombreamento com profundidade variável. Ao nível da rua, entre os dois corpos do edifício, existe uma praça coberta para uso público. Aqui, o sistema de lâminas da fachada dobra para o plano horizontal e, com a mesma orientação diagonal, transforma-se numa cobertura suspensa. A praça sombreada é complementada com espaços comerciais e dá acesso quer aos escritórios quer às funções instaladas nos níveis inferiores. Nos seis pisos de cave, além do estacionamento, existem um auditório, uma cafetaria e uma sala de reuniões, que são iluminados e ventilados naturalmente através de pátios.</p>
<p><b>UM ESQUELETO MUSCULADO</b></p>
<p>A linguagem do edifício, com a estrutura praticamente exposta, representa um desafio à elevada <i>performance </i>de comportamento ambiental e consumo energético que se espera numa sede de uma empresa do sector. A estratégia para compatibilizar as diferentes necessidades do edifício passou pela multifuncionalidade dos seus componentes. A estrutura vertical, em conjunto com o revestimento a GRC, desempenha não apenas a função de suporte, mas também um papel de controlo solar, e permite regrar a instalação de painéis fotovoltaicos entre as lâminas exteriores (que também desenham a cobertura), minimizando o impacto do “quinto alçado”, muito visível do Miradouro de Santa Catarina. A solução construtiva dos pavimentos com um vão de 12 metros sem apoios intermédios permite uma grande liberdade de organização interior dos espaços de trabalho. O sistema resulta de uma solução mista de lajes colaborantes apoiadas em treliças metálicas. Deste modo, e numa espessura de 85 cm (quase idêntica à altura das treliças) é possível compatibilizar a estrutura com a instalação dos sistemas de climatização e ventilação, redes de águas, iluminação e extinção de incêndios nos tectos e pisos técnicos. Na execução das fundações, 100 furos com 100 metros de profundidade permitem o aproveitamento da energia geotérmica para a produção de água quente e fria, logrando assim reduzir as necessidades de consumo eléctrico do edifício. O somatório destas medidas confere à futura sede a classificação máxima, A+, no que respeita à eficiência energética. As preocupações económicas e ambientais estendem-se ainda à recolha e tratamento de águas pluviais para consumo sanitário e de rega.</p>
<p><b>UMA PEDRADA NO MAR DA PALHA</b></p>
<p>A reabilitação do Terreiro do Paço, a construção do novo Museu dos Coches, a Casa dos Bicos, a Fundação Oriente, o Museu da Electricidade e a reabilitação da Ribeira das Naus são as realizações mais recentes, ou em fase de conclusão, que assinalam a transformação da faixa ribeirinha como prioridade dos últimos anos das políticas municipais. Pelo caminho ficaram outros tantos projectos amplamente mediatizados e muitas vezes polémicos, como as torres de Alcântara de Álvaro Siza, a torre para o Aterro da Boavista de Norman Foster, os quarteirões de Jean Nouvel para Alcântara-Mar, ou o Centro Cultural Africano de David Adjaye. Este foco na Marginal tem vido a demonstrar consequências práticas, e é notório o aumento da afluência de habitantes e visitantes. Os novos equipamentos culturais reforçam a fileira dos museus aqui existentes e têm influência na quantidade e características da oferta de restauração à beira-rio. Os estabelecimentos de diversão nocturna e, mais recentemente, a reabilitação do Mercado da Ribeira (também da autoria do <i>atelier </i>Aires Mateus) são exemplos que representam a revitalização de usos e de estruturas existentes numa perspectiva recreativa.</p>
<p>Neste contexto, a futura sede da EDP – que faz parte de uma estratégia de reorganização dos espaços de trabalho da empresa – constitui uma novidade funcional no Aterro da Boavista. Para a EDP, o objectivo é concentrar para reduzir custos operacionais (actualmente existem sete instalações espalhadas por Lisboa; a actual sede no Marquês de Pombal ocupa 28 mil metros quadrados, enquanto as novas instalações terão apenas 14 mil para uso de escritórios). No total, as novas instalações vão acolher 750 funcionários. A reestruturação funcional representará uma redução das despesas anuais de funcionamento de cerca de 1,3 milhões para 600 mil euros. A diminuição de tamanho, mas também a escolha do local (a actual sede ocupa uma das zonas de maior valor imobiliário para serviços), justificam a poupança.</p>
<p>Com os trabalhos de modernização do porto nos finais do século XIX, o Aterro da Boavista (entre o Cais do Sodré e Alcântara) deixou para trás a antiga fachada da cidade e, entre as ruas de São Paulo e a Calçada do Marquês de Abrantes, os antigos boqueirões foram secos e convertidos em ruas. Exceptuando as memórias gravadas na toponímia, como as Escadinhas da Praia, as construções e os arruamentos que se sucederam nunca conseguiram prolongar a malha urbana para a porção de terreno conquistado ao rio. As Tercenas do Marquês, entaladas entre as traseiras da Rua das Janelas Verdes e as traseiras da Avenida 24 de Julho, são testemunhas construídas dessa disfuncionalidade que ainda hoje se sente.</p>
<p>Na sequência do anúncio dos resultados do concurso, em Outubro de 2008, com a classificação <i>ex-aequo </i>dos <i>ateliers </i>Aires Mateus e Carrilho da Graça, foi decidida a atribuição do projecto do edifício a uns e o Plano de Pormenor da área envolvente (Aterro da Boavista Nascente) ao outro. Na qualidade de maior proprietário da área em questão, a EDP foi encarregada, em acordo com a Câmara, de seleccionar a equipa projectista e financiar o Plano de Pormenor (aprovado pela Assembleia Municipal em reunião em Novembro de 2011). Este Plano prevê o reperfilamento da Avenida 24 de Julho em coordenação com os restantes Planos que lhe são contíguos. As zonas destinadas a peões e bicicletas serão generosamente aumentadas, e o trânsito automóvel será reduzido a duas faixas em cada sentido. Esta alteração de uso das vias para uma velocidade mais lenta, que se prolongará até à Ribeira das Naus e ao Terreiro do Paço, torna-se possível pela pesada operação de reorganização dos transportes previsto no Plano de Urbanização de Alcântara, da autoria do arquitecto Manuel Fernandes de Sá. Neste último, inclui-se o prolongamento do Parque de Monsanto até ao Tejo, o desvio de trânsito e a criação de um terminal multimodal para automóveis, comboio e metro. Sendo um edifício privado e de serviços, a nova sede da EDP enquadra-se no espírito de reformulação da Marginal e oferece uma praça de fruição pública em articulação com o futuro alargamento dos passeios da Avenida 24 de Julho.</p>
<p><b>50 METROS</b></p>
<p>A construção de um edifício não vai resolver todos os problemas urbanos do Aterro da Boavista, muito menos de toda a extensão da frente de rio. No entanto, e porque não estamos em tempo de materialização instantânea de grandes planos urbanos, as realizações pontuais permitem aferir o rumo traçado e apontar ajustes necessários. Um caso que faz parelha com a nova sede da EDP é a reabilitação do Mercado da Ribeira, que não só é geograficamente próximo, como foi projectado pelos mesmos arquitectos. Em ambas as obras optou-se pela permanência e qualificação de usos existentes em detrimento da experimentação ou introdução exclusiva de novos programas. De um ponto de vista formal, com níveis diferentes de intervenção (mínima e parcial num caso, total e icónica no outro), as duas experiências aproximam-se pela procura de continuidade com os modelos tipológicos existentes. Progressivamente, a frente ribeirinha vai descobrindo uma nova forma de articulação com a cidade. A questão em aberto prende-se com a ligação e acesso franco ao rio. Reduzido o trânsito na Avenida 24 de Julho, a última barreira a ultrapassar será a linha de Cascais. A proposta definida no Plano de Pormenor assinala uma passagem pedonal aérea como solução mínima, problema que também foi identificado por Paulo Mendes da Rocha na ligação do novo Museu dos Coches ao “outro lado” da Avenida Marginal e da via-férrea. Eventualmente, será agora o tempo de pensar o “lado de lá” como uma extensão funcional dos programas do “lado de terra”. Já só faltam 50 metros.</p>
<p>Este texto foi publicado no J-A 250, Mai — Ago 2014, p. 366 – 377.</p>
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		<title>‘Aleixo sempre’</title>
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		<pubDate>Wed, 26 Mar 2014 10:24:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>edit</dc:creator>
				<category><![CDATA[Em Construção]]></category>
		<category><![CDATA[249 @pt-pt]]></category>
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		<category><![CDATA[Mariana Pestana]]></category>
		<category><![CDATA[Nelson D’Aires]]></category>
		<category><![CDATA[Paulo Moreira]]></category>
		<category><![CDATA[Porto]]></category>

