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	<title>Jornal Arquitectos &#187; Correspondentes</title>
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		<title>OCUPE ESTELITA</title>
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		<pubDate>Wed, 06 May 2015 08:00:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>edit</dc:creator>
				<category><![CDATA[Correspondentes]]></category>
		<category><![CDATA[252]]></category>
		<category><![CDATA[DIEGO INGLEZ DE SOUZA]]></category>

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		<description><![CDATA[Ao longo dos quase cinco séculos de história da capital pernambucana, foram muitas as vezes em que se anunciou um “Novo Recife”. Desde a Batalha dos Guararapes, passando pelas insurreições do período colonial, imperial e republicano, ditatorial ou democrático, também foram muitas as lutas que envolveram o “Povo dos Arrecifes” e que tiveram a cidade como cenário de embates, conflito, resistência e conquistas.]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><b><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/correspo700_01.jpg"><img class="alignnone  wp-image-3107" alt="Um dia após o Ocupe Estelita, alguém apagou as frases escritas pelos activistas, mas o conflito permanece. Fotografia Direitos Urbanos / Divulgação. https://direitosurbanos.wordpress.com/" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/correspo700_01.jpg" width="700" height="424" /></a>O CAIS JOSÉ ESTELITA</b></p>
<p>Ao longo dos quase cinco séculos de história da capital pernambucana, foram muitas as vezes em que se anunciou um “Novo Recife”. Desde a Batalha dos Guararapes, passando pelas insurreições do período colonial, imperial e republicano, ditatorial ou democrático, também foram muitas as lutas que envolveram o “Povo dos Arrecifes” e que tiveram a cidade como cenário de embates, conflito, resistência e conquistas.</p>
<p>Nos dias que correm, foi um consórcio de construtoras que arrematou uma porção significativa de terrenos no Cais José Estelita, próximo do centro histórico da cidade. O consórcio pretende construir uma dúzia de edifícios com cerca de 40 andares cada, equivalentes aos que brotaram como cogumelos na paisagem da cidade a partir de meados dos anos de 1990. Com o progressivo interesse do mercado imobiliário pelo centro histórico da cidade, consequência dos problemas crónicos de mobilidade que a cidade enfrenta quotidianamente, o que era figura – o panorama da Mauriceia retratada por Franz Post, com as suas igrejas barrocas, as arquitecturas eclécticas do século XIX e modernistas do século passado – passa a ser fundo, para usar os termos do arquitecto e urbanista Luiz Amorim.</p>
<p>Bem perto do Cais José Estelita há exemplos concretos deste modelo de empreendimento: das famigeradas “Torres Gémeas” (erguidas abruptamente num processo carregado de irregularidades e transacções nebulosas), à construção de vários espigões na Rua da Aurora, passando pelos diversos projectos para a outrora favela de Brasília Teimosa, na outra margem do estuário, onde surgiram nos últimos dez anos diversas novas torres revestidas a vidro e chapa metálica. Ao deparar-se com tal dinamismo aparente do mercado imobiliário, o estrangeiro perguntar-se-á certamente se na cidade circula tanto dinheiro que possa comprar e manter tantos apartamentos e escritórios de luxo.</p>
<p>Quase sempre construídas aos pares, estas torres de vidro espelhado e alumínio lembram pilhas alcalinas em prateleiras de supermercado, cujas vendas e promoções também são anunciadas nos jornais e na televisão. Símbolos de um certo vigor da construção civil e dos negócios imobiliários da capital pernambucana, estes novos edifícios acabam por acentuar os contrastes na paisagem de uma cidade que convive há décadas com uma crise habitacional crónica, que, nos anos de 1970, lhe valeu o apelido de Mucambópolis.</p>
<p><b>DA PRODUÇÃO CULTURAL À LUTA URBANA</b></p>
<p>A Manguetown da década de 1990, hoje Hellcife, é epicentro de uma produção cultural múltipla, que irradia e acolhe expressões significativas, não só para a região mas para todo o Brasil. Essas expressões culturais são muitas vezes construídas sobre as tensões e os conflitos urbanos que se cristalizam em bairros da cidade. Filmes recentes da mais nova geração de cineastas pernambucanos, como <i>O Som ao Redor</i> (2012), de Kléber Mendonça, ou os documentários <i>Um Lugar ao Sol</i> (2009) e <i>Avenida Brasília Formosa</i> (2010), de Gabriel Mascaro, nutrem-se precisamente dos embates característicos destes territórios urbanos e das suas fronteiras, tendo por assunto os atritos entre visões do mundo dissonantes e as suas consequências no espaço urbano. São episódios de uma incrível saga dos homens-caranguejos contra os tubarões da especulação imobiliária, história que opõe distintos projectos de cidade e leituras antagónicas da paisagem e do que é o “património” histórico e natural. É um conflito que hoje atinge o centro geográfico e político da cidade, mobilizando questões fundiárias, económicas e urbanísticas.</p>
<p>É neste contexto que se forma o movimento <a title="OCUPE ESTELITA" href=" https://direitosurbanos.wordpress.com/">Ocupe Estelita</a>, organizado a partir de 2012 para questionar o projecto Novo Recife e impedir as demolições dos armazéns que ocupam o Cais, iniciadas sorrateiramente pelas empresas construtoras numa madrugada de 2014. A reivindicação parece tão justa quanto simples: criar canais de participação popular nas dinâmicas de construção da cidade, habitualmente monopolizadas pelas grandes empresas construtoras, que, por vezes, se associam ao poder público através de artimanhas de gabinete. Ao promover a presença física da população, seguindo modelos de acampamento inspirados em movimentos de ocupação estrangeiros, as actividades propostas pelo <a title="OCUPE ESTELITA" href=" https://direitosurbanos.wordpress.com/" target="_blank">Ocupe Estelita</a> acabaram por construir situações ímpares de encontro entre os habitantes empobrecidos da região e ocupantes efémeros que organizaram aulas abertas, oficinas, debates, concertos e espectáculos. Estes espaços residuais, pouco presentes no quotidiano dos recifenses, ganharam uma nova vitalidade. O movimento <a title="OCUPE ESTELITA" href=" https://direitosurbanos.wordpress.com/" target="_blank">Ocupe Estelita</a> promoveu o encontro da classe média, profissionais da cidade e das universidades, com a população local, tendo como objectivo pensar um projecto alternativo para a área dos armazéns do Cais José Estelita e do pátio de manobras ferroviárias, reclamando o seu “direito à cidade”.</p>
<p>A principal inovação na forma que esta luta tomou talvez seja o facto de contar com a colaboração activa de juristas como urbanistas, “judicializando” o conflito e utilizando como recurso os limites e caraterísticas das leis, desta vez em favor das reivindicações populares. Assim, conseguiram obter vitórias expressivas, e contribuir também para ampliar os debates para além dos círculos restritos dos profissionais da cidade – o que eram argumentos especializados entre engenheiros, urbanistas, arquitectos, políticos e outros técnicos ao serviço de empresas privadas ou públicas foi amplamente partilhado. Os campos mais diversos foram capazes de produzir crítica e pensamento em torno da inviabilidade deste “Novo” Recife. Esse debate, hoje disponível <i>online</i> através da plataforma Direitos Urbanos, impressiona pela sua consistência, a que não é estranho o facto de ter tido a colaboração de diversos professores, activistas e intelectuais envolvidos com o urbanismo no seu sentido mais amplo.</p>
<p><b>UMA CIDADE PARA TODOS</b></p>
<p>Os conflitos continuam: enquanto o grupo de empresas construtoras parece associar-se ao município para escudar o avanço do projecto, o <a title="OCUPE ESTELITA" href=" https://direitosurbanos.wordpress.com/" target="_blank">Ocupe Estelita</a> conta com o apoio do Ministério Público Federal e de órgãos de salvaguarda do Património Histórico e Cultural para tentar preservar o direito à paisagem e aos diversos monumentos do lugar. Um dos recursos fundamentais com que contam os activistas é o pedido de classificação do pátio ferroviário, dos carris e equipamentos que constituem testemunhos materiais da implantação da segunda ferrovia brasileira, já de 1855-1858. Ao mesmo tempo, a recente declaração do prefeito da cidade, de que não haveria lugar para “boquinha” e que o projecto “iria subir”, evidencia o comprometimento dos políticos locais com um projecto mercantilista de cidade. O Ministério Público Federal considera “prematura e inoportuna” a aprovação pela Prefeitura do projecto de lei para a área, em virtude da importância do património histórico em jogo e dos impactos ambientais desta iniciativa pretensiosa.</p>
<p>Por entre a turbulência das crises económicas e políticas que agitam o Brasil, entre elas os escândalos de corrupção pelo financiamento de campanhas eleitorais por grandes empresas e construtoras que, mais tarde, esperam receber favores e oportunidades de conveniência, nada parece estar definido no panorama do Recife. Ainda que a história da capital pernambucana mostre que foram muitas as vezes em que a transformação radical da paisagem da metrópole tropical se cumpriu por caminhos tortos, os próximos capítulos desta novela rocambolesca ainda não foram escritos. A originalidade do movimento <a title="OCUPE ESTELITA" href=" https://direitosurbanos.wordpress.com/" target="_blank">Ocupe Estelita</a> está a tornar-se uma referência para as lutas urbanas, e a cidadania está a conquistar terreno no Recife.</p>
<p>Este texto foi publicado no J-A 252, Jan–Abr 2015, p. 586–589.</p>
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		<title>MIGALHAS</title>
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		<pubDate>Wed, 11 Feb 2015 10:56:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>edit</dc:creator>
				<category><![CDATA[Correspondentes]]></category>
		<category><![CDATA[251]]></category>
		<category><![CDATA[Tiago P. Borges]]></category>