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		<description><![CDATA[A demolição das torres que compõem o conjunto do Bairro do Aleixo, propriedade da Câmara Municipal do Porto, está concluída a 40%: dois dos cinco edifícios já desapareceram. Os edifícios faziam parte de um conjunto de habitação na freguesia de Lordelo do Ouro, inaugurado em 1976, com vista sobre o rio Douro. O projecto de demolição, para além da sua complexidade técnica, tem uma forte dimensão política e social. Em que ponto estão os trabalhos de preparação da construção de um novo complexo imobiliário no Aleixo?]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><strong><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja249_site_03_aleixo_700px_01.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1846" alt="Preparação dos fogos de habitação para implosão da torre 4" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja249_site_03_aleixo_700px_01.jpg" width="700" height="466" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja249_site_03_aleixo_700px_02.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1847" alt="Demolição da torre 5, 16 de Dezembro de 2011" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja249_site_03_aleixo_700px_02.jpg" width="700" height="466" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja249_site_03_aleixo_700px_03.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1848" alt="Demolição da torre 4, 12 de Abril de 2012" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja249_site_03_aleixo_700px_03.jpg" width="700" height="466" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja249_site_03_aleixo_700px_04.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1849" alt="Moradores avançam sobre os escombros" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja249_site_03_aleixo_700px_04.jpg" width="700" height="466" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja249_site_03_aleixo_700px_05.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1850" alt="Moradores avançam sobre os escombros" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja249_site_03_aleixo_700px_05.jpg" width="700" height="466" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja249_site_03_aleixo_700px_06.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1851" alt="Bairro do Aleixo, escombros da torre 4, 12 de Abril de 2012" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja249_site_03_aleixo_700px_06.jpg" width="700" height="466" /></a><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/110.jpg"><img class="alignnone  wp-image-2045" alt="Aleixo Sempre I " src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/110.jpg" width="700" height="467" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/25.jpg"><img class="alignnone  wp-image-2046" alt="Aleixo Sempre II " src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/25.jpg" width="700" height="467" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/31.jpg"><img class="alignnone  wp-image-2047" alt="'Não quero pensar nesse dia nem na hora que diga que a gente vai'" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/31.jpg" width="700" height="467" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/41.jpg"><img class="alignnone  wp-image-2048" alt="Interior de apartamento prestes a ser demolido" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/41.jpg" width="700" height="467" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/51.jpg"><img class="alignnone  wp-image-2049" alt="Interior de apartamento prestes a ser demolido" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/51.jpg" width="700" height="467" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/6.jpg"><img class="alignnone  wp-image-2050" alt="Torre 4 preparada para a demolição" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/6.jpg" width="700" height="467" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/71.jpg"><img class="alignnone  wp-image-2051" alt="Torre 4 preparada para a demolição" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/71.jpg" width="700" height="467" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/81.jpg"><img class="alignnone  wp-image-2052" alt="Torre 4 preparada para a demolição" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/81.jpg" width="700" height="467" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/91.jpg"><img class="alignnone  wp-image-2053" alt="Torre 4 preparada para a demolição" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/91.jpg" width="700" height="467" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/10.jpg"><img class="alignnone  wp-image-2054" alt="Moradora de um apartamento na torre 3. Foi realojada no final do Verão de 2013" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/10.jpg" width="700" height="467" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/112.jpg"><img class="alignnone  wp-image-2055" alt="Apartamento emparedado" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/112.jpg" width="700" height="467" /></a> <a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/122.jpg"><img class="alignnone  wp-image-2056" alt="Olhar de ex-moradora instantes após a demolição" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/122.jpg" width="700" height="467" /></a>Demolição do Bairro do Aleixo.<br />
</strong><strong>Projecto de Restradas com Delair CFD</strong></p>
<p><strong><br />
</strong>A demolição das torres que compõem o conjunto do Bairro do Aleixo, propriedade da Câmara Municipal do Porto, está concluída a 40%: dois dos cinco edifícios já desapareceram. Os edifícios faziam parte de um conjunto de habitação na freguesia de Lordelo do Ouro, inaugurado em 1976, com vista sobre o rio Douro. O projecto de demolição, para além da sua complexidade técnica, tem uma forte dimensão política e social. Em que ponto estão os trabalhos de preparação da construção de um novo complexo imobiliário no Aleixo?</p>
<p style="text-align: center;"><b> ***</b></p>
<p><b>RIOTRONIC DT, QUE ESTRONDO!</b></p>
<p>Riotronic DT é o nome de uma consola de disparo versátil, que pode ser utilizada para detonar túneis, pedreiras, ou edifícios. Em duas sextas-feiras, a consola activou a implosão das torres 5 e 4 do Bairro do Aleixo. O botão foi premido pelo engenheiro francês Yannick Bleuzen, especialista em explosivos e dispositivos de disparo. Tal tarefa ter-lhe-á sido confiada não só pela sua capacidade de programar a complexa máquina de disparo, mas também pela relação de amizade que mantém com Patrick Villard, especialista em implosões e director da Delair CFD, parceira da empresa contratada para proceder ao projecto de demolição do Aleixo, Restradas – Revitalização de Estradas do Norte, Lda., por sua vez contratada pelo Fundo Especial de Investimento Imobiliário (FEII), criado com vista à requalificação da zona. Em ambos os eventos de implosão das torres 5 e 4, Patrick Villard e Yannick Bleuzen viajaram propositadamente até Portugal, tendo a este último cabido a missão de programar a consola: às 11h45 de 16 de Dezembro de 2011 (torre 5) e às 11h14 de 12 de Abril de 2012 (torre 4), activou sucessivamente o teste, a detonação dos explosivos nas piscinas (cuja água amenizaria os efeitos da poeira) e, finalmente, os explosivos colocados no interior do edifício. A precisão das implosões foi tal que a página de Internet americana Demolition News descreveu a operação como “<i>a successful blast</i>” (um êxito estrondoso): “A rua adjacente ao prédio foi reaberta poucos segundos após a explosão, sem necessidade de varrição ou limpeza adicionais.”</p>
<p><b>CONCEPÇÃO E APROPRIAÇÃO DAS TORRES</b></p>
<p>O Grupo de Moradias Populares do Aleixo foi inicialmente projectado em 1968 pela Repartição de Construção de Casas da Câmara Municipal do Porto, com autoria do arquitecto Manuel Teles, com o intuito de realojar 320 famílias abrangidas pelas demolições da Ribeira-Barredo, na zona histórica do Porto, totalizando 1720 habitantes. O projecto seguia o Plano de Urbanização de Robert Auzelle, que propunha a construção de cinco torres, em detrimento de soluções de igual densidade mas com menor cércea. O arquitecto, mesmo não defendendo aquela solução (mais tarde terá renegado a autoria do projecto), procurou adaptar o modelo de torre ao modo de vida da população, tal como explicou na memória descritiva do projecto:</p>
<p align="center"><b>A solução em altura adoptada responde a um problema económico de aproveitamento do terreno e implica condições de vida muito próximas das arreigadas nos seus futuros ocupantes, tendo havido o cuidado de reforçar este aspecto por judiciosa concepção do conjunto das galerias, das caixas de escadas e dos elevadores, ainda que, diga-se de passagem, com algum sacrifício do custo da obra.</b></p>
<p>No detalhe do projecto para construção sucederam-se conflitos entre o arquitecto e a Câmara Municipal do Porto (CMP): as galerias de distribuição foram reduzidas, o conjunto de equipamentos sociais que unia três torres no piso térreo foi suprimido, a dimensão das janelas foi diminuída, o revestimento exterior foi alterado e as canalizações de água quente e chuveiro consideradas desnecessárias.</p>
<p>Apesar disso, a ocupação do bairro trouxe uma espécie de horizontalização do esquema de habitação vertical, devido ao uso e apropriação das escadarias, patamares, galerias e vão central, criando-se jardins, pequenas cercas, zonas de convívio e estendais de roupa. Esta apropriação contribuiu para a criação de um espírito de vizinhança pouco comum em edifícios de habitação colectiva. As próprias portas de entrada nas torres foram retiradas, garantindo uma relação mais fluida entre a casa e a rua.</p>
<p>Independentemente do êxito eventual na apropriação das torres, o processo de ocupação envolveu alguma tensão entre autoridades e moradores (quer daqueles que preferiam ter permanecido na sua zona de origem, quer dos que ocuparam indevidamente uma parte dos apartamentos). “Foi uma confusão”, lembrou uma moradora da torre 3. Essa “confusão” terá estado na origem de problemas sociais que surgiram mais tarde, problemas que justificaram a opção de demolição.</p>
<p><b>RAÍZES DO PROBLEMA</b></p>
<p>O modelo de urbanização do Aleixo implicou a transferência de populações desfavorecidas para uma zona afastada do centro da cidade, acentuando diferenças sociais. Luís Fernandes, investigador que se interessa pelo Aleixo desde 1990, defende que o problema surgiu no momento da concepção: “Um bairro pode nascer melhor ou pior. No caso do Aleixo, o bairro nasceu torto devido a uma dinâmica urbana de transferência populacional que foi violenta, no sentido em que foi feita nas costas das pessoas. É muito violento desapropriarem-nos do nosso território primário, que é a casa. As pessoas foram para ali a contragosto e muitas nunca se adaptaram.” Concordando que a mesma estratégia de transferência de população tinha estado na génese de outros bairros, o investigador invoca as características da sua relação com a malha urbana circundante como possível origem dos problemas sociais: “É um lugar de difícil controlo, uma espécie de fortificação. Ao ser uma fractura com o envoltório urbano, torna-se muito fácil sinalizar a aproximação de forasteiros, o que é óptimo quando se está a trabalhar num negócio clandestino.” Além dessas características territoriais, a segregação social do Aleixo foi potenciada pela conjuntura económica, como explica Luís Fernandes: “A desindustrialização levou a que os bairros em geral – e o Aleixo é um caso agudo – entrassem numa certa agonia económica. Grande parte da população trabalhava em unidades fabris existentes em Lordelo ou freguesias vizinhas e no porto de Leixões, mas com o fecho destas indústrias e com a automação do porto houve a dispensa de muitos trabalhadores, o desemprego foi crescendo. Em meados dos anos 90, a taxa de desemprego no Aleixo era de 30%, quando a do país não chegava a 6%. Isto fez que pessoas em situação de sofrimento económico aceitassem desempenhar papéis de risco em economias subterrâneas, como o mercado da droga.”</p>
<p><b>COMPROMISSO DE NÃO DEMOLIR</b></p>
<p>Em 2000, o engenheiro Nuno Cardoso, então presidente da CMP, sugeriu a possibilidade de eliminação do Bairro do Aleixo, invocando a necessidade de melhorar as condições de habitabilidade dos moradores. Estes, alarmados perante os rumores, pediram explicações à autarquia, tendo recebido uma carta, assinada pelo presidente, a 14 de Abril de 2000, esclarecendo sobre a sua posição:</p>
<p align="center"><b>Só se avançará com essa ideia desde que seja possível ir construindo e transferindo os moradores, <span style="text-decoration: underline;">sem que estes tenham de sair do local</span> (isto é, constroem-se as casas novas, transferem-se os moradores e só depois se deitam as outras casas abaixo). (…) Em todo este processo <span style="text-decoration: underline;">os moradores do Aleixo serão sempre ouvidos</span>, pelo que <span style="text-decoration: underline;">ninguém sairá do Aleixo se não quiser</span>.</b></p>
<p>A polémica estava instalada. A poucos meses das eleições autárquicas de 2001, o candidato Rui Rio manifestou-se contra a solução de demolição. A 15 de Maio, Rio dirigiu- -se ao Aleixo para garantir sem rodeios que essa não lhe parecia ser a melhor solução. “E o senhor vai-nos ajudar, se for eleito, ou também vai mandar demolir?” Perante a questão de Rosa do Aleixo, na época presidente da Associação de Moradores, Rio frisou que não iria demolir o bairro, sobretudo porque o que comandaria as suas decisões seria “o interesse dos moradores”.</p>
<p>Esta posição levou a Associação de Moradores a apoiar o candidato na sua eleição. Esta “bandeira eleitoral” ganhou maior significado quando, a 20 de Fevereiro de 2002, Rio escolheu o Aleixo como destino de uma das primeiras visitas na condição de presidente. Na ocasião, reiterou que o bairro seria recuperado e não demolido, e que nada seria feito contra a vontade dos moradores. Estes pediram-lhe que a promessa fosse oficializada, tendo sido enviada uma carta no dia seguinte, assinada pelo então vice-presidente e vereador do urbanismo, Paulo Morais:</p>
<p align="center"><b>Na sequência da reunião do passado dia 20 de Fevereiro, com o Senhor Presidente da Câmara Municipal do Porto, Dr. Rui Rio, vimos reafirmar o compromisso, que então assumimos, de que não haverá lugar a quaisquer alterações, nomeadamente demolições, no Bairro do Aleixo, contra a vontade dos seus moradores.</b></p>
<p>Paulo Morais, actualmente vice-presidente da Associação Cívica Transparência e Integridade, reafirmou que, enquanto esteve na CMP, de onde saiu em 2005 em ruptura com Rui Rio, o que estava escrito na carta foi cumprido.</p>
<p><b>MUDANÇA DE PLANO</b></p>
<p>Mas a ameaça de demolição pairava no ar. Em 2007, a Associação de Moradores entregou um abaixo-assinado na CMP apelando à permanência do bairro. Juntamente com o pedido, anexou um referendo realizado nas cinco torres, com a participação de 305 famílias. Os resultados do referendo eram claros sobre a vontade da população: 209 contra a demolição; 13 favoráveis; 83 moradores não responderam. Mas porque é que “a vontade dos moradores” deixou de ser ouvida? O que mudou?</p>
<p>A direcção Municipal de Urbanismo da CMP desenvolveu um estudo, ao qual o J–A não teve acesso, apresentando três hipóteses para reabilitar o Aleixo, mantendo duas, uma ou zero torres (a hipótese de manter todas as torres não foi equacionada). Segundo informou o arquitecto João Pestana, que trabalhou no referido estudo, tratou-se de um “trabalho exaustivo de pesquisa, considerando diferentes possibilidades para cada um dos três cenários. Em cada caso, contabilizava-se a área bruta e ensaiavam-se hipóteses com x casas unifamiliares, ou x blocos de 5, 6, 12 ou 20 pisos”. O objectivo do estudo era, perante a legislação em vigor, perceber o que poderia ser feito (apesar de não ponderar a manutenção de todas as torres, o estudo técnico teve em consideração um trabalho académico da arquitecta Ana Lima, que propunha a não-demolição). “E o que fazer às pessoas?” – perguntou-se. “Acredito que manter as pessoas seria um pouco difícil.” O estudo da CMP não incluiu a consulta aos moradores, embora essa fosse “uma experiência que algures podia ser tentada”, admitiu João Pestana. “Mas ali é difícil, ninguém lá entra…”</p>
<p>Mas há quem entre no Aleixo. O bairro tem atraído profissionais e investigadores de diversos ramos, entre eles Luís Vieira Campos (que realizou um filme com a participação de actores e figurantes moradores no bairro). Luís interessou-se por fazer “algo que registasse aquele local sem ser um documentário”. Com um argumento do escritor Valter Hugo Mãe, o enredo gravita em torno da verticalidade das torres. Contrariando a ideia de que “não há condições para entrar no Aleixo”, o realizador afirma que sempre foi bem recebido e nunca teve problemas no bairro: “Às vezes deixávamos os carros abertos, com equipamento, carteiras abertas, e nunca desapareceu nada. É uma questão de criar um pacto, uma empatia com as pessoas.” Pelo contrário, sentiu entraves por parte de algumas instituições externas ligadas ao bairro, que até lhe chegaram a dizer que “podia filmar em qualquer bairro, menos no Aleixo”.</p>
<p><b>REABILITAÇÃO OU RENOVAÇÃO URBANA?</b></p>
<p>A 22 de Julho de 2008, a CMP lançou um concurso público de subscrição particular com vista à constituição de um Fundo Especial de Investimento Imobiliário (FEII), que exercesse a propriedade dos prédios e terrenos que constituem o Bairro do Aleixo. O documento enquadrava a operação no “Regime Extraordinário de Apoio à Reabilitação Urbana”, que atribui incentivos fiscais (por exemplo, tributação à taxa reduzida de IVA das empreitadas, isenção de IRC sobre os rendimentos respeitantes a unidades de participação do fundo, isenção do IMI até dez anos). Esta classificação pode considerar-se polémica, sobretudo pela interpretação que faz da noção de reabilitação urbana. Reabilitar implica preservar e melhorar as condições de um edifício, algo que nos parece distinto da demolição total das torres e da construção de edifícios novos que não servem para realojar a população existente.</p>
<p>À margem desta questão, o concurso prosseguiu e teve apenas uma proposta, apresentada pelo consórcio Invesurb, liderado pelo Grupo Espírito Santo. O FEII foi constituído em 15 de Novembro de 2010, com sede em Lisboa. O seu regulamento de gestão confirmava a controvérsia:</p>
<p align="center"><b>O FUNDO tem como objectivo principal a promoção imobiliária dos terrenos sitos na freguesia de Lordelo do Ouro, Porto, conhecidos por Bairro do Aleixo e classificados como “Área de Reabilitação Urbana” (…). Para além das normais actividades da promoção imobiliária que incluem o desenvolvimento de projectos de construção, o FUNDO promoverá a construção e a reabilitação de edifícios que lhe sejam indicados pelo município do Porto, constituindo estas obras de construção e de reabilitação a contrapartida da aquisição dos terrenos acima referidos.</b></p>
<p><b>ALEIXO POR DENTRO E PARA FORA</b></p>
<p>Dona Maria, mais conhecida como “Maria da Ribeira”, mora na torre 2 desde 1976. Vive sozinha num T4, depois de ter ficado viúva e de ter criado filhos e netos em casa. No início dos anos 2000, quando parecia que a demolição tinha sido posta de parte, pediu um empréstimo ao banco para fazer obras em casa: “Pus tectos falsos, casa de banho com cabine, tudo impecável&#8230;” Diz sentir-se enganada por estar a pagar por algo que será destruído: “Se calhar vou estar ainda a pagar quando já nem sequer existir casa.” Passa o tempo na companhia de outros idosos – “cada vez menos” –, no Centro de Dia situado no piso térreo da torre 2. Alguns deles já não moram no bairro, mas mantêm a rotina de passar ali o dia na companhia de amigos. Os equipamentos ainda em uso incluem um ATL para crianças na torre 3 e um café no lado nascente (a escola primária foi desactivada no segundo mandato de Rui Rio).</p>
<p>Em conversa com as irmãs Neta e Maria João, moradoras na torre 3 desde 1976, nota-se um grande desânimo e conformação em relação ao seu destino. Se até ao final de 2011 tinham esperança em permanecer no bairro – sentiram até ao último momento que a luta contra a demolição iria resultar –, com a queda da torre 5 essa esperança desmoronou-se. A revolta expressa no momento da primeira implosão (que coincidiu com o dia do 10.º aniversário da primeira vitória eleitoral de Rui Rio), foi substituída pela apatia em relação à demolição da torre 4.</p>
<p>A incerteza é grande e a informação é escassa. Ouvem-se histórias de desencanto daqueles que já partiram para os bairros do Cerco, Pasteleira Nova, Pinheiro Torres: “os novos supermercados da droga”, diz-se. Mas a contrapartida do acordo do FEII não era a “construção e a reabilitação de edifícios”?</p>