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		<description><![CDATA[No conto dos irmãos Grimm, a madrasta de uma família pobre planeia abandonar os irmãos Hänsel e Gretel durante um passeio pela floresta. Hänsel, ao descobrir os planos da madrasta, vai deixando cair migalhas de pão pelo caminho, na esperança de mais tarde conseguir regressar a casa; porém, não contava que os pássaros lhe petiscassem o trilho semeado, condenando o regresso ao fracasso. ]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;" align="right"><b><i><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja251_site_07lausanne_7001.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2783" alt="Ernst Neufert, Bugnaux-sur-Rolle, Suíça, Fotografia: Karl Hugo Schmölz / Hatje Cantz" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja251_site_07lausanne_7001.jpg" width="700" height="500" /><b><i></i></b></a><b><i><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja251_07_neufert_plantas_v7_Piso-1-copy.png"><img alt="Piso 0" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja251_07_neufert_plantas_v7_Piso-1-copy-700x500.png" width="700" height="500" /></a></i></b><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja251_07_neufert_plantas_v7_Piso-1.png"><img class="alignnone  wp-image-2786" alt="Piso 1" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja251_07_neufert_plantas_v7_Piso-1-700x500.png" width="700" height="500" /></a></i></b><strong>A casa de Ernst Neufert em Bugnaux-sur-Rolle</strong></p>
<p align="right"><b><i>“Eu quero comer um pedaço do telhado e tu, Gretel, podes comer da janela, que é doce.” Hänsel subiu lá acima e tirou um pedaço do telhado para o provar e ver a que sabia, enquanto Gretel se apoiou na janela e começou a mordiscar os vidros.</i></b></p>
<p align="right"><b><i></i></b><em id="__mceDel">Jakob e Wilhelm Grimm, <i>Hänsel e Gretel</i></em></p>
<p>No conto dos irmãos Grimm, a madrasta de uma família pobre planeia abandonar os irmãos Hänsel e Gretel durante um passeio pela floresta. Hänsel, ao descobrir os planos da madrasta, vai deixando cair migalhas de pão pelo caminho, na esperança de mais tarde conseguir regressar a casa; porém, não contava que os pássaros lhe petiscassem o trilho semeado, condenando o regresso ao fracasso. Perdidas na floresta, as duas crianças descobrem uma outra casa, feita de chocolate e guloseimas, que, famintas, começam a devorar, e a história tem um final feliz.</p>
<p>Por um outro caminho, entre Genebra e Lausanne, são poucas as “migalhas” que nos permitem descobrir uma obra peculiar de Ernst Neufert, um arquitecto cujo nome é por demais conhecido. É preciso sair da estrada principal, ziguezaguear por entre colinas entalhadas de videiras, para chegar a um bosque, ao norte de Bugnaux-sur-Rolle, onde o arquitecto concebeu uma casa para a sua família, que construiu em 1963 e onde veio a falecer 23 anos mais tarde.</p>
<p>Neufert é um nome familiar a muitas gerações de arquitectos, graças ao livro que publicou em 1936, <i>Bauentwurfslehre </i>(na tradução portuguesa <i>A Arte de Projectar em Arquitectura</i>), conhecido simplesmente como “o Neufert”. O livro foi concebido como um repertório exaustivo de informação sobre princípios construtivos, de dimensionamento e de utilização de materiais. A organização concisa e o inventário essencialmente visual transformaram este livro numa ferramenta incontornável no seu género. É nas páginas desta publicação, no capítulo dedicado a casas para terrenos em declive, e apenas nas edições pós-1960, que se encontra a primeira migalha para descobrir a casa em Bugnaux.</p>
<p>Numa edição de 1961 de uma outra publicação da sua autoria – <i>Bauordnungslehre</i>, um manual para a construção racional –, já Neufert tinha deixado outra migalha para os seus leitores. A mesma casa, intitulada Le Croset, foi aí publicada numa versão intermédia do projecto. Num terreno orientado a sul e pousada sobre uma trama de 1,25 por 1,25 metros, a planta desenhava um L, com divisões secundárias a norte e um corredor como charneira de acesso aos compartimentos principais, virados para o lago Leman. A entrada era franca e, depois de atravessar a sala de estar, o desenho da casa oferecia um rasgo visual sobre a paisagem. Hoje, ao chegar a Bugnaux, é fácil perceber que o projecto construído se afastou dessas características iniciais. A casa construída aninha-se indiferente ao muro de pedra que encerra o terreno. Para a rua, apresenta a entrada da garagem que a pala do telhado acentua com drama e despropósito. Sobre o protagonismo deste tipo de programa, numa edição de 1951, Neufert escreveu no seu manual:</p>
<p align="center"><b>A garagem constitui hoje o elemento primordial da casa moderna, ao mesmo nível que a casa de banho.</b></p>
<p>A afirmação poderia ser um sinal gracioso dos tempos a que o arquitecto se manteve fiel. Mas a timidez do projecto é avessa às deduções, e o espaço que acolhe a chegada à casa contradiz outra das suas afirmações manualísticas:</p>
<p align="center"><b>A entrada determina a fisionomia de uma casa. É lá que o visitante tem a sua primeira impressão, é necessário que tudo seja bem estudado.</b></p>
<p>À direita da garagem, um percurso estreito permite caminhar ao longo da parede exterior, em tijolo aparente, e desemboca no alpendre de entrada, que resulta de uma segunda excentricidade do telhado. Uma janela estreita, rasgada e elevada, deixa adivinhar que as intenções do primeiro projecto foram preservadas no que toca à distribuição do programa. Na organização da planta compacta que foi finalmente construída, a casa não deixa transparecer o somatório de vários programas relativamente autónomos. Ao nível da rua, desenvolve-se a habitação principal e, no piso inferior, ao nível do jardim, existe um <i>atelier</i>, uma segunda habitação e o estúdio. A planta rectangular resulta da justaposição de um inventário quase exaustivo de funções organizadas em dois pisos, cada uma com repartições claras, transformando o projecto numa sinfonia de portas e paredes que dão razão de ser à legenda dos desenhos. Não há invenção. Há, isso sim, uma fidelidade à proposta normativa da casa:</p>
<p align="center"><b>Uma sucessão das divisões que vão desde a entrada à cozinha, depois à sala de jantar, ao lado da qual está o estúdio, e do qual voltamos ao vestíbulo.</b></p>
<p>Cada espaço parece responder à rigidez funcional que dele se exige, e a generosidade foi remetida para a vista panorâmica sobre o lago e ao eirado avantajado que abraça a quase totalidade do piso superior. Aliás, este eirado foi um dos elementos preservados do projecto inicial, onde era já a pedra-de-toque da casa. É uma massa construída a partir do parapeito que domina a fachada, que acentua a horizontalidade do volume e contrasta com os grandes envidraçados, desenhados a pensar no lago e na paisagem.</p>
<p>É na cobertura que se observa a mudança radical entre os dois projectos. As lâminas horizontais da cobertura plana dos desenhos de 1961, que acentuavam a presença horizontal do volume, foram substituídas por um telhado de várias águas que se transforma no tema maior da casa. Foi no telhado que Neufert investiu para marcar as entradas com o prolongamento das abas, ao integrar as caleiras salientes e angulares, e ao acentuar os cantos desnecessariamente bicudos. A sua estrutura em betão armado assenta em apenas seis pontos. A <i>performance </i>do telhado também nos remete para outros projectos anteriores de Neufert, como a cantina na fábrica Glaswerke Schott (1951-60) ou a Wasserbauhalle (1954-55), onde o desenho cuidado das coberturas produz ganhos significativos no espaço interior.</p>
<p>Depois de juntar as poucas migalhas que conduziram ao projecto da casa, o telhado gera espanto e perplexidade, tal como a descoberta da casa de chocolate. É o elemento que nos desarma, e o ponto de fuga onde se esgotam as respostas racionais que Neufert ensaiava sistematicamente nos seus edifícios industriais. É ainda o telhado que acaba por trair o anonimato da casa, que, na região, ficou conhecida como “o barco” ou “a casa chinesa”, por evocar influências orientais e exóticas. Se há casas inimigas das palavras, esta é uma delas. Faz-se difícil e sustenta-se em pequenas particularidades. A casa Neufert não é poética. É esquisita.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: left;" align="right">Este texto foi publicado no J-A 251, Set — Dez 2014, p. 502 – 505.</p>
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		<title>O ESPAÇO EXÍGUO</title>
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		<pubDate>Wed, 04 Feb 2015 14:00:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>edit</dc:creator>
				<category><![CDATA[Correspondentes]]></category>
		<category><![CDATA[251]]></category>
		<category><![CDATA[José Vale Machado]]></category>

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		<description><![CDATA[Os dados preliminares do censo que este ano foi feito em Angola apontam para uma população de 24 milhões de habitantes, dos quais 6,5 milhões vivem na província de Luanda.]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Os dados preliminares do censo que este ano foi feito em Angola apontam para uma população de 24 milhões de habitantes, dos quais 6,5 milhões vivem na província de Luanda. No entanto, algumas fontes não oficiais sugerem que na região, com uma área aproximada de 1550 km<sup>2</sup>, habita uma população de 8 milhões, resultando numa densidade populacional de 5 mil habitantes por quilómetro quadrado. Para compreender por analogia o que estes números representam, vale a pena recordar que a Área Metropolitana de Lisboa tem uma população de 2 milhões e 800 mil habitantes num território de 2950 km<sup>2</sup>, ou seja, uma densidade de mil habitantes por quilómetro quadrado. No espaço de um habitante de Lisboa vivem cinco em Luanda. Por absurdo, poderíamos dizer que em cada cama onde dorme um lisboeta dormem cinco luandenses.</p>
<p>Onde o espaço é exíguo, todo o pedaço de espaço é crucial e, logo, ocupado. É particularmente apetecível o espaço que aparentemente não tem dono (ou sobretudo aquele em que o dono são todos), porque não custa dinheiro, custa apenas atrevimento. Isto gera razões para afirmar que o metro quadrado de Luanda não é igual ao metro quadrado da Europa, é maior. E fazem-se no metro quadrado luandense muitas mais e impressionantes coisas, uma afirmação absurda, porque sabemos que metro quadro é metro quadrado.</p>
<p>Onde o espaço é exíguo, o tempo também o é. Vinte e quatro horas na Europa não são iguais a vinte e quatro horas em Luanda, onde cada hora é maior, mais longa, mais disponível. Se em Luanda o espaço é exíguo, o tempo também é exíguo.</p>