<p>Numa fase de mudança do executivo municipal, as respostas da empresa camarária responsável pela gestão do processo de realojamento, Domus Social, têm sido muito cautelosas. Foi-nos indicado que há atrasos na reabilitação e construção dos fogos previstos para realojamento dos habitantes do Bairro do Aleixo, que estão a ser transferidos para outros edifícios camarários. Ao que parece, os novos fogos originalmente destinados à população oriunda do Aleixo servirão para realojamento de outras famílias, elegíveis para residir em habitação social.</p>
<p>Em todo o caso, torna-se claro que a demolição do Aleixo não vai resolver o problema do tráfico. “Isso foi um álibi que a Câmara utilizou para libertar aqueles terrenos, e para se livrar da gestão de um bairro que já era um caso complicado há muitos anos”, afirma Luís Fernandes. “Aliás, se a causa da demolição fosse a droga, porque é que começaram pelas torres que não tinham problemas de drogas e não pela torre 1?” O facto é que, ao que parece, até à própria polícia interessa ter o problema localizado. Fonte da Polícia de Segurança Pública confirma que “é melhor ter o problema concentrado: na torre 1 vende-se e na torre 2 armazena-se; diluir o tráfico não é uma boa estratégia”.</p>
<p><b>ALTERNATIVAS</b></p>
<p>Das possíveis soluções para o caso do Aleixo, a escolhida acabou por ser a mais drástica. “A opção é política, não técnica”, constatou João Pestana. Será que a decisão de demolir as torres foi a melhor opção? E será irreversível?</p>
<p>Procuraram ouvir-se algumas vozes. Paulo Morais aceita o cenário da demolição, mas é muito crítico sobre a estratégia encontrada pela CMP: “Pegar na malta do Aleixo para traficar solos, acho uma má atitude. Admitindo que se teria de fazer alguma coisa, não havia necessidade de envolver privados.” No entender do ex-autarca, teria sido possível realojar os moradores com apenas 1% do orçamento da CMP, “cerca de 7 milhões de euros durante cinco anos, ao abrigo do programa Prohabita”.</p>
<p>Luís Fernandes defende uma solução intermédia: “Eu nunca disse que não se devia demolir o Aleixo, disse sempre: ‘perguntem a quem lá está’. Ou então cabia à Câmara demonstrar que era inviável manter as torres. Mesmo assim, defendo que a população devesse continuar no Aleixo, pelo menos parcialmente.” O certo é que provavelmente esta solução agradaria aos próprios habitantes: o referendo realizado pela Associação de Moradores mostrou que 94% das 222 famílias que responderam estavam contra a demolição, portanto presume-se que os restantes 6% sairiam de livre vontade.</p>
<p>E qual a posição dos arquitectos? Nas páginas do J–A (número 237, Outubro-Dezembro 2009), Alexandre Alves Costa queixava-se de que “os arquitectos calam-se, na sua maioria”. Mas, apesar disso, houve testemunhos que se tornaram públicos, a maioria contra a demolição. Num artigo de opinião intitulado “Aleixo ao Desleixo” (jornal <i>Público</i>, 6 de Junho de 2009), Pedro Bandeira dizia: “Defendo, como a arquitecta Ana Lima, uma requalificação do bairro, que envolva a participação dos moradores e o seu direito de pertença, consciente de que, nem o urbanismo, nem a arquitectura resolverão um problema social vasto e complexo.”</p>
<p>É interessante notar que as opiniões dos arquitectos contam (as várias entidades contactadas remetiam para artigos publicados). A proposta da arquitecta Ana Lima (exposta na sua tese de licenciatura, <i>A Metamorfose das</i> <i>Torres do Aleixo</i>, apresentada na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto em 2007) é invariavelmente referida, o que prova o papel que a investigação em arquitectura pode ter junto dos decisores políticos, técnicos responsáveis e sociedade civil. De facto, esse trabalho levantou questões pertinentes, nomeadamente a referência a experiências francesas em curso que ensaiam alternativas à opção de demolição dos <i>grands ensembles</i>, cujo exemplo mais conhecido é hoje a reabilitação da torre Bois-le-Prêtre, projectada pelos arquitectos Frédéric Druot, Anne Lacaton e Jean Philippe Vassal, concluída em 2011.</p>
<p><b>E AGORA?</b></p>
<p>O futuro do Bairro do Aleixo pode ainda não estar completamente determinado. O relatório de gestão do FEII, de 19 de Março de 2013, nota que “os capitais próprios do fundo permitem o cumprimento de todas as obrigações já assumidas”, mas ressalva que “a realização da totalidade dos trabalhos previstos, incluindo a construção de novos edifícios para entrega à CMP e a realização de obras de infra-estruturas nos terrenos do Bairro do Aleixo, carecem de adequado financiamento”. Se o fundo não tem financiamento para fazer os trabalhos a que se comprometeu, fará sentido dar continuidade ao projecto de demolição das restantes torres?</p>
<p>O novo executivo da CMP tem tardado em esclarecer a sua posição. Enquanto candidato à presidência, Rui Moreira manifestou a intenção de concluir o projecto de demolição do bairro. Será que o incumprimento do FEII pode fazer mudar esta posição?</p>
<p>Durante a campanha eleitoral, o actual vereador da Habitação e Acção Social da CMP e presidente do conselho de administração da Domus Social, Manuel Pizarro, declarou que se opunha à construção de empreendimentos de luxo nas encostas do Douro e afirmou que, se à data das eleições, o FEII não tivesse honrado os seus compromissos, o novo executivo teria “as mãos livres para qualquer solução”.</p>
<p>O J–A pediu audiências aos vereadores Manuel Pizarro e Manuel Correia Fernandes (vereador do Urbanismo), com o intuito de clarificar a posição do novo executivo. Tais pedidos não foram atendidos a tempo da edição deste número. Contudo, mesmo sem respostas oficiais, as informações que iam sendo recolhidas sugeriam a existência de um debate interno acerca da posição da CMP relativamente à demolição do Bairro do Aleixo. Aguardemos o veredicto final.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Este artigo foi publicado no J-A 249, Jan — Abr 2014, p. 282-297.<b></b></p>
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		<title>‘Face-lift’ ou viver melhor?</title>
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		<pubDate>Fri, 18 Oct 2013 10:30:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>edit</dc:creator>
				<category><![CDATA[Em Construção]]></category>
		<category><![CDATA[248]]></category>
		<category><![CDATA[André Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[ Como tudo na vida, as construções avariam-se. Viver numa “casa avariada” não é bom. Assim vivia grande parte dos 8000 residentes em Vila d’Este, um conjunto de prédios em Vila Nova de Gaia, construído no início dos anos de 1980. Neste momento está em construção a segunda fase da operação de requalificação da envolvente dos edifícios. Uma obra que não só transformou a paisagem urbana como ofereceu aos moradores uma vida com mais qualidade.]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><b><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja248_03_viladeste_700.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1580" alt="A massa construtiva de Vila d’Este entre os vestígios de um mundo rural que esconde os nós e acessos da auto-estrada" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja248_03_viladeste_700.jpg" width="700" height="525" /></a>Reabilitação de Vila d’Este, Vila Nova de Gaia. Projecto de Nuno Abrantes</b></p>
<p><b> </b>Como tudo na vida, as construções avariam-se. Viver numa “casa avariada” não é bom. Assim vivia grande parte dos 8000 residentes em Vila d’Este, um conjunto de prédios em Vila Nova de Gaia, construído no início dos anos de 1980. Neste momento está em construção a segunda fase da operação de requalificação da envolvente dos edifícios. Uma obra que não só transformou a paisagem urbana como ofereceu aos moradores uma vida com mais qualidade.</p>
<p align="center">***</p>
<p><b>PRELÚDIO TRÁGICO</b></p>
<p>O projecto de licenciamento de 2085 fogos para a Quinta do Monte Grande, do arquitecto Carlos A. C. Garcia, deu entrada na Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia em 1979. O empreendimento foi levado a cabo pela construtora Niassa, sendo o projecto aprovado em 1983. As obras avançaram, com um nome comercial apetecível – Vila d’Este – e grande visibilidade da auto-estrada Porto-Lisboa, que dava os seus primeiros passos. Os edifícios foram construídos num sistema de pré-fabricação “túnel”, que permitiu montar a estrutura num ápice, brindando os automobilistas com a miragem de uma nova cidade. Vila d’Este oferecia habitação a custos controlados, capaz de suprir uma falta de habitação económica na região metropolitana do Porto. A obra, e a comercialização dos apartamentos, avançou até à falência da construtora.</p>
<p>A falência complicou o processo, mas não impediu a ocupação das casas pelos proprietários. Com a intervenção do Instituto de Gestão e Alienação do Património Habitacional do Estado (IGAPHE), bancos credores completaram a construção para tomar posse de várias fracções. A Câmara Municipal também adquiriu apartamentos para habitação social. As obras concluíram-se no início dos anos de 1990, mas certas opções construtivas não resistiram à complicação destes solavancos administrativos. Com problemas de gestão, os edifícios começaram a degradar-se. O bairro expandiu-se para nascente com edifícios de outra natureza, desde a habitação colectiva de promoção privada a edifícios no âmbito do Plano Especial de Realojamento (PER). Durante esses anos também foram construídos alguns equipamentos, três escolas, um gimnodesportivo e uma piscina, que deram novo sentido aos espaços colectivos de Vila d’Este. Mas os anos foram impiedosos para a construção dos primeiros blocos. As paredes de alvenaria simples sem isolamento provocaram condensações no interior das habitações e fissuraram em muitos pontos. No exterior, as pinturas degradaram-se, denegrindo o seu aspecto. Para cúmulo, a rede de saneamento colapsou. A construção optara pelo prolongamento da estrutura “túnel” até à fundação, com vários pisos de caves não acessíveis abaixo do nível de drenagem do saneamento. Ao fim de alguns anos, os cotovelos de ligação das quedas verticais às condutas de saída começaram a fissurar, resultando rupturas nas caves não acessíveis. Sem manutenção, não tardou que as fundações dos prédios se transformassem em fossas sem sumidouro. Um “mar de esgoto”.</p>
<p><b>DAR A VOLTA AO TEXTO</b></p>
<p>Nos anos 2000, a Câmara Municipal criou um gabinete de Paisagem Urbana para qualificar os espaços colectivos do concelho. Com recursos limitados, “como é que Vila Nova de Gaia podia ficar mais bonita”? A dimensão e visibilidade de Vila d’Este trouxeram o conjunto para primeiro plano, embora o facto de os prédios serem propriedade privada levantasse questões sobre o limite da intervenção. Perante uma população desmoralizada, só com vontade política foi possível uma interpretação lata da noção de espaço público para intervir numa zona onde a determinação da propriedade era ambígua. Com um investimento mínimo, mobilizando serviços próprios, a Câmara resolveu o problema do saneamento dos prédios, conquistou a confiança dos moradores e abriu outras perspectivas para a renovação de Vila d’Este.</p>
<p>Quando se constituiu uma “Associação de Proprietários” o termo causou estranheza, porque o conjunto estava conotado como habitação social. Vila d’Este tem mais de dez associações de moradores, com diferentes objectivos e orientações políticas. A Associação de Proprietários, que combina na sua direcção várias cores partidárias, vislumbrou na vontade da Câmara Municipal uma oportunidade para inverter o processo de decadência física e social do bairro. O consenso foi crucial para envolver a população e conseguir, através da empresa municipal Gaiurb, adjudicar ao engenheiro Vítor Abrantes um diagnóstico de patologias para o conjunto dos 109 edifícios de Vila d’Este.</p>
<p>Este trabalho foi o ponto de partida para uma renovação integrada do conjunto. O primeiro passo foi um inquérito, levado a cabo com o voluntariado da Associação de Proprietários. Foram inquiridos todos os habitantes e feita uma primeira identificação dos problemas construtivos. A partir desse inquérito foi possível escolher uma amostra de fracções para realizar observações detalhadas e caracterizar as patologias da construção. À parte alguns problemas estruturais, havia muitas humidades no interior das habitações como resultado de infiltrações e condensações. Foi possível identificar a origem das condensações na falta de isolamento e no uso intensivo das habitações, com pouca ventilação. O diagnóstico permitiu estabelecer as condições técnicas para um projecto de reabilitação. Ao invés de uma solução meramente técnica, a opção foi dar relevo a um projecto de arquitectura capaz de introduzir mais-valias sem onerar a intervenção. Essa reabilitação, fundamental para renovar a imagem urbana do conjunto, criou entusiasmo nos moradores pela possibilidade de reconquistar uma expressão digna para as suas habitações.</p>
<p><b>SOLUÇÕES DE PROJECTO</b></p>
<p>Ao contrário de uma simples operação de cosmética, o projecto tinha como objectivo resolver as “avarias” dos edifícios. Num contexto jurídico excepcional, com o sector público a fazer obras em propriedade privada, houve limitações nas intervenções. Sendo compreensível a opção de não intervir no interior das habitações, outras questões como a abolição de obstáculos nos acessos aos elevadores foram percorrendo as fases do projecto até serem excluídas por razões jurídicas. Em qualquer dos casos, as soluções arquitectónicas derivaram com naturalidade do diagnóstico de patologias.</p>
<p>O projecto, da autoria do arquitecto Nuno Abrantes, tem três componentes estruturantes. A primeira componente é a reabilitação das coberturas, substituindo as coberturas em fibrocimento por painéis <i>sandwich </i>com isolamento térmico e revestimento em alumínio, com novas caleiras e aplicação de rufos. A homogeneização das coberturas, eliminando espaços abarracados anexos aos apartamentos dos últimos pisos, levou à construção de um novo compartimento capaz de dotar cada apartamento com duas frentes e permitir ventilação transversal. A nova forma da cobertura está articulada a uma marcação formal das caixas de escada, com chapa de alumínio perfurado que mantém a iluminação das escadas e produz um novo ritmo na composição dos alçados. A segunda componente é o revestimento das fachadas com sistema compósito de isolamento térmico, vulgarmente designado como <i>capoto</i>. Trata-se de pôr um “capote” no edifício, uma solução construtiva capaz de aumentar o isolamento térmico ao ponto de evitar as condensações que eram um dos principais problemas de Vila d’Este. Nesta operação foram também afinados vários detalhes construtivos, como soleiras, peitoris e outros remates. A terceira componente é a utilização de painéis em cimento reforçado com fibra de vidro (GRC) no embasamento dos blocos, para evitar a degradação por vandalismo do capoto. Este embasamento, que abraça comércio, garagens e arrumos, “permite ancorar os edifícios nos locais onde se implantam”. A combinação destas três componentes responde às exigências técnicas da reabilitação e confere ao projecto a capacidade de reinventar a expressão formal do conjunto, atribuindo uma nova imagem aos edifícios.</p>
<p><b>MÃOS À OBRA</b></p>
<p>O trabalho de diagnóstico em 2003 e o arranque do projecto em 2006 corresponderam a investimentos da Gaiurb capazes de manter activo o envolvimento da população, quer através da Associação de Proprietários, quer através do entusiasmo gerado pela presença dos técnicos nas fases de projecto e diagnóstico. Entre 2004 e 2007, foram procuradas soluções para o financiamento da obra, através da Sociedade de Reabilitação Urbana e do programa Prohabita. Mas só em 2008, através do Quadro de Referência Estratégica Nacional (QREN), é que se encontrou uma solução viável. Essa hipótese de financiamento comunitário inscreveu-se no âmbito do cumprimento de critérios de eficiência energética, o que levou a pequenos ajustes no projecto. Assim, numa versão inicial as caixas de escada não tinham qualquer isolamento previsto, mas foi necessário acrescentar uma camada de isolamento para justificar o financiamento dessa parte da obra.</p>
<p>Assegurado um financiamento europeu da ordem dos 84%, foi possível avançar com a execução de uma primeira fase da obra, que arrancou em Setembro de 2009, após ter sido adjudicada por concurso à construtora Engenheiros Associados. Só que, em vez do ano previsto, a obra demorou o dobro, tendo sido finalmente entregue em Abril de 2012. Os seis blocos que foram objecto de intervenção – 36 prédios, 766 habitações, 31 espaços comerciais – estavam em uso, dificultando a coordenação com os habitantes e a segurança no estaleiro.</p>
<p>Durante esta primeira fase, foram feitas alterações substanciais ao projecto. O revestimento das caixas de escadas, previsto em GRC, executou-se em alumínio. Certos elementos não se realizaram, como os estendais para secar roupa, os quais, além de conferirem novas valências às habitações, iriam agitar a expressão formal dos edifícios. A alteração com um impacto mais forte na imagem do conjunto foram as grelhas de sombreamento em algumas fachadas sul, previstas em GRC e executadas em alumínio. Estas alterações tinham justificações técnicas e construtivas. Mas, sobretudo, permitiram uma gestão dos custos que resultou num decréscimo de quase 20% do valor da obra. Ao contrário das “derrapagens orçamentais” comuns em obras públicas, foi possível controlar o custo da empreitada da primeira fase da obra de Vila d’Este sem pôr em perigo a execução da segunda fase (12 blocos correspondendo a 73 prédios, 1319 habitações e 45 espaços comerciais). A presença de assistentes sociais (por intermédio de outra empresa municipal, a Gaia Social) foi relevante para garantir a comunicação eficaz entre moradores e a empresa construtora, numa triangulação entre dono de obra, fiscalização, empreiteiro-geral e subempreiteiros, projectistas, associações de moradores e proprietários.</p>
<p><b>EM CONSTRUÇÃO</b></p>
<p>O êxito da primeira fase, quer a nível financeiro quer a nível do resultado da obra, foi fundamental para avançar com a segunda fase. Esta intervenção contribuiu para superar a imagem estigmatizada de Vila d’Este, promovendo o incremento das condições de habitabilidade dos apartamentos através de pequenas obras levadas a cabo pelos moradores. O projecto não tratava apenas a “imagem” do edificado, porque se destinava a resolver avarias objectivas nos edifícios. Apesar das limitações jurídicas e dos constrangimentos no investimento, a arquitectura teve um papel decisivo na requalificação do património edificado. E a vida útil destes edifícios foi substancialmente prolongada.</p>
<p>Hoje, os padrões de conforto e de eficiência construtiva são diferentes do que eram há poucos anos, colocando os arquitectos perante um amplo campo de trabalho. Para edifícios com valor histórico, artístico ou arquitectónico, o recurso ao arquitecto é incontornável, por convicção ou contingência legal. O mesmo não parece acontecer em situações mais neutras, em que a reabilitação pode ser confundida com uma intervenção exclusivamente técnica. Vila d’Este vai entrar na segunda fase da sua reabilitação e demonstra que a competência do arquitecto pode ter um papel determinante na reconfiguração do parque habitacional, com consequências sociais positivas. Não basta construir ou reconstruir, é imprescindível podermos ser felizes.</p>
<p>Este artigo foi publicado no J-A 248, Set — Dez 2013, p. 200-211.</p>
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		<title>Afinal Ainda Se Constrói</title>