<p>Onde o tempo e o espaço são exíguos, simultaneamente, em conjunto e irmanados, tudo sofre com a pressão da exiguidade. Uma pressão densa, intensa, absoluta e dramática, uma vez que, quando rareia o acesso a um e a outro, se luta por um pedaço de espaço e de tempo como se fosse o último da nossa vida, com todas as consequências que daí advêm.</p>
<p>As evidências deste discurso abstracto encontram-se debaixo dos edifícios do tempo colonial, cujas galerias sombreadas permitiam percorrer a cidade confortavelmente. Hoje, esses espaços são ocupados pela expansão das lojas, pela construção de esplanadas ou pelo estacionamento de motorizadas, empurrando os peões para debaixo da inclemência do sol, para a exiguidade do passeio sobrante, ou directamente para a via de circulação automóvel. Encontramos outras evidências na ocupação de espaços verdes – sejam eles verdes, castanhos ou vermelhos de barro, pouco importa –, espaços onde antes se jogava à bola, se corria ou se conversava. Públicos ontem, privados hoje.</p>
<p>O mais dramático deste processo é que ele gera excluídos, somados ou multiplicados conforme aumenta a exiguidade, não registados nos livros ou computadores de qualquer órgão administrativo, passando a fazer parte de uma massa que, parecendo quieta ou imóvel, se mexe com a lentidão dos processos letais, como muitos que podemos encontrar na natureza, com consequências conhecidas: expelir, destruir, dizimar, revoltar, ignorar, negar&#8230; Excluir significa rejeitar, pôr de parte, dizer ao outro que não serve nem tem lugar entre nós, que não faz parte do projecto, que a sua opinião não vale e que, no final, nem voto pode ter, porque não tem papel que o identifique. Luanda é a cidade da exiguidade, onde cabem poucos e vivem muitos, ou sobrevivem. É uma cidade produtora de circunstâncias que todos, todos os dias, procuram resolver.</p>
<p>Aos arquitectos cabe, como sempre coube, a tarefa de pensar a ordenação do espaço e, com ela, a ordenação da sociedade. Não basta trazer fórmulas aprendidas, porque basta olhar à volta para ver como as ideias importadas do Brasil, de Portugal, da China ou de tantas outras geografias esbarram numa cultura sedimentada em princípios e valores de tempos imemoriais. Esses princípios e valores, mesmo não tendo sido escritos, ainda hoje prevalecem no momento em que milhões de decisões todos os dias são tomadas em Luanda, e a transformam. Podemos, sem miopia de arquitecto distraído, contribuir para a evolução do paradigma de ordenamento do território angolano e, assim, ser parte activa na melhoria das condições de vida desta população imensa. Para isso, é necessário muito e paciente trabalho.</p>
<p>Pensar esta exiguidade gera distância e permite olhar para a “cidade” dos arquitectos. Tantos em tão pouco espaço. Tantos para tão pouco trabalho. Tantos excluídos da sua esperança de arquitectar. Esses arquitectos excluídos arquitectam outras coisas e tentam ser reconhecidos por isso, numa esperança iludida, réstia de um certo orgulho, vaidade ou honra. Mas o que lhes está reservado é serem outra coisa que não arquitectos – razão para a qual estudaram e para a qual nós, a sociedade, lhes dissemos serem necessários. O que fazer agora que sabem o que não são?</p>
<p>Escondemos a vergonha e pomos parangonas sobre a perda de gente capaz, competente, e da qual se vai precisar um dia mais tarde. Sabe-se lá quando será necessária essa gente, que isso do futuro é coisa de vidente, oculta e misteriosa, que mais vale consultar em outras cartas que não as da topografia da profissão. Estas dizem-nos que não somos necessários, que estamos a mais, que valemos tanto como pouco ou nada. Valem-nos os prémios que recebemos orgulhosamente, fruto de actuações singulares. E nem isso sabemos usar.</p>
<p>A exiguidade a que estamos sujeitos atrofia, reduz e remete-nos para uma condição com que nunca sonhámos. Nós, arquitectos que fomos, ensinados a incluir, a juntar, a reunir, a sintetizar, a ordenar, somos hoje como as ruas de Luanda: confusos, tensos, fechados, emparedados na nossa miopia, na negação das circunstâncias. Dizemos que não fazemos, sem ouvir de facto, e assim nos excluímos do nosso maior desafio, da nossa maior realização que é a de servir (e não a de sermos servidos), de ouvir (e não a de sermos ouvidos), de pensar (e não a de sermos pensados) e, por fim, o desafio de sermos inclusivos, e não exclusivos, recuperando a esperança original e que nos faz sonhar.</p>
<p>Somos muitos e demasiados, mas somos o que somos porque assim nos fizemos e, por isso, somos responsáveis. Não nos podemos excluir da obrigação fundamental de arquitectos, a de incluir, para que sejam menos os arquitectos expelidos, destruídos, dizimados, revoltados, ignorados ou negados, num mundo que já não tem o tamanho que tinha. É exíguo. Será essa a nossa esperança?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Este texto foi publicado no J-A 251, Set — Dez 2014, p. 506 – 507.</p>
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		<title>AQUI NÃO HÁ ORDEM, SÓ ORGANIZAÇÃO</title>
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		<pubDate>Fri, 17 Oct 2014 09:00:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>edit</dc:creator>
				<category><![CDATA[Correspondentes]]></category>
		<category><![CDATA[250]]></category>
		<category><![CDATA[Nuno Almeida]]></category>

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		<description><![CDATA[Nas últimas décadas, o êxito da arquitectura holandesa não se ficou a dever (apenas) ao talento dos arquitectos holandeses. Nos anos de 1990, o investimento do Estado holandês na promoção da arquitectura foi amplo e estruturado, não se limitando à valorização de obras singulares que beneficiam escritórios de uma certa dimensão e/ou nome.]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Nas últimas décadas, o êxito da arquitectura holandesa não se ficou a dever (apenas) ao talento dos arquitectos holandeses. Nos anos de 1990, o investimento do Estado holandês na promoção da arquitectura foi amplo e estruturado, não se limitando à valorização de obras singulares que beneficiam escritórios de uma certa dimensão e/ou nome. Por exemplo, o programa VINEX promoveu mais de uma centena de projectos de habitação de grande escala, que beneficiaram um grande número de escritórios de diferente dimensão, prática e experiência. Em paralelo, no final dos anos de 1980, a criação do Instituto Holandês de Arquitectura (NAI) instigou o debate cultural sobre arquitectura, seguindo uma estratégia de programação orientada para o presente e para o futuro.</p>
<p>A prática da arquitectura holandesa foi muito influenciada também por um significativo apoio estatal a jovens (e não só) escritórios, através de subsídios para estudos mais ou menos especulativos ou teóricos que contribuíram para o debate e para o aumento da produção de conteúdos actuais. Esses conteúdos fizeram florescer uma indústria de publicações com uma orientação internacional decisiva para a divulgação da arquitectura holandesa. Esta visibilidade, em conjunto com a livre circulação europeia e a abertura holandesa no uso da língua inglesa, atraiu uma quantidade invulgar de arquitectos estrangeiros, que, por sua vez, trouxeram à Holanda novas ideias e dinamismo no trabalho. Apesar de, nos últimos anos, muitas destas políticas e estratégias terem terminado, regredido ou sido canceladas, a arquitectura holandesa beneficia ainda desses anos de organização estruturada do contexto de trabalho.</p>
<p>Extraordinariamente, o êxito da arquitectura holandesa aconteceu sem que o exercício da profissão fosse exclusivo dos arquitectos. Na Holanda, qualquer pessoa pode “assinar” um projecto, desde que se dê ao trabalho de perceber como deve organizar um processo. Apenas o título de arquitecto, e não a sua actividade, é protegido. Isto significa que uma pessoa, mesmo com um diploma de arquitectura, não se pode intitular “arquitecto” sem estar registada no gabinete de registo, o Bureau Architectenregister, que regista também os profissionais de planeamento urbano, o paisagismo e a arquitectura de interiores. Este registo – cujo conselho de administração é nomeado pelo governo – é de inscrição livre para quem tenha um diploma (universitário ou não) em arquitectura. No entanto, seguindo o princípio da inevitável propagação de maus exemplos, a Holanda prepara-se para exigir dois anos de experiência profissional a quem se queira inscrever no registo. O sistema de verificação destes dois anos envolve tutores, módulos de formação e expedientes afins. Desconhece-se ainda o efeito desta medida no aumento das inscrições, mas o facto de o registo não ser obrigatório para a prática profissional não deverá resultar num aumento anormal e súbito do número de “arquitectos”.</p>
<p>É também pouco provável que, na Holanda, a exigência de experiência profissional tenha um impacto negativo no mercado de trabalho. As relações laborais já são maioritariamente regidas por contratos (com termo até um total de quatro anos, seguidos de contrato sem termo) sujeitos, por seu turno, a um contrato colectivo de trabalho (CAO) entre entidades empregadoras e assalariados. Este contrato colectivo é acordado no âmbito da SFA (traduzindo livremente: Fundação de Escritórios de Arquitectura), composta por representantes da BNA (Associação de Arquitectos Holandeses), e dos sindicatos. A BNA é uma associação de arquitectos e empresas de arquitectura (sem inscrição obrigatória) reconhecida para representar as entidades empregadoras. A representação dos arquitectos que trabalham por conta de outrem faz-se através das centrais sindicais. Uma vez que os arquitectos estão incluídos no sector da prestação de serviços, e devido à dimensão das centrais sindicais, os representantes dos sindicatos nestas negociações não são necessariamente arquitectos. Apesar disso, o contrato colectivo é uma referência para todos os arquitectos e empresas de arquitectura, independentemente de estarem inscritos na BNA ou nos sindicatos, ou, até, no Bureau Architectenregister.</p>
<p>O contrato colectivo da SFA regula o enquadramento legal, os direitos laborais (férias, pensões, etc.) e económicos (tabelas salariais) das relações laborais, e os contratos são ajustados e renegociados anualmente. A SFA publica também o Manual de Funções dos escritórios de arquitectura. Este manual tipifica várias famílias de funções existentes num escritório (desde arquitectos até desenhadores, passando por funcionários administrativos), dividindo as funções em várias categorias e descrevendo as respectivas actividades, as competências, as responsabilidades, etc. Cada categoria, combinada com anos de experiência, é identificada nas tabelas salariais. Embora sujeito a interpretações, este manual é uma excelente base de negociação e clarificação das expectativas de ambas as partes do contrato de trabalho. A contratação a “recibos verdes” ( <i>freelancer</i>) é desincentivada através de uma política de impostos agressiva e de regras que proíbem, por exemplo, que um <i>freelancer </i>tenha menos de três clientes por ano.</p>
<p>É irónico que, sem a aparente vantagem, que existe em Portugal, da obrigatoriedade de inscrição de todos os profissionais num organismo agregador, potencialmente capaz de representar toda a classe, as relações entre arquitectos no mercado laboral estejam bem definidas e protejam tanto os arquitectos empregadores como os empregados. A clarificação das relações laborais tem a vantagem adicional de regular, indirectamente, a capacidade competitiva e a viabilidade económica das empresas de arquitectura.</p>
<p>Por outro lado, numa curiosa inversão do caso português, a BNA – representando apenas parte dos arquitectos (e empresas) com actividade própria e uma minoria dos profissionais da arquitectura – não se detém na discussão infindável, e inevitavelmente gorada, da restrição do acesso à profissão e dos seus “actos próprios”. A sua missão é abrangente e visa promover as vantagens da utilização de arquitectos, apoiar a actividade através da publicação de contratos cliente-arquitecto de referência, proporcionar educação contínua dos seus membros e participar nas negociações laborais e salariais que afectam as empresas de arquitectura.</p>
<p>Uma Ordem abrangente e representativa poderia posicionar-se como interlocutor indispensável em todos os aspectos relacionados com a prática profissional, cobrindo tanto a vertente empresarial (procedimentos de encomenda e contratação, requisitos administrativos e de licenciamento de obras, sistemas de seguros, regulamentos de construção, implementação de <i>standards </i>e inovações tecnológicas, regulação dos honorários e apoio à internacionalização), como a vertente laboral (definição de papéis e responsabilidades, publicação de contratos de trabalho e tabelas salariais, planos de carreira), de modo a encontrar soluções inclusivas para todos os grupos de interesse debaixo de um só tecto.</p>
<p>A situação holandesa não é, nem de longe nem de perto, uma situação perfeita – tendo sido, por exemplo, abandonada a regulação do cálculo de honorários, que, todavia, continua a ser usada oficiosamente como referência. Contudo, sem Ordem, mas com organização, a Holanda conseguiu criar um mercado de trabalho relativamente justo e uma cultura arquitectónica dinâmica, vibrante e internacional.</p>
<p>Este texto foi publicado no J-A 250, Mai — Ago 2014, p. 422 – 423.</p>
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		<title>ARTEMOVSZK 38</title>
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		<pubDate>Fri, 10 Oct 2014 09:00:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>edit</dc:creator>
				<category><![CDATA[Correspondentes]]></category>
		<category><![CDATA[250]]></category>
		<category><![CDATA[Gabriela Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[Budapeste é uma cidade animada por uma intensa vida cultural. No entanto, a um observador mais atento não passará despercebida a quase total ausência de espaços de lazer à beira-rio. Esse mesmo observador concluirá, pelos muros altos que separam o Danúbio da cidade e que a defendem das invasões das águas em épocas de cheias, que tal falta se deve justamente a estas últimas, que impossibilitam qualquer projecto de contacto mais próximo e permanente com o rio.]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Budapeste é uma cidade animada por uma intensa vida cultural. No entanto, a um observador mais atento não passará despercebida a quase total ausência de espaços de lazer à beira-rio. Esse mesmo observador concluirá, pelos muros altos que separam o Danúbio da cidade e que a defendem das invasões das águas em épocas de cheias, que tal falta se deve justamente a estas últimas, que impossibilitam qualquer projecto de contacto mais próximo e permanente com o rio. Ainda assim, a subida sazonal das águas não demove os habitantes de usufruírem do rio – nas épocas de sol e calor, são instalados à beira do Danúbio bares temporários, que habitualmente se desmontam a partir de Outubro. Uma solução alternativa é a transformação de barcos em equipamentos de apoio como cafés, restaurantes e discotecas. Deste ponto de vista, o Artemovszk 38, ou mais simplesmente A38 ou Barco, não é original. Mas a aparente banalidade do Barco pode ser enganadora. O A38 não é somente uma embarcação transformada em espaço de lazer: além de ser um símbolo ímpar da cultura em Budapeste, é também um modelo de cooperação entre promotores culturais, arquitectos e engenheiros.</p>
<p>O A38 é a trigésima oitava embarcação de uma frota de cargueiros fluviais soviéticos. Foi lançado à água em 1968 e percorreu mais de três milhões de quilómetros a transportar pedra no Volga, até ser abandonado num ferro-velho ucraniano. Em 2002, foi adquirido, remodelado e transportado para águas húngaras. A escolha deste modelo não foi casual – os novos proprietários escolheram-no por ser mais largo do que os cargueiros que normalmente frequentam o Danúbio, mas é também evidente a atitude de não renegar o passado socialista.</p>
<p>Apesar de a sua face remodelada evidenciar uma nova função, a utilização de materiais mais industriais – metais e vidro – permitiu preservar o seu carácter original. A sala de concertos, que pode acolher até 650 espectadores e por onde já passaram alguns dos grandes nomes da música portuguesa – dos Clã ao duo Mário Laginha e Bernardo Sassetti –, está meio metro abaixo do nível das águas; esta solução, combinada com uma construção do tipo “caixa dentro da caixa”, oferece um isolamento sonoro consequente com o tratamento acústico (o A38 também está equipado com um estúdio para gravações de concertos). No <i>backstage</i>, onde funcionava a casa das máquinas e onde foi mantido um dos corpos do motor a <i>diesel</i>, existe um pequeno bar para os artistas e, atrás deste, o espaço da antiga cabine da tripulação foi transformado num quarto para albergar visitas. O restaurante, situado acima deste piso semi-submerso, permite desfrutar de uma maior proximidade com o Danúbio através das suas janelas rasgadas a todo o comprimento, a cerca de meio metro acima do nível da água. No convés, um bar-esplanada convida a grandes noitadas de dança ao ar livre, com vista para Buda e para Peste. Uma inteligente distribuição e reutilização dos espaços funcionais mostra que houve respeito pelo carácter original do Barco, e atenção aos pormenores, tendo a decoração sido deixada, em grande parte, a cargo de artistas plásticos.</p>
<p>No entanto, o que torna o A38 um lugar único não é a sua reabilitação (exemplar sem dúvida), nem o facto de se tratar de um barco (o que por si só converte o espaço num lugar especial e diferente), mas sim a conjugação deste lugar especial, inteligentemente aproveitado, com uma programação cultural bem pensada e muito diversificada. Da música clássica ao <i>metal</i>, de artistas internacionalmente reconhecidos a futuros talentos, o Barco oferece uma das melhores programações culturais em Budapeste. Dito de outro modo, o A38 é um bom exemplo de simbiose espaço/ função – o mesmo evento cultural noutro lugar não teria o carisma que tem no Barco, assim como o A38 não seria o Barco se albergasse outros eventos. O empenho de todos, dos promotores aos arquitectos, dos músicos aos artistas plásticos, da tripulação ao público que o frequenta, foi capaz de transformar um simples cargueiro de pedra recuperado de um ferro-velho ucraniano num lugar ímpar e ponto fundamental da cultura contemporânea húngara.</p>
<p>A qualidade da programação cultural do Barco está intimamente relacionada com a vontade de independência – apesar de usufruir de alguns apoios estatais, o pouco significado que estes têm no orçamento global defende a instituição de pressões políticas. Desde o momento da aquisição do Barco, da sua remodelação e manutenção, a independência foi uma prioridade. Os proprietários preferiram ficar ligados a um crédito com condições menos vantajosas, a estarem vinculados a patrocinadores que, mais cedo ou mais tarde, poderiam exigir contrapartidas indesejadas.</p>
<p>Os cerca de 600 concertos por ano confirmam a programação musical como o forte do A38. Mas a literatura, o cinema, a arte, a cultura em geral, também têm o seu lugar. E a crise parece não afectar o Barco, que navega cada vez mais ao encontro de novos públicos, e com êxito tal que não tem capacidade para dar resposta a todas as solicitações. Por esta razão, e ao fim de vários anos, a expansão foi inevitável. Mesmo tendo em conta dificuldades, custos e restrições inerentes a uma embarcação – despesas com aquecimento e descargas de esgotos; regras náuticas a cumprir, que têm a mesma rigidez das de um barco em movimento; semanas de encerramento não programado devido a cheias –, não houve dúvidas: o novo espaço anexo teria igualmente de flutuar. Porquê de novo um barco? A sua tripulação, que inclui técnicos de todas as especialidades, do som à náutica, vê os barcos “como símbolo poético de liberdade, viagem, aventura e descoberta” – e, em Budapeste, este é sem dúvida o melhor lugar para estar próximo do Danúbio. Desta vez, porém, com mais experiência, os proprietários preferiram um outro género de embarcação, mais simples e com uma manutenção menos dispendiosa: uma barcaça branca e paralelepipédica, multifuncional, com uma abertura ampla e franca ao nível do rio, e que funciona também como cais de embarque para o recentemente reintroduzido transporte público fluvial, onde, ocasionalmente, desembarcam artistas vindos de outras paragens.</p>