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		<pubDate>Fri, 17 May 2013 10:00:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>edit</dc:creator>
				<category><![CDATA[Em Construção]]></category>
		<category><![CDATA[247]]></category>
		<category><![CDATA[André Cepeda]]></category>
		<category><![CDATA[Isabel Barbas]]></category>
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		<description><![CDATA[Diz-se que no passado o percurso típico de início de carreira de um arquitecto promissor se resumia em quatro passos: concluir o curso, estagiar num atelier, ensaiar-se em concursos públicos e, vencendo algum com certa dimensão, estabelecer um escritório em nome próprio. Esta realidade mudou radicalmente durante a última década. No panorama actual existem arquitectos a mais para concursos públicos a menos.]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><strong><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/03_em-constr_marcelino.jpg"><img class="alignnone  wp-image-870" alt="Espaço de circulação interior, em Fevereiro de 2013" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/03_em-constr_marcelino.jpg" width="700" height="562" /></a>Centro escolar de Fonte De Angeão, Vagos.</strong><br />
<strong> Projecto de Miguel Marcelino.</strong></p>
<p>Diz-se que no passado o percurso típico de início de carreira de um arquitecto promissor se resumia em quatro passos: concluir o curso, estagiar num <i>atelier</i>, ensaiar-se em concursos públicos e, vencendo algum com certa dimensão, estabelecer um escritório em nome próprio. Esta realidade mudou radicalmente durante a última década. No panorama actual existem arquitectos a mais para concursos públicos a menos. O caso de Miguel Marcelino é uma excepção em que o modelo ainda se aplica. No seu currículo aquele percurso é claro e complementado com um aspecto cuja ausência tende a pôr em causa a eficácia do processo: a materialização dos projectos em obra. Num momento em que a construção abrandou dramaticamente, a obra do Centro Escolar de Fonte de Angeão é um exemplo onde resiste um certo modo de pensar a arquitectura, a possibilidade de estabelecer actividade própria de arquitectura e, também, uma forma positiva de construir um território educativo.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p><b>Vagos, capital do concurso público</b></p>
<p>Durante 2008, na área de competência da Secção Regional Norte da Ordem dos Arquitectos, foram publicados em <i>Diário da República</i> 36 concursos públicos de concepção de arquitectura e urbanismo. Entre estes, apenas sete foram previamente comunicados à OASRN e tiveram o seu apoio ou assessoria técnica, e cinco entre estes foram promovidos pelo município de Vagos para a construção de quatro novos centros escolares e para a requalificação de um já existente. O galardão pode ser contestado mas, naquele ano, Vagos ocupou o centro das atenções de muitos escritórios de arquitectura. No total, foram entregues ao município 163 propostas, repartidas pelos diferentes centros escolares a concurso.</p>
<p>Os regimes de excepção previstos no Código de Contratação Pública permitiam ao município recorrer ao ajuste directo para contratação destes serviços de projecto, o que tornou o processo singular. A opção pelos concursos públicos respondia à vontade de que este conjunto de obras pudesse constituir uma “referência no panorama da Arquitectura Portuguesa”. Na perspectiva da Câmara, o balanço da experiência é positivo: a contribuição da Ordem dos Arquitectos foi importante para o cumprimento do calendário apertado que se tinha estabelecido, e a participação de membros externos ao município nos júris foi fundamental para a credibilidade e transparência dos resultados do concurso, valorizando o processo administrativo da operação.</p>
<p><b>Um território educativo</b></p>
<p>O Centro Escolar de Fonte de Angeão está localizado num território de urbanização contínua de baixa densidade, organizada de forma linear ao longo das vias. Entre as casas divisam-se logradouros estreitos e muito profundos, de uso agrícola, que dominam a paisagem. Em vista aérea confirma-se que este padrão se repete por todo o município, exceptuando na vila de Vagos, a norte, relativamente mais densa. Perante a paisagem, a dimensão do novo centro escolar causa alguma estranheza, embora a escolha do lugar para a construção seja justificada nos desígnios da Carta Educativa do Concelho de Vagos, datada de Maio de 2006, que funciona como “instrumento de planeamento e ordenamento dos edifícios e equipamentos educativos do concelho e que visa desenvolver o processo de agrupamento das escolas, de forma a obter uma coerência satisfatória com a política urbana do concelho, no presente e no futuro”. Este documento estipulou a redução das 46 escolas existentes para cinco, mantendo-se apenas uma existente (que será ampliada) e construindo quatro novos edifícios. Desta concentração espera-se a optimização de recursos materiais e humanos, a melhoria das taxas médias de ocupação dos equipamentos e a reorganização dos transportes escolares. Só que, apesar dos concursos bem-sucedidos e do estabelecido na Carta Educativa, apenas se encontram em construção os centros de Fonte do Angeão e da Gafanha da Boa Hora, cujo projecto vencedor do concurso é da autoria do <i>atelier</i> António Portugal e Manuel Maria Reis.</p>
<p><b>Um ‘Atelier’ Em Construção </b></p>
<p>Miguel Marcelino concluiu o curso de Arquitectura na Universidade Autónoma de Lisboa em 2005, e nesse ano foi distinguido com o Prémio Secil de Arquitectura – Universidades.</p>
<p>No ano anterior tinha trabalhado no escritório Herzog &amp; de Meuron, em Basileia, na Suíça, e depois da licenciatura até 2007 estagiou com Bonell &amp; Gil, em Barcelona. A sua primeira encomenda foi em Portugal (<i>Casa sobre um Armazém</i>, cuja construção está agora em fase de conclusão), e nesse momento teve vontade e oportunidade para se dedicar a tempo inteiro aos seus próprios trabalhos. Em 2008, como sintetiza no seu currículo, “de volta a Lisboa, estabelece <i>atelier</i> próprio e vence o seu primeiro concurso público”.</p>
<p>O <i>atelier</i> de Miguel Marcelino é uma estrutura doméstica – um espaço anexo à sua própria casa – onde se ocupa deste projecto e de outros mais recentes. O processo de concurso do Centro Escolar seguiu os trâmites normais, prolongados, de homologação e contratação. Só no final de 2009 é que se avançou com o projecto de execução e foi apenas no desenvolvimento desta fase que recorreu à colaboração de outro arquitecto. Segundo as suas palavras, a opção de manter um “<i>atelier</i> pequeno” não tem que ver com um “capricho ou idealismo romântico mas sim com questões económicas”, na medida em que uma estrutura maior (com maiores encargos de rendas, ordenados, equipamentos, etc.) implicaria lógicas de aceitação e procura de trabalho que poderiam não ser tão estimulantes ou eficazes para o exercício da arquitectura como a concebe. É uma opção intelectualmente comprometida, que garante a satisfação diária no trabalho desenvolvido, mas é uma opção que também promove um certo isolamento, intensificando um diálogo interior que lhe apraz. “A escrita é uma actividade a que gostaria de dedicar mais tempo, pois é fundamental para esclarecer uma série de dúvidas e questões.” Em todos os projectos repete um exercício: “Escrevo uma memória descritiva com um máximo de mil caracteres (incluindo espaços) para sintetizar e saber o que é importante.”</p>
<p>O Centro Escolar de Fonte de Angeão é a sua primeira obra pública e a grande protagonista, até à data, na construção deste <i>atelier</i>. Neste momento o seu maior desafio é acompanhar a obra, a cerca de 200 quilómetros de distância. No seu trabalho destaca-se igualmente o Museu da Música Mecânica, em Palmela<i> </i>(projecto que ganhou em 2011 num concurso por convites), actualmente em início de construção. O percurso de Miguel Marcelino mostra que, apesar da crise e do crescente descrédito na possibilidade de estabelecer uma carreira profissional – sobretudo entre os (muitos) jovens arquitectos portugueses –, ainda é possível ser arquitecto e construir em Portugal.</p>
<p><b>O Edifício</b></p>
<p>A grua gigante que se destaca na paisagem assinala o local da obra. Atravessando a vila, na mira da grua, encontra-se uma ribeira que delimita o pequeno aglomerado e demarca a frente de acesso ao centro escolar. O local está repleto de eucaliptos, de campos agricultados, e tem uma atmosfera límpida. Ao atravessar a ponte sobre a ribeira e contornando o estaleiro, é possível imaginar crianças e a comunidade local – o ginásio, as salas multiusos e de informática são também abertas à população local – a percorrer o caminho em ritmo de passeio ou de bicicleta. A obra confronta esta imagem pitoresca com vários volumes “cegos”, alinhados e repetidos, que se afirmam na paisagem à semelhança de uma operação <i>land art</i>. A subtileza do material de revestimento da construção (tijolo cerâmico de cor idêntica à da terra revolta), o ritmo e abstracção dos volumes, a escala controlada mas expressiva, e o rigor geométrico da implantação (em simetria perfeita a partir do eixo central) evidenciam a sensibilidade na interpretação da envolvente e na forma de a transformar.</p>
<p>A obra encontra-se a meio caminho, mas as características do edifício já são perceptíveis. No grande parque exterior, que prevê um paisagismo adequado às funções de recreio, destaca-se o grande paralelepípedo dentado da escola, onde uma generosa e elegante cobertura em consola marca a entrada no edifício e, ao mesmo tempo, oferece uma zona de recreio coberto. A entrada é seguida do refeitório e marca um eixo de luz nascente-poente que divide funcionalmente a escola em duas: a sul, o infantário; a norte, a escola básica. A meio, localizam-se os serviços comuns aos dois núcleos e à população: a biblioteca – com zonas específicas de leitura –, salas multiusos e o ginásio, que se destaca na cobertura, assinalando o centro do conjunto.</p>