<p>No início deste ano, o A38 viajou até à Eslováquia, para a sua primeira revisão em estaleiro após uma década de funcionamento, e regressou pronto para mais dez anos de boa cultura. Um exemplo a seguir noutras águas.</p>
<p>Este texto foi publicado no J-A 250, Mai — Ago 2014, p. 420 – 421.</p>
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		<title>Veneza pronto-a-vestir</title>
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		<pubDate>Mon, 21 Apr 2014 08:00:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>edit</dc:creator>
				<category><![CDATA[Correspondentes]]></category>
		<category><![CDATA[249 @pt-pt]]></category>
		<category><![CDATA[Fontego dei Tedeschi]]></category>
		<category><![CDATA[oma]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro Lemos Cordeiro]]></category>
		<category><![CDATA[Rem Koolhaas]]></category>
		<category><![CDATA[Stefano Tornieri]]></category>
		<category><![CDATA[veneza]]></category>

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		<description><![CDATA[Após um longo período de negociações com o município de Veneza, já nada parece poder impedir a execução de um projecto polémico assinado pelo OMA, de Rem Koolhaas, para o centro de Veneza: a transformação do Fontego dei Tedeschi, o palácio dos alemães, numa megastore da Benetton. O]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a style="color: #ff4b33; line-height: 24px;" href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja249_site_07_veneza_700px.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2004" alt="Fontego dei Tedeschi, fotomontagem do projecto OMA.Fotografia cortesia OMA" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja249_site_07_veneza_700px.jpg" width="700" height="520" /></a>Após um longo período de negociações com o município de Veneza, já nada parece poder impedir a execução de um projecto polémico assinado pelo OMA, de Rem Koolhaas, para o centro de Veneza: a transformação do Fontego dei Tedeschi, o palácio dos alemães, numa <i>megastore </i>da Benetton. O edifício, um palácio do século xvi, localiza-se junto à Ponte de Rialto e, em 2008, foi vendido em hasta pública pela quantia de 53 milhões de euros. Com uma área de construção de 8629 m<sup>2</sup>, para além dos 1098 m<sup>2</sup> de túneis e dos 1113 m<sup>2</sup> de área descoberta, o edifício é representativo do carácter de Veneza e, como tal, é o objecto de desejo de muitos, acessível apenas a alguns e propriedade de um só.</p>
<p>Apesar de ter uma história marcada pelo comércio, primeiro como sede de negociantes alemães, no século XIX como alfândega e, posteriormente, como edifício de correios, a ideia de transformar o edifício num grande espaço comercial tem indignado a comunidade de Veneza. Entre 2008 e 2012, com a aprovação institucional, foram apresentadas duas versões oficiais do projecto. A primeira, mais arrojada, reflecte a força do desenho do escritório holandês e expressa um desejo de transformação característico, marcado pela inserção de umas escadas internas (rolantes e rotativas), de uma clarabóia percorrível (que cobre um pátio transformado em espaço de eventos) e de uma cobertura com um amplo terraço panorâmico. Uma proposta rejeitada pelos “puristas da conservação” e pelos serviços do município de Veneza, particularmente receosos do novo terraço. A rejeição sugeria a “redução” do impacto de algumas destas opções. A segunda proposta reduziu o terraço a um simples <i>belvedere </i>coberto e retirou as escadas rolantes do interior do pátio. As alterações introduzidas no projecto e o pagamento de seis milhões de euros ao município de Veneza permitiram a aprovação do projecto. As contrapartidas financeiras pagas pela Benetton foram justificadas pelo prefeito da cidade, Giorgio Orsoni, como uma “troca urbana”, ou seja, um acerto entre o público e o privado reconhecido pela lei. Esta negociação, por vezes caracterizada como um processo “louco”, marcada por inúmeras flutuações e polémicas, transformou o projecto numa solução de compromisso que enfraqueceu o resultado final. Algumas <i>nuances </i>ou pequenas alterações seriam porventura insignificantes na qualidade geral da intervenção, no entanto, e pelo contrário, as profundas alterações a que o projecto foi sujeito reduziram-no a um desenho vulgar, semelhante a qualquer outro “pronto-a-vestir”. O erro, e/ou equívoco, foi gerado nas formas de abordagem ao problema, tanto nos jornais como nas instituições, uma vez que se elas se centraram quase exclusivamente nas questões de forma, remetendo o edifício para uma noção simplificada de preexistência.</p>
<p>Koolhaas justificava-se citando o projecto original de Fra Giocondo e as acções de transformação, naturais, que acompanharam o seu restauro. Assim, manteve o debate sobre a dicotomia novo-velho, remetendo a questão para um nível apenas semântico. As posições dividiram-se. De um lado, aqueles que denunciaram o abuso e a descaracterização da primeira proposta; do outro, os que aplaudem o patrocínio da Benetton. No debate, torna-se cada vez mais visível a ausência de uma ideia para a cidade, sem se debaterem os modos de integração de novas formas de ocupação do espaço, nem as necessidades e exigências de um lugar tão especial, deixando-o à mercê das opções dos investidores e das circunstâncias de polémicas populistas.</p>
<p>A principal contradição que ocorreu durante a apreciação do projecto foi a exaltação da função pública do edifício por parte do município, que defendeu a transformação do pátio numa praça urbana, enquanto na cobertura optou por uma visão formalista, que reduziu o terraço a uma varanda coberta. A alteração distorceu a configuração original do projecto, enfraquecendo a sua fruição “vertical” e diminuindo a sua relevância na cidade – tal como Koolhaas insistiu, matando o que representava a sua principal qualidade. A realização do terraço permitia ter uma grande área de piso numa cota elevada, dotando a cidade de um ponto de vista que nunca teve.</p>
<p>Afastadas de uma visão urbana fundada nos princípios modernistas, muitas cidades europeias usam paisagens, enquadramentos, perspectivas e outros cenários como referências urbanas para definir uma ideia da cidade e do seu potencial futuro. Cidades como Hamburgo, Manchester, Amesterdão, têm características eventualmente semelhantes a Veneza, o seu desenvolvimento apoiou-se numa economia com base no comércio marítimo ou fluvial. A estrutura histórica dessas cidades e dos seus edifícios decorre dessa relação com a água. A orientação do seu desenvolvimento urbano tende a definir-se segundo políticas sustentadas numa ideia de cidade. As escolhas recentes de Veneza sugerem a ideia de cidade à venda – compra quem oferece mais –, revelando-se desinseridas de uma visão de longo prazo, de tal modo que as posições e interesses dos actores envolvidos no processo se fragmentam, incluindo os habitantes da cidade. Este projecto mostra que, se essa orientação económica tem efeitos urbanos, também tem efeitos perversos na possibilidade de construir edifícios singulares, forçando soluções de compromisso que pouco ou nada têm a ver com uma ideia de cidade.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Este artigo foi publicado no J-A 249, Jan — Abr 2014, p. 340-341.</p>
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		<title>Viu baleias, Heisenberg?</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Apr 2014 08:00:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>edit</dc:creator>
				<category><![CDATA[Correspondentes]]></category>
		<category><![CDATA[249 @pt-pt]]></category>
		<category><![CDATA[Hugo Oliveira]]></category>

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		<description><![CDATA[O vento caiu de repente, o céu começou a ficar carregado, e eles estavam no meio de uma tempestade, sem comida nem água. Werner Heisenberg e Niel Bohr, ambos prémios Nobel, faziam parte da tripulação de um barco no mar Báltico. Para eles, estas viagens ofereciam uma boa oportunidade de ter conversas sérias acerca de assuntos triviais. Perguntaram a Heisenberg se tinha visto alguma baleia enquanto procurava encontrar as luzes de algum navio. Teria ele visto baleias? “Não vejo nada a não ser baleias, ainda que algumas delas possam ser nada mais do que grandes ondas.”]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><b><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja249_site_07_ny_700px.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1996" alt="Skyline de Nova Iorque visto a partir do C-Lab" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja249_site_07_ny_700px.jpg" width="700" height="394" /></a>C-LAB, criação e transmissão</b></p>
<p>O vento caiu de repente, o céu começou a ficar carregado, e eles estavam no meio de uma tempestade, sem comida nem água. Werner Heisenberg e Niel Bohr, ambos prémios Nobel, faziam parte da tripulação de um barco no mar Báltico. Para eles, estas viagens ofereciam uma boa oportunidade de ter conversas sérias acerca de assuntos triviais. Perguntaram a Heisenberg se tinha visto alguma baleia enquanto procurava encontrar as luzes de algum navio. Teria ele visto baleias? “Não vejo nada a não ser baleias, ainda que algumas delas possam ser nada mais do que grandes ondas.” Naquela noite escura, talvez não fosse claro que a maior ameaça pudesse ser essa, tão óbvia como uma baleia, em vez de qualquer objecto iluminado. Na verdade, o cientista não confiava muito naquilo que via. Numa realidade tão obscura, até avistar um mamífero colossal pode ser ambíguo.</p>
<p>Como seres humanos, estamos interessados em saber a verdade. A realidade, e o modo como a entendemos, tem sido um assunto de discussão durante muitos séculos. De Aristóteles a Wittgenstein, da <i>Alice no País das Maravilhas</i> de Lewis Carrol até ao <i>Matrix </i>dos irmãos Warchowski. É importante ter em consideração, apesar de nos ser dito que a verdade está à espera de ser caçada, somos nós que a criamos. Somos nós que a criamos.</p>
<p>Como escreveu o filósofo americano Richard Rorty, “a sugestão de que a verdade, tal como o mundo, está algures por aí é o testemunho de uma época que viu o mundo como resultado da criação de um ser com uma linguagem própria. O mundo não fala. Somos nós que falamos. O mundo pode criar crenças em nós, depois de o termos programado como linguagem. Mas não nos pode dar uma linguagem para falarmos. Só outros seres humanos podem fazer isso”.</p>
<p>Grupos como o C-LAB (Columbia Laboratory for Architectural Broadcasting) são importantes para criar uma verdade. Esta verdade pode ser tão criativa como qualquer outra invenção imaginada por seres humanos. E as cidades alimentam a imaginação. Com sede em Nova Iorque, a cidade com maior diversidade de línguas no mundo, o C-LAB beneficia dessa circunstância. Enquanto laboratório autónomo da GSAPP (Graduate School of Architecture, Planning and Preservation at Columbia University), o seu objectivo é investigar o modo como os arquitectos usaram a linguagem para exprimir pensamentos no passado, e como poderemos no presente disseminar ideias novas a um público mais abrangente. O C-LAB partilha do ponto de vista da GSAPP quanto à importância que deve ser dada às cidades. Ambos reconhecem que a realidade fora do <i>campus </i>universitário é mais complexa que a sua. “Universidades sérias precisam de ser capazes de se virar para fora”, disse Mark Wigley, director da GSAPP, numa cerimónia realizada neste Outono. De momento, as cidades avançam mais rápido que as universidades. “Porque a cidade é tão complexa e difícil de entender, este é o momento para os arquitectos dedicarem mais tempo a essa tarefa e não desistirem”, defende o director do C-LAB, Jeffrey Inaba. Essa vontade também se exprime em parcerias, como aquela que foi feita com a Audi e que visa novas formas de mobilidade urbana, ou em palestras recentes na Architectural Foundation em Londres, sobre “cidades inteligentes” e sobre o modo como a arquitectura pode ser mais fundamental enquanto os espaços urbanos se tornam mais tecnológicos.</p>
<p>Tudo isto assenta no pressuposto de que a realidade está em mudança constante, razão pela qual, num sentido mais clássico, não se espera que ela suscite respostas inquestionáveis. Um dos sinais mais evidentes disso, no C-LAB, é a revista <i>Volume</i>. Nela, é crucial reflectir e problematizar sobre certos fenómenos. Como diz Mark Wigley: “Não sabemos o que é a arquitectura. Para nós, é uma grande questão. Queremos que os estudantes trabalhem nela, mais do que na sua solução. Deixamos para outras escolas, a tarefa de encontrar respostas.” Para tal, o C-LAB favorece uma abordagem interdisciplinar e resiste ao excesso de especialização.</p>
<p>Ao definirmos um problema, estamos a desenhar o que pode ser o futuro. É um exercício que requer abertura de espírito. Num ambiente complexo, é fundamental ter um panorama mais alargado da realidade e do que podemos pensar dela. Seja no mar Báltico ou em Nova Iorque. Nós, arquitectos, somos especialmente bons nisso. Em observar a realidade e criar novas verdades.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Este artigo foi publicado no J-A 249, Jan — Abr 2014, p. 338-339.</p>
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		<title>Austrália Sustentável</title>
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		<pubDate>Thu, 03 Apr 2014 08:00:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>edit</dc:creator>
				<category><![CDATA[Correspondentes]]></category>
		<category><![CDATA[249 @pt-pt]]></category>
		<category><![CDATA[austrália]]></category>
		<category><![CDATA[sandra furtado]]></category>

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		<description><![CDATA[Na Austrália, nos últimos anos, o discurso político em torno das questões ambientais tem-se intensificado, contribuindo, particularmente, para aumentar o debate sobre o impacto do crescimento das cidades e da gestão urbana no meio ambiente e nos recursos energéticos do país.]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja249_site_07_sydney_700px_a.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1986" alt="Lippmann Partnership/Roger Stirk Harbour &amp; Partners, 8 Chifley, Sydney, Austrália.Fotografia: John Gollings" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja249_site_07_sydney_700px_a.jpg" width="700" height="500" /></a>Na Austrália, nos últimos anos, o discurso político em torno das questões ambientais tem-se intensificado, contribuindo, particularmente, para aumentar o debate sobre o impacto do crescimento das cidades e da gestão urbana no meio ambiente e nos recursos energéticos do país. A maioria da energia eléctrica consumida no território australiano é gerada a partir de carvão mineral. Graças aos recursos minerais do país, é uma energia abundante e económica quando comparada com outras. Por outro lado, este método de produção energética é um dos mais poluentes no mercado das energias não renováveis, por gerar um nível elevado de emissões de carbono. Na transição para um futuro que se espera sustentável, o aumento do consumo de energias não renováveis continua a ser um dos grandes desafios da Austrália.</p>
<p>À medida que as cidades crescem, aumenta a procura de soluções energéticas. Este aumento põe sob pressão uma rede eléctrica datada e ineficiente do ponto de vista da distribuição. A Austrália tem ainda de superar problemas de transporte de energia entre centros urbanos que, ao contrário da Europa, distam entre si milhares de quilómetros. À dimensão continental do país acresce que o modelo de expansão económica e urbana é irregular e as diferenças geográficas e climáticas afectam o padrão de consumo energético (o território australiano abrange sete zonas climáticas distintas: deserto, clima temperado, tropical, subtropical, equatorial e pradaria). Em áreas com temperaturas extremas, a qualidade do ambiente interior depende em grande medida dos equipamentos de ar condicionado.</p>
<p>A maior parte da construção feita nas últimas décadas tem uma <i>performance </i>energética pobre. Esta realidade manifesta-se não só no edificado de pequena escala, mas também em edifícios de média e grande escala. Para dar resposta a este problema, o governo australiano tem vindo a regulamentar a <i>performance </i>enérgica nas novas construções, através da criação do índice BASIX (Building Sustainability Index) e do sistema de classificação NABERS (National Australian Built Environment Ratings System), ao mesmo tempo que tem criado incentivos a privados para a implementação de sistemas de produção de energias renováveis. Várias organizações não governamentais, como a BZE (Beyond Zero Emissions) ou a GBCA (Green Building Council of Australia), se têm associado a estes processos, promovendo o debate público e a criação de incentivos para a mudança do discurso na arquitectura e na indústria da construção.</p>
<p>Desde que se estabeleceu em 2002, o GBCA tem apoiado a “indústria de propriedade sustentável” e acompanhado a adopção de práticas de “construção verde” através da defesa e criação de incentivos de mercado (certificação Greenstar). O GBCA examina vários aspectos da arquitectura, como a gestão do projecto, a qualidade do ambiente interior, o consumo de água, os usos de materiais, sistemas de transporte, níveis de emissões, aspectos ecológicos e de inovação. Na última década foram certificados mais de 500 edifícios em território australiano, e o número de edifícios que aguardam certificação continua a aumentar. Este crescimento está associado a factores económicos, assim como a questões de imagem pública e a posições de liderança no mercado. Os primeiros indícios deste processo verificaram-se no projecto de edifícios de escritórios, dada a natureza competitiva deste sector do mercado imobiliário.</p>
<p>Tem aumentado consideravelmente o número de entidades que procuram um espaço que represente valores inovadores da cultura empresarial, sobretudo quando há vontade em associar o nome da organização a uma imagem de progresso tecnológico e ambiental. Esta tendência nota-se sobretudo em empresas imobiliárias de grande escala, que utilizam estes edifícios não só como espaços de trabalho mas também como “plataformas de promoção” da marca. Edifícios como o 30 The Bond, em Sydney, ou o pequeno edifício Pixel, em Melbourne, têm criado novos referenciais de excelência. A nova torre de escritórios no centro de Sydney, 8 Chifley Square, foi concebida tendo em consideração não só a <i>performance </i>ambiental mas, acima de tudo, a sua “postura social”, ou seja, oferecendo-se como um testemunho da influência da arquitectura no dia-a-dia dos trabalhadores, incentiva a colaboração no ambiente de trabalho e contribui indirectamente para o aumento da produtividade, criatividade e inovação.</p>
<p>De acordo com o WorldGBC’s Business Case for Green Building, de Abril de 2013, os níveis de aumento de produtividade em “edifícios verdes” variam entre os 10% e os 15%, e as taxas de retenção dos empregados, nomeadamente da geração mais nova, tendem a crescer. Verificou-se outra mudança significativa com o aumento do número de trabalhadores que correm ou utilizam a bicicleta a caminho do trabalho, práticas possíveis graças à existência de balneários e zonas de cacifos. O estudo também revela que são significativas as reduções de consumo de energia e água, bem como das operações de manutenção a longo prazo, e seus respectivos custos. A análise pós-ocupação do edifício da Câmara Municipal de Melbourne, a Council House 2 (o primeiro edifício de escritórios a receber 6 estrelas Green Star, a classificação máxima na Austrália), revela que os custos de manutenção foram reduzidos em cerca de dois milhões de dólares por ano. Dada a magnitude destes valores, o governo tem sido pressionado a comprometer-se com a realização de avaliações ambientais a todos os edifícios que lhe pertencem ou que esteja a desenvolver. É claro que uma decisão a este nível depende da colaboração dos vários níveis de governo (na Austrália existem o Governo Federal, Estadual e Local) e, dadas as divergências partidárias, o processo pode demorar anos até ser acordado. No entanto, têm-se verificado grandes mudanças na educação e na criação de incentivos do governo ao nível local, nomeadamente em cidades com taxas de crescimento e inflação elevadas. Por exemplo, a Câmara Municipal de Sydney foi a primeira entidade a comprometer-se com a meta “carbono zero”, através da redução gradual das suas emissões. Para atingir este objectivo, o município comprometeu-se a investir 12 milhões de dólares em energias renováveis ao longo dos próximos cinco anos, bem como no desenvolvimento de uma rede descentralizada de fornecimento de água para fins não potáveis e na aplicação de novas tecnologias na recolha de resíduos.</p>