<p>As juntas de dilatação nas paredes de tijolo, as instalações à vista com materiais e cor cuidadosamente escolhidos, as cofragens do betão, a quase inexistência de condutas, etc., caracterizam um edifício em que o detalhe é a própria construção. A estrutura do edifício – paredes duplas em betão armado aparente, no interior, e tijolo de face à vista sem nenhum acabamento, no exterior – está já concluída e revela uma imagem muito próxima do que será o futuro edifício: um corpo desmultiplicado pela alternância de volumes que se sucedem entre pátios. Esta “franja” em blocos que caracteriza o perímetro resulta da vontade de suavizar a presença do volume na paisagem, mas contribui, igualmente, para o uso de técnicas de climatização passiva.</p>
<p>A forma segue o programa. Metodologicamente, o projecto aproxima-se da extrusão de um diagrama funcional concebido segundo o caderno de encargos do concurso. Cada bloco é uma sala autónoma com uma função específica que, por entre rasgos, se destaca do corpo central. As variações volumétricas destes blocos periféricos resultam da acomodação das diferentes áreas definidas pelo programa, com pequenos ajustes de composição. O estudo cuidado do programa permitiu ainda, em diálogo com o cliente, eliminar algumas salas por conterem funções redundantes.</p>
<p>Entre as duas áreas distintas (as salas e os espaços de serviço) estão os “corredores de recreio”. Por serem compridos, amplos (3,5 metros de largura) e sistematicamente rasgados para o exterior, criam uma antecâmara simultaneamente de estar e distribuição, com uma forte componente cénica e performativa. É neste caminho circular que a paisagem exterior é perceptível, porque, à excepção dos topos norte e sul (onde a opção foi abrir as salas para o exterior), as aberturas das restantes salas estão orientadas para a parede cega do bloco seguinte, onde a luz de sul é reflectida. Em cada sala, o exterior só é perceptível numa perspectiva diagonal, de modo a “criar um ambiente propício à concentração”, e a luz, também ela indirecta, ganha “uniformidade e profundidade”. As vistas francas para o exterior apenas se encontram no infantário e, quem sabe se como recompensa, nas salas dos alunos mais velhos.</p>
<p>A entrada em obra das carpintarias (nos caixilhos e pavimentos) e pontuais revestimentos de parede e tecto acústico são o ingrediente em falta para equilibrar o aspecto austero dos materiais aparentes. Marcelino afirma que, tal como na culinária, é o balanço entre os contrastes dos materiais que garante a riqueza e a qualidade do produto final – que aguardamos, com curiosidade, ver colorido pelas crianças, o que confirmará a vocação da arquitectura para participar na construção de um novo território.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Este artigo foi publicado no J-A 247, Mai — Ago 2013, p. 114-125.</p>
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		<title>A arquitectura ainda pode ser pública?</title>
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		<pubDate>Sat, 16 Mar 2013 00:00:59 +0000</pubDate>
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				<category><![CDATA[Em Construção]]></category>
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		<description><![CDATA[Museu dos Coches, Lisboa. Projecto de Paulo Mendes da Rocha  O projecto do novo Museu dos Coches foi lançado em 2008 para fazer coincidir a inauguração do edifício com as comemorações do Centenário da República em 2010. Este Inverno visitámos o estaleiro da obra, na zona ribeirinha de]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><strong><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/JA246_03_coches.jpg"><img class="alignnone  wp-image-216" alt="Terraços no contacto com as traseiras das casas da Rua da Junqueira" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/JA246_03_coches.jpg" width="700" height="500" /></a></strong><strong>Museu dos Coches, Lisboa. Projecto de Paulo Mendes da Rocha </strong></p>
<p>O projecto do novo Museu dos Coches foi lançado em 2008 para fazer coincidir a inauguração do edifício com as comemorações do Centenário da República em 2010. Este Inverno visitámos o estaleiro da obra, na zona ribeirinha de Belém. Praticamente pronto, o edifício continua vedado e o seu destino dado como incerto.</p>
<p align="center">* * *</p>
<p> O novo Museu dos Coches em Lisboa ocupa um terreno entre a Rua da Junqueira e a Avenida da Índia, vizinho ao do museu actual. O projecto, de Paulo Mendes da Rocha, está quase pronto: um grande pavilhão de exposições levantado do chão; um edifício anexo para os serviços administrativos, auditório e restaurante; uma passagem pedonal em rampas que ligam a Rua da Junqueira à Gare Marítima de Belém sobre a via rápida e a linha do caminho-de-ferro. Do plano original, só faltou construir o silo de estacionamento no outro lado da linha. Segundo o arquitecto brasileiro, o projecto responde a “duas questões básicas e primordiais”: acolher uma museologia eficaz, centrada na ideia de preservação, numa ‘caixa’ neutra onde se guarda o ‘tesouro’ profusamente ornamentado da colecção dos coches. E, “criar novos desenhos que abriguem, amparem e expressem hábitos, símbolos urbanos do tempo em que vivemos”. Esses ‘desenhos’ são percursos e formas que inter-relacionam a utilização dos diferentes espaços da cidade com as várias funções do edifício, apelando também à recomposição da memória cultural e arquitectónica da zona. São opções como redesenhar a rua do Cais da Alfândega Velha, limite da antiga praia de Belém, ou lançar uma passagem pública ao lado das zonas de exposição, com vista sobre elas. Para criar dinâmicas de “intriga entre o que está fora e dentro”, intriga entre as funções do museu e quem passa no lugar, intriga entre as formas construídas e a própria cidade.</p>
<p><b>Um arranque polémico</b></p>
<p>Em 2008, o ministro da Economia Manuel Pinho liderou o processo do projecto do novo Museu dos Coches. As verbas desta operação resultaram de contrapartidas financeiras do novo Casino de Lisboa, na Expo. Foi motivo suficiente para suscitar desentendimentos entre tutelas, uma vez que o Ministério da Cultura não tinha sido consultado e a Câmara Municipal de Lisboa entendia ser mais oportuno fazer o investimento noutros museus. Vários institutos públicos manifestaram-se contra a demolição das Oficinas Gerais de Material do Exército, alegando efeitos “devastadores e com graves consequências para os monumentos e museus adjacentes”, porque essa opção obrigava à reestruturação de colecções e instituições. A biblioteca do Instituto Português de Arqueologia estava nas antigas oficinas; o então Ministério da Cultura assegurou acomodá-la na Cordoaria Nacional, tutelada pelo Ministério da Defesa. O núcleo de Arqueologia Subaquática foi transferido para o Museu de Marinha; outras mudanças foram imprescindíveis. Entre petições ‘pró’ e ‘contra’, centenas de personalidades da cultura e arquitectura portuguesas manifestaram a sua posição. No centro desse debate não estava apenas o projecto mas, sobretudo, o estado de ruína financeira do sector dos museus. Apesar da polémica, vingou a decisão de construir o novo Museu dos Coches. O actual museu é o mais visitado de Portugal, com uma das maiores colecções do género no mundo, mas as actuais instalações não favorecem a sua exposição nem permitem o desenvolvimento do espaço.</p>
<p><b>O folhetim da encomenda</b></p>
<p>Como muitas vezes acontece, a encomenda deste projecto resolveu-se num jantar. Reza a lenda que o ministro Manuel Pinho encontrou ocasionalmente Álvaro Siza e Eduardo Souto de Moura. Contou-lhes que a dupla suíça Herzog &amp; de Meuron tinha declinado o convite para fazer o projecto por o prazo previsto para a execução ser curto e que em alternativa estava a pensar convidar a arquitecta Zaha Hadid. O convite a Paulo Mendes da Rocha ficou a dever-se à persuasão dos arquitectos portugueses, que convenceram o ministro a optar pela adjudicação directa do projecto a alguém com afinidades culturais relevantes. O arquitecto brasileiro tomou em mãos o problema, visitou o local de intervenção, debateu o programa e esboçou o esquema de um projecto possível (na forma simples de uma ‘maqueta de papel’, como costuma fazer). Ideia aceite, o contrato foi assinado e constituiu-se uma equipa de projecto, com os arquitectos paulistas MMBB, Ricardo Bak Gordon em Lisboa e o engenheiro Rui Furtado, para coordenar as especialidades através da Afaconsult, no Porto.</p>
<p><b>Um contrato por etapas</b></p>
<p>A gestão das verbas e do projecto ficou a cargo da Frente Tejo, sociedade responsável pela requalificação da zona ribeirinha de Lisboa, que negociou um contrato de projecto com limites orçamentais explícitos e organizado em duas fases. Uma primeira, que desenvolveu a ideia inicial ao ponto de estabelecer um valor rigoroso para o custo da obra. Esta fase foi maioritariamente desenvolvida em São Paulo, com o arquitecto e engenheiro portugueses envolvidos intensamente na discussão das soluções. O resultado foi um projecto bastante detalhado, no qual se chegou à conclusão de que o custo do edifício, com uma nave de exposições de 150 metros, estava ligeiramente acima da verba disponível (31,5 milhões de euros). Só após esta fase é que se contratualizou o projecto de execução, que foi desenvolvido em Lisboa e no Porto.</p>
<p>Paulo Mendes da Rocha continua a referir-se à nave de exposições como tendo 150 metros, apesar de ter sido reduzida para 132 metros para equilibrar o custo da obra. Também nessa fase de desenvolvimento, o silo de estacionamento foi ‘chumbado’ e retirado do projecto. A ambição desse programa complementar era infra-estruturar a zona com 400 lugares de estacionamento. O silo dispunha também de uma cafetaria com vista sobre o Tejo e Belém. Apesar de ser previsível a possibilidade de um contrato de concessão-construção-exploração, o município obstou a essa ambição.</p>