<p>Ao longo dos últimos anos, os “edifícios verdes” têm sido responsáveis pelo desenvolvimento de uma indústria da construção mais inovadora, têm contribuído para o aumento do retorno sobre o investimento no valor de construção e, consequentemente, para o crescimento do número de organizações dispostas a investir na qualidade da construção, quer em edifícios novos quer em renovações. A prática da arquitectura tem tido um contributo significativo nesta transição, não só na adopção de soluções construtivas específicas, mas também na criação de espaços bem planeados e cativantes, capazes de incentivar os trabalhadores e de melhorar o seu bem-estar e produtividade.</p>
<p>Embora os sinais de mudança sejam prometedores, existem ainda grandes desafios urbanos. A maior parte do edificado existente está longe de cumprir níveis de <i>performance </i>mínimos, e, uma vez que o custo de implementação de medidas sustentáveis ultrapassa a possibilidade de muitos proprietários, há sectores em que a transformação tem sido mais lenta. Por outro lado, há “edifícios verdes” que se relacionam com as construções adjacentes para alcançar “economias ambientais”, como por exemplo o 8 Chifley Square, que recicla águas residuais dos seus vizinhos e as reutiliza no sistema mecânico de refrigeração do edifício. E há outros exemplos de simbiose urbana que estão a acontecer. Em Barangaroo South, os sistemas de energia, água, recolha de resíduos, transportes e outros estão a ser elaborados em paralelo, de tal modo que o excesso de “energia” num edifício possa ser utilizado por outro. Este género de intervenção normalmente extravasa os limites da propriedade e requer a coordenação de várias entidades (proprietários, investidores, governo, gestores de redes, etc.). Só com colaborações desta escala se poderão transformar os centros urbanos em “infra-estruturas verdes”, capazes de contribuir para a redução significativa das emissões de carbono.</p>
<p>Neste sentido, o desafio dos arquitectos perante o crescimento urbano e o impacto das cidades no meio ecológico transcende a escala do edifício e incorpora, cada vez mais, o diálogo interdisciplinar na procura de estratégias para um desenvolvimento sustentável. A noção de sustentabilidade manifesta-se para além do edificado – abrange aspectos urbanos, sociais, económicos e ecológicos, o que sublinha a importância dessa colaboração na definição de estratégias e meios para progredir em direcção a um ambiente mais produtivo, resiliente e saudável. Em suma, o futuro de uma Austrália sustentável depende não só do discurso político e da mudança legislativa em prol da sustentabilidade nos edifícios, comunidades e meios urbanos, mas sobretudo do envolvimento e colaboração entre diversas instituições públicas e privadas e grupos sociais, por forma a criar progressivamente cidades mais humanas, com um desempenho ecológico eficaz.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Este artigo foi publicado no J-A 249, Jan — Abr 2014, p. 334-337.</p>
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		<title>AUTO ITALIA SOUTH EAST</title>
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		<pubDate>Fri, 25 Oct 2013 10:30:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>edit</dc:creator>
				<category><![CDATA[Correspondentes]]></category>
		<category><![CDATA[248]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro Castelo]]></category>

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		<description><![CDATA[Hoje, em todas as actividades profissionais, os processos de pesquisa tornaram-se cruciais, mas o seu papel varia substancialmente. Além disso, desde cientistas a políticos, de professores a estudantes, cada um tem uma interpretação distinta do significado de pesquisa e da sua eventual utilidade. Independentemente de a sociedade ser hoje mais diversa ou mais homogénea, podemos afirmar com convicção que o arquitecto contemporâneo tem uma necessidade crescente de defender os seus projectos.]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja248_06_autoitalia_700.jpg"><img class="alignnone  wp-image-1457" alt="Auto Italia LIVE, Double Dip Concession, 2012. Transmissão ao vivo a partir de Londres, integrando a exposição 'Remote Control'. Fotografia: Ryan McNamara" src="http://arquivo2.jornalarquitectos.pt/wp-content/uploads/ja248_06_autoitalia_700.jpg" width="700" height="467" /></a><b>O papel da pesquisa no processo criativo</b></p>
<p>Hoje, em todas as actividades profissionais, os processos de pesquisa tornaram-se cruciais, mas o seu papel varia substancialmente. Além disso, desde cientistas a políticos, de professores a estudantes, cada um tem uma interpretação distinta do significado de pesquisa e da sua eventual utilidade. Independentemente de a sociedade ser hoje mais diversa ou mais homogénea, podemos afirmar com convicção que o arquitecto contemporâneo tem uma necessidade crescente de defender os seus projectos. Mas, mais do que fazer essa defesa, é necessário uma pesquisa constante de novas ideias, conceitos ou estratégias, que permitam ao seu trabalho destacar-se. Perante este cenário, o colectivo Auto Italia South East, com que tenho colaborado em Londres, tem procurado formas de redefinir e criar modelos de colaboração, produção e apresentação de pesquisa para as indústrias criativas.</p>
<p>Auto Italia South East é um espaço sem fins lucrativos, gerido e composto por artistas, que comissaria e produz trabalho inédito colaborando com um grupo transdisciplinar, que continua em crescimento e que também integra escritores, arquitectos, músicos, videastas, <i>performers</i>, académicos, etc. Um ano após a conclusão dos seus estudos, uma série de artistas decidiu criar as suas oportunidades, e proporcionar oportunidades para os seus colegas, de maneira a ter condições de produzir trabalho próprio. Assegurado o espaço – um antigo <i>showroom </i>de carros italianos no sudeste de Londres, que deu o nome ao colectivo – para levar a cabo o que inicialmente seriam poucas exposições, o grupo continuou a experimentar a ocupação do espaço e a expandir o seu círculo de influência e acção. Com dinamismo e perseverança, criou sinergias e entusiasmo à sua volta, ao ponto de se tornar um foco prolífico de produção cultural independente. Em 2011 passou a integrar o elenco do National Portfolio do Arts Council England, uma lista que enquadra organizações de produção cultural e estrutura o financiamento público dessas organizações.</p>
<p>A recente mudança do espaço original para um hangar vizinho em Old Kent Road foi um momento decisivo para o colectivo. Trata-se de um espaço de grandes dimensões, que, graças a diversos subsídios, tem sido generosamente equipado de modo a permitir a organização de eventos muito diversificados e de grande envergadura ou complexidade técnica. O primeiro a ter lugar no novo espaço intitulou-se <i>EPIC </i>e envolveu o trabalho de 50 artistas. Um outro projecto, realizado em 2010, foi o <i>Auto Italia Live</i>, em colaboração com um colectivo chamado Lucky-PDF, que consistiu na produção de cinco episódios de televisão, de uma hora cada, filmados com uma audiência ao vivo e difundidos em tempo real na Internet. Em 2011, uma segunda série teve como tema a maneira como a televisão afecta expectativas e percepções de cultura em espaços públicos. Entre outras iniciativas, refira-se também o <i>Yes</i> <i>Way!</i>, um festival de música e videoarte, produzido em colaboração com a editora Upset The Rythm.</p>
<p>Pela diversidade da sua programação é difícil definir com clareza o que é, de facto, o Auto Italia South East. Kate Cooper e Amanda Dennis, duas das fundadoras, vêm-no como uma forma de colaborar com artistas ou agentes culturais que elas estejam interessadas em conhecer melhor. Concebem o espaço como um catalisador que facilita diálogos e que ajuda a explorar um dos princípios inovadores deste colectivo: a “auto-educação”. Esta ideia tem sido a força motriz do Auto Italia South East.</p>
<p>O fenómeno da auto-educação é, hoje em dia, frequentemente debatido, e são já várias as instituições culturais de grandes centros urbanos – como a School of Life, a actuar em Londres – com iniciativas neste âmbito. O Auto Italia South East iniciou-se este ano nesta esfera de intervenção, organizando um grupo de pesquisa, denominado The Associates Program, consagrado ao desenvolvimento de acções centradas na auto-educação. Incluindo <i>workshops</i>, sessões de crítica, conferências, exibição de filmes, visitas guiadas, grupos de leitura, concertos, etc., trata-se de um projecto-piloto que tem já a ambição de se tornar um modelo a repetir. Um dos seus objectivos é tentar perceber a componente autodidacta e o significado da produção cultural da comunidade de artistas em que o grupo de participantes se insere. O método consiste em desconstruir e analisar o trabalho produzido, não só a nível colectivo mas também individual. Trata-se, pois, de uma plataforma de debate aberta a quem esteja interessado em discutir o seu trabalho ou em expandir o seu entendimento da produção criativa, através da análise dos temas que cada agente aborda no seu trabalho, dos meios e suportes que utiliza, bem como dos mecanismos de recepção ou das relações que estabelece com públicos específicos.</p>
<p>Tal como o programa geral do Auto Italia South East, que não segue necessariamente uma agenda curatorial predefinida, este novo grupo desenvolve-se organicamente, baseando-se nos interesses pessoais dos vários agentes que nele participam. Apesar dessa dinâmica orgânica, um dos temas que parece ser transversal às várias disciplinas é o dos métodos de pesquisa. No primeiro <i>workshop </i>que o grupo organizou, em Fevereiro deste ano, discutiu-se o tema da pesquisa no processo criativo, nomeadamente em arquitectura e <i>design</i>. O debate desenrolou-se em volta das seguintes questões: É a diversidade social que exige aos <i>designers </i>e arquitectos estarem constantemente a par das necessidades específicas de cada indivíduo? É esta diversidade que exige cada vez mais soluções específicas? Isto desafia os processos de pesquisa e criatividade, ou, pelo contrário, está a sociedade a tornar-se cada vez mais homogénea? Estará a sociedade a ficar tão saturada de produtos, tão idênticos entre si, que tende a criar necessidades cada vez mais sofisticadas nas estratégias de venda? Onde está a ser aplicada a pesquisa? E para que fins?</p>