<p>O projecto, na senda da arquitectura paulista em que se inscreve Paulo Mendes da Rocha, foi concebido para ser em betão à vista. A sugestão de substituir o betão por uma estrutura metálica partiu do engenheiro. Tendo em conta o curto prazo previsto para a construção, as características dos aterros onde assentam as fundações, o risco de actividade sísmica e a necessidade de integrar sistemas de controlo ambiental complexos, um sistema construtivo leve fazia mais sentido. Foi pensada uma “estrutura metálica monolítica, agarrada no centro e deslizante nos apoios periféricos, com paredes ligeiras em painéis de gesso cartonado”. A solução permitiu, segundo Rui Furtado, “não ter de haver submissão de qualquer especialidade – todas as necessidades funcionais e mecânicas do edifício foram colhidas com simplicidade pela sua ideia original – simplesmente já estava tudo pensado!”. Seguiu-se uma obra rápida e eficaz, sem conflitos de coordenação e sem surpresas. A única surpresa é que, quase pronta, a obra teima em não se concluir.</p>
<p><b>O que está entre “tapumes” </b></p>
<p>O novo Museu dos Coches é composto por dois volumes (o “pavilhão” e o “anexo”) ligados por uma ponte (o “<i>cockpit</i> da segurança”). Os volumes estão pousados numa praça de uso informal, extensão do passeio público onde se organiza o complexo. A praça é uma superfície contínua em cubo de granito que avança por debaixo dos volumes, e por entre a cidade, formando um vazio que se torna o epicentro do projecto.</p>
<p>A disposição em pórtico dos edifícios e a sua relação com um muro, que acomoda o tecido urbano e redesenha os limites da antiga praia de Belém, cria um “efeito de concha” que projecta para dentro deste vazio o “centro” do museu. Bak Gordon diz-nos que “o verdadeiro projecto é o trabalho do espaço público; é o desenho das rampas, das escadas, das aberturas, as transparências, as relações directas e visuais que se estabelecem entre os vários elementos do Museu”. O verdadeiro projecto não é o edifício do museu, mas o facto de este, através do “anexo”, coser a malha da cidade e destacar o “pavilhão” como um grande tesouro (um paralelepípedo de 132 m por 48 m por 12 m, elevado do chão por 14 pilares circulares).</p>
<p>As bilheteiras e sanitários estão ao nível da rua, integrados no único elemento opaco por debaixo do pavilhão, onde também ficam as reservas, os serviços e a oficina de restauro. Esta sala apresenta grandes rasgos horizontais, paralelos à Avenida da Índia, que expõem publicamente os trabalhos de restauro executados no museu. Na frente poente está a “cafetaria popular”, transparente, com um balcão de 30 metros que recebe e oferece uma vista ampla para os jardins de Belém, em relação com as vias de circulação rápida e com a passagem pedonal. Virar a cafetaria para Belém é ligar o espaço do museu aos jardins, ao Centro Cultural de Belém (CCB), aos Jerónimos e oferecer outras possibilidades para a praça interior. Bak Gordon complementa: “Não desenhámos a cafetaria para dentro porque se acredita que algumas das casinhas que estão viradas para o centro da praça se vão converter em cafés, pequenas casas de petiscos, etc.” Do lado oposto à cafetaria, também debaixo do “pavilhão”, está o núcleo de elevadores (dois, para 75 pessoas cada), o bengaleiro e a loja, que formam um espaço amplo, totalmente envidraçado e permeável em relação à praça. Paulo Mendes da Rocha explica que “o museu não tem porta e relaciona-se para todos os lados”.</p>
<p>O auditório está ao nível da praça mas sob o “tecto” do “anexo” – uma estrutura porticada em betão pré-esforçado que apoia, ao nível do primeiro piso, dois corpos em aço e vidro com a direcção e o restaurante. O auditório é um volume em betão, pintado numa cor rosa semelhante à dos edifícios apalaçados de Lisboa, que, segundo o arquitecto, permite “mostrar que os coches e os meios de transporte do passado são aspectos da vida da cidade”. Em contraponto com outros palácios cor-de-rosa ou com as salas de espectáculo do CCB, no outro lado do “logradouro histórico” de Belém, o auditório é concebido como uma “bancada popular,” em betão e bancos de jardim contínuos, com amplas portas de correr para permitir desfilar sobre o mesmo pavimento coches a cavalo, carros desportivos, ou qualquer outro acontecimento.</p>
<p>O que salta à vista é a musculatura dos edifícios. O modo como a estrutura é assumida resulta de uma lógica “pedagógica”, mais que estética ou meramente formal. Reflecte uma ideologia, a de Paulo Mendes da Rocha, na procura de uma expressão verdadeira das coisas. A materialidade da obra não esconde o esforço e o trabalho implicados na sua execução, a pele não oculta a forma que a constrói. A força do betão dá expressão à tradição “brutalista” da arquitectura paulista, um universo de contrastes e oposições onde os diferentes elementos se enaltecem ou, nas palavras do arquitecto, “umas coisas protegem as outras”. É difícil imaginar um espaço que melhor servisse a exposição da exuberante colecção de Coches Reais. E, actualizando o sentido da palavra, pode dizer-se que o impacto que se tem ao entrar nesse espaço é “brutal”.</p>
<p>A nave expositiva é desprovida de qualquer decoração e caracteriza-se por duas grandes salas (125 m × 17,25 m cada), com um amplo pé-direito (8,28 m), pavimento contínuo em betão afagado e paredes brancas pontualmente interrompidas por vãos (rasgos horizontais nos topos e duas grandes aberturas no eixo transverso) ou vitrinas (cujas formas derivam da configuração das treliças metálicas estruturais). O tecto suspenso em gradil metálico branco recobre as infra-estruturas do edifício. Entre as duas salas existe uma terceira nave, que alberga serviços e circulações, de atravessamento, de serviço e de emergência, os dois elevadores públicos e o monta-coches. O piso expositivo está articulado para permitir “um quarto de visita”, “meia visita” ou “visita completa”. Estas visitas podem variar entre 15 minutos ou duas horas e meia, garantindo possibilidade de consolidar um programa museológico criativo.</p>
<p>Para uma visita especial, o museu oferece um percurso que começa na subida das escadas que forma o corpo saliente a meio da fachada sul, atravessa as galerias sobre as coberturas dos coches, até ao corpo anexo. O circuito pode funcionar independente da actividade regular do museu e liga à direcção do museu. A “caixa da direcção”, no “anexo”, é envidraçada para o lado da praça. A “caixa do restaurante”, no mesmo corpo, é envidraçada para Belém. Entre as duas existe um vazio coberto por um grande tecto em lanternim, que ilumina o espelho de água na cobertura do auditório. Partindo da Rua da Junqueira, as rampas da galeria pedonal atravessam este espaço. As varandas exteriores que ligam os dois corpos oferecem espaços de contemplação, ou de intriga, entre o dentro e o fora do museu. E somos de novo transportados para a praça, em torno da qual tudo gravita.</p>
<p><b>O museu sem coches</b></p>
<p>O edifício está quase pronto e aguarda apenas uso. Mais que um museu, o projecto funciona como uma infra-estrutura urbana, que oferece ‘espaço público’ à cidade. O complexo foi pensado para dar um novo sentido a Belém, fazendo companhia aos Jerónimos no sentido de modernidade e no potencial futuro que representa. Para além da competência funcional dos espaços, das formas e dos percursos, o novo Museu dos Coches oferece a Belém outra carga simbólica quanto ao uso e destino colectivo da cidade. Paulo Mendes da Rocha diz que o projecto “é a memória da cidade na sua instabilidade histórica”. A obra coloca a cidade informal ao lado da cidade monumental, encenando diferentes tempos e poderes, diferentes ideologias e acções políticas. É um manifesto da pólis. E o estado de indefinição em que se encontra, uma representação cruel de uma encruzilhada política.</p>
<p>Num desabafo, Paulo Mendes da Rocha diz que “está mais difícil tirar os tapumes do que iniciar a obra”. Até agora foram gastos cerca de 30 milhões de euros, falta apenas concluir a galeria pedonal que liga à Avenida da Índia e avançar com o projecto expositivo. Este, desenvolvido pelo arquitecto Nuno Sampaio, já foi amplamente debatido com a direcção do museu. A expectativa é tirar o máximo partido da colecção, integrando uma parte que agora está em Vila Viçosa. E não bloquear o progresso deste museu enquanto “máquina de cultura” com a maior receita de bilheteira no país. As novas instalações vão aumentar esse número, incluindo ainda oficinas de restauro com qualidades únicas e capazes de estabelecer protocolos com uma indústria do restauro que se tem vindo a desenvolver em Portugal. O novo edifício tem condições de excelência para o restauro de vários materiais, como talha dourada, couros, metais, pintura, tecidos, etc. E ainda condições privilegiadas para potenciar o turismo: um espaço público que se articula com o comércio local e lojas afectas ao museu, um auditório com óptima relação com a nova praça, e outras tantas coisas que o magnetismo barroco dos coches pode potenciar. Na sua clareza, a obra de Paulo Mendes da Rocha tem verdadeiro valor público e cria condições para o desenrolar das mais diversas iniciativas. Compete ao Estado, que lançou o processo, demonstrar que está ao nível do desempenho desta arquitectura. E tomar as decisões necessárias para avançar com a economia do turismo, e da cidade, em Belém. No impasse presente, fica de Paulo Mendes da Rocha: “Talvez Portugal tenha medo da aventura que ele próprio desencadeou.”</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Este artigo foi publicado no J-A 246, Jan — Abr 2013, p. 26-37.</p>
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