<p>Neste debate estiveram na ribalta as práticas da arquitectura e do <i>design</i>, no âmbito das quais a pesquisa é muitas vezes tida como uma forma de evasão ao medo gerado pela página em branco, o medo de criar algo a partir do nada. Por outro lado, se a pesquisa é muitas vezes usada para gerar conteúdos e, inclusivamente, para produzir contextos, em arquitectura ela continua a ser sobretudo utilizada como método aplicado, ou seja, como defesa ou suporte das ideias de um projecto. Apesar de útil, a pesquisa aplicada tende a ser superficial. A par dela, existem modosde pesquisa no processo criativo que parecem ser relevantes, independentemente da sua utilidade ou aplicação prática e imediata. Trata-se de dar espaço a formas de pesquisa independentes, que não sejam compulsórias nem tenham de ser legitimadas pela prática ou pelo enquadramento disciplinar. Reconheceu-se o valor de pensar <i>out of the box</i>, a proliferação de práticas híbridas e, em paralelo, o valor de um conhecimento profundo que só a especificidade de uma disciplina pode proporcionar.</p>
<p>No contexto de uma prática de pesquisa independente e prospectiva, disciplinas como a arquitectura podem ser muito úteis, funcionando como instrumentos de edição, já que permitem enquadrar e perspectivar processos e ajudam a definir públicos e objectivos. Arquitectura e pesquisa têm uma relação simbiótica que, por vezes, não é evidente nem precisa de o ser.</p>
<p>No rescaldo do debate, concluiu-se que a pesquisa exige pensamento e inovação, exige que se apresentem desafios polémicos e questões pertinentes. Se hoje a noção de pesquisa está associada à ideia de rigor, a questão de fundo que emerge do trabalho do Auto Italia South East tem a forma de um dilema: Será que a procura de rigor nos tem permitido alcançar maior criatividade nos processos de pesquisa, ou, pelo contrário, a tem restringido?</p>
<p>Este artigo foi publicado no J-A 248, Set — Dez 2013, p. 252-253.</p>
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		<title>QUALIDADE QUANTIDADE</title>
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		<pubDate>Sun, 06 Oct 2013 12:00:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>edit</dc:creator>
				<category><![CDATA[Correspondentes]]></category>
		<category><![CDATA[248]]></category>
		<category><![CDATA[João Athayde e Melo]]></category>

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		<description><![CDATA[Estão em andamento duas obras estruturantes na capital de Moçambique, a ponte para a Catembe e a “circular de Maputo”, obras que prometem criar novos pólos de crescimento e desenvolvimento urbano, económico e social. No primeiro caso, fica a dúvida de estar a “carroça à frente dos bois”, uma vez que a ponte, orçada em 545 milhões de euros, ligará a cidade ao sul, actualmente uma zona rural e de praias com baixa densidade urbana. ]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone" alt="Obras do novo pontão para estabilização da praia da marginal de Maputo" src="http://r2design.pt/J-A/ja248_06_maputo_700.jpg" width="700" height="493" /><br />
Estão em andamento duas obras estruturantes na capital de Moçambique, a ponte para a Catembe e a “circular de Maputo”, obras que prometem criar novos pólos de crescimento e desenvolvimento urbano, económico e social. No primeiro caso, fica a dúvida de estar a “carroça à frente dos bois”, uma vez que a ponte, orçada em 545 milhões de euros, ligará a cidade ao sul, actualmente uma zona rural e de praias com baixa densidade urbana. Ainda mais duvidoso é o impacto que a sua construção vai ter na vizinha Reserva dos Elefantes, atravessada pela estrada (que por enquanto é uma picada) para a Ponta do Ouro e pela linha ferroviária que servirá o futuro porto de águas profundas em Techobanine, cuja obra de 5,2 mil milhões de euros já foi adjudicada.</p>
<p>Pelo contrário, a “circular”, uma rede de vias rápidas orçada em 225 milhões de euros, é, já hoje, uma necessidade, uma vez que o aumento do número de viaturas tem sido exponencial, congestionando diariamente as principais vias de acesso à cidade. A “circular” ligará o “corredor de Maputo” (auto-estrada EN4 que vem da vizinha África do Sul) directamente à Estrada Nacional n.º 1 (EN1), encurtando o caminho para norte e, sobretudo, desviando o trânsito de Maputo e da Matola. Englobado no mesmo projecto está um troço que, partindo do melhoramento e alargamento da marginal de Maputo, a liga à EN1, abrindo portas à criação de uma verdadeira frente marítima. A partir desta circular, uma ramificação duplica os acessos à pequena cidade de Marracuene, 30 quilómetros a norte, e um troço liga a EN1 à futura ponte para a Catembe.</p>
<p>Estas são as obras com maior impacto a que assisto na cidade desde que, em 1996, me mudei para Maputo, numa época em que Moçambique renascia após um longo período de guerra civil. Naquele momento, as carências eram enormes e o objectivo comum era o da reconstrução democrática de todo o país, num sentido lato, desde a educação, à saúde, da indústria à agricultura, da habitação ao turismo&#8230; A arquitectura tinha então um papel muito claro, despretensioso, intrinsecamente económico e ecologicamente responsável.</p>
<p>De certa forma, tal como a arquitectura tradicional sempre o fizera, a “arquitectura de arquitecto” não se podia dar a luxos supérfluos e assumia a sua responsabilidade social reduzindo a sua expressão ao essencial, usando tecnologias simples e comuns, enfim, sendo <i>low tech</i>. E isto empobreceu a arquitectura? De modo algum! Os bons arquitectos fizeram arquitectura despida de tiques, servindo os objectivos específicos do cliente de então, ao mesmo tempo que faziam uma arquitectura intemporal.</p>
<p>Moçambique foi-se abrindo ao mundo, primeiro por via das cooperações internacionais, depois através de megaprojectos industriais e extractivos, como a fábrica de alumínio ou as minas de carvão, e, mais recentemente, tem sofrido um grande influxo de profissionais europeus refugiados da crise económica, dos quais uma grande parte oriunda de Portugal. Moçambique deu-se ao direito legítimo de escolher os seus novos colonos, não só da velha Europa, mas também do Oriente, em particular da China, aceitando a promessa de obras importantes e estruturantes para o país, como estradas, hospitais ou escolas, mas também de obras monumentais, imponentes, modernas e voltadas para o futuro. Entraram em força modelos internacionais contemporâneos, vistosos, sonhos de progresso (miragens?) indiferentes à sua localização, ao clima, à sociedade e à economia local. Construíram-se, e constroem-se, torres de vidro seguindo o modelo do Dubai, telhados chineses e outras aberrações, mas, pior do que serem obras descaracterizadoras, são obras inadaptadas, de manutenção exigente, termicamente desconfortáveis, com consumos energéticos que se revelam financeiramente insustentáveis pelas instituições locais.</p>
<p>Seguindo (maus?) exemplos do “mundo desenvolvido”, o governo decidiu projectar o nome de Moçambique através da organização dos Jogos Pan-Africanos de 2011, uma espécie de Jogos Olímpicos africanos, com fraca expressão a nível mundial, mas com importância desportiva real no continente. A China e Portugal, prontamente, “ofereceram” crédito para a edificação das infra-estruturas necessárias, claro está, a ser concebidas, projectadas e construídas por empresas dos respectivos países. Foram reabilitadas várias instalações desportivas e, entre outras obras, foi construída uma nova “Vila Olímpica” com apartamentos para os atletas, Piscina Olímpica e o Estádio Nacional do Zimpeto. A competição realizou-se com relativo êxito e com um impacto mediático duvidoso, mas sem grandes falhas organizativas no plano desportivo.</p>
<p>Do ponto de vista das infra-estruturas, a rentabilização dos Jogos Pan-Africanos foi desastrosa e irresponsável. Salvo raras e pequenas excepções, os resultados foram uns quantos elefantes brancos, como o Estádio Nacional, obra que, “naturalmente”, resvalou dos 42 milhões de euros orçamentados para os 54 milhões e que não tem, até hoje, qualquer tipo de utilização rentável, ou a Piscina Olímpica, que, um ano após a inauguração, se encontrava inutilizável por falta de manutenção e para a qual só agora foi lançado um concurso com vista à sua gestão e exploração. Os apartamentos da Vila Olímpica, e a sua venda pública, estiveram envolvidos em polémicas com contornos nebulosos que não tem cabimento esmiuçar neste artigo, mas justifica-se destacar a sua paupérrima qualidade arquitectónica, urbanística e construtiva.</p>
<p>Um fenómeno que tem ocorrido em Maputo é o crescimento exponencial da periferia urbana, mal estruturada, constituída maioritariamente por habitações de nível térreo e por construção precária, que resulta essencialmente da migração das províncias para a cidade – inicialmente, populações que fugiam da guerra e, recentemente, que procuram melhores oportunidades de trabalho e de vida. A par deste crescimento, a “cidade de cimento” (como é conhecida a parte central da cidade, infra-estruturada, urbanizada e com edifícios em altura) avança igualmente sobre o subúrbio. Uma grande parte dos edifícios de habitação do centro urbano foi tomada por serviços públicos e privados, num processo que está a ampliar, cada vez mais, as distâncias de deslocação para a maioria da classe trabalhadora.</p>
<p>Numa cidade onde os transportes públicos são uma fracção do necessário, e onde o sector é dominado por um enxame de pequenos transportes colectivos privados, as novas estradas do projecto da “circular” apresentam-se como uma peça essencial para a fluidez do tráfego, a curto prazo. No sector da construção e da arquitectura, estas obras estruturantes vão seguramente abrir novas frentes de expansão, que, a ser bem aproveitadas, poderão beneficiar efectivamente a qualidade urbanística da cidade, em particular em zonas sensíveis mas com um potencial paisagístico extraordinário, como é o caso da marginal de Maputo. Apesar das dúvidas, só podemos desejar que, com a quantidade, venha também a qualidade, esse sim o grande indicador de progresso.</p>
<p>Este artigo foi publicado no J-A 248, Set — Dez 2013, p. 254-256.</p>
